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Jovens negros em França: enquanto uns brilham no Mundial de Futebol, outros são mortos pela polícia

Cinco dos onze titulares da Seleção Francesa têm raízes na África Subsaariana. O defesa Umtiti é natural de Camarões. Os pais do médio Pogba nasceram na Guiné, os de Kanté, no Mali. O avançado de Mbappé é filho de mãe camaronesa e de pai argelino.
Fotografia: Paul Pogba, jogador do Manchester United e uma das vedetas da Seleção Francesa de futebol. Autoria: Wikimedia Commons.

Há pelo menos 20 anos, o país – que sempre teve homens brancos como chefes de Estado – depende de imigrantes negros para ser protagonista no futebol. Thuram, Desailly, Vieira e Karembeu, todos nascidos fora da Europa, carregaram o piano para o franco-argelino Zidane brilhar em 1998.

A aceitação e o reconhecimento em campo nunca significaram o fim da exclusão social, da xenofobia e da violência nas ruas.

No mesmo dia em que a França comemorava a vitória sobre o Uruguai nos quartos de final, mil pessoas marcharam em Nantes, a 340 km de Paris, em protesto contra o assassinato do jovem Aboubakar Fofana, de 22 anos, por um polícia. Depois da manifestação pacífica, os moradores atearam fogo a 50 automóveis, invadiram e destruíram vários estabelecimentos comerciais. Quatro pessoas foram detidas e passaram a noite na esquadra.

O agente da polícia, autor do disparo que atingiu o pescoço de Fofana na terça-feira, 3 de julho, não viu o seu nome ser divulgado à imprensa, mas cumpre prisão preventiva desde o dia 5. Na primeira vez que foi interrogado, disse ter agido em legítima defesa. Menos de 48 horas depois, mudou a versão e declarou que o tiro foi “acidental”.

Através do advogado Loïc Bourgeois, a mãe e irmã de Fofana acusaram a polícia e a imprensa de manchar a honra da família, ao destacarem o passado judicial da vítima. Filho de pais nascidos na Guiné, Fofana é negro e tinha um mandado de prisão por roubo e associação criminoa.

Historial perverso

Um dos grupos que organizou protestos pacíficos contra a morte de Fofana foi a Brigada Anti-Negrofobia. Os membros do movimento afirmam que a cor da pele e a origem social do jovem foram decisivos para que o disparo se tivesse dado.

A hipótese de crime racial encontra respaldo num historial recente de violência policial contra jovens negros em França. O caso mais emblemático aconteceu em 2005, quando dois adolescentes foram eletrocutados enquanto se escondiam da polícia numa subestação elétrica. Foram três semanas de protesto em várias regiões do país, com dez mil carros queimados num único dia.

Os incêndios chamaram a atenção do mundo para a “favelização” dos subúrbios das grandes cidades francesas – bairros sem infraestrutura de serviços, com prédios construídos há mais de 50 anos, onde vivem mais de 10% da população do país, inclusive Fofana e a sua família.

Fofana é regra, Pogba é exceção

Os craques da Seleção Francesa com ascendência africana foram criados em bairros com indicadores sociais semelhantes. O jovem Mbappé nasceu e cresceu em Bondy, distrito de 50 mil habitantes a 12 km de Paris, local de grande concentração de imigrantes de África e da Ásia. As condições de habitação, educação e saúde são precárias, e o desporto é vendido como a única forma de ascensão social.

Lagny-sur-Marne, comuna de 21 mil habitantes no interior de Paris também assolada pela pobreza e pela violência urbana, foi onde o médio Pogba passou a infância. Os pais do ídolo do Manchester United – assim como os pais de Fofana – deixaram a Guiné no início dos anos 1990, num movimento migratório que ficou conhecido como a “crise dos refugiados”.

A maioria dos pedidos de asilo que a França recebe vêm de cidadãos de ex-colónias de África, que falam francês e desejam escapar das mazelas ou das guerras civis, produto da divisão irresponsável do continente pelas potências europeias.

Além da Guiné, outros 19 países declararam-se independentes de França entre as décadas de 50 e 70. Três deles estão entre os cinco piores Índices de Desenvolvimento Humano do mundo: Chade, Níger e Burkina Faso.

Fofana poderia ser Pogba. Com um punhado a mais de oportunidade, talento, sorte, sabe-se lá o que lhe faltou. E o policia, que certamente admira Pogba, não poderia ter disparado contra Fofana. Mas disparou.

O incêndio que se alastrou em Nantes em pleno Mundial de Futebol não permite ilusões. Fofana é regra, Pogba é exceção. E a França só aplaude os excecionais.

Artigo publicado em Brasil de Fato. Adaptação para português europeu por esquerda.net.

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