José Pinho, o livreiro por acaso que espalhou o vício dos livros

27 de abril 2022 - 18:37

Teve várias profissões e só acabou por ser livreiro “acidentalmente”. Mas o seu nome passou a cheirar a livros. José Pinho criou livrarias que resistiram às grandes empresas do setor e se afirmaram como polos culturais, transformou Óbidos numa “vila literária” e animou uma associação que defende as livrarias independentes.

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José Pinho. Foto da Folio.
José Pinho. Foto da Folio.

O nome José Pinho cheira livros. Ficou conhecido no país como livreiro mas, antes disso, teve várias outras profissões. Nascido em 1953 no concelho de São Pedro do Sul, José Duarte de Almeida Pinho foi aos 19 anos para França. Voltou com o 25 de Abril de 1974 mas emigrou outra vez. Em França foi vendedor de jornais, ajudante de cozinha, barman, chef de cozinha e técnico fabril num estaleiro naval.

De regresso a Portugal, estudou Línguas e Literaturas Modernas. Foi professor de Português e Francês na Escola Secundária Camões, técnico auxiliar no Instituto Nacional de Estatística, diretor executivo e diretor-geral de uma grande agência de publicidade. Entretanto, foi diretor da ADECO, a Associação de Desenvolvimento Comunitário da Freguesia das Mercês, um grupo de pais que gere uma escola que segue um método pedagógico baseado no movimento da Escola Moderna, da direção da qual continuou a fazer parte. E ia editando com o amigo António Ferreira a Devagar que se apresentava como “revista literária e de análise e crítica social”.

Quando quis mudar de vida planeou ser “pastor moderno” conta em entrevista à Gazeta da Beira. Pretendia gerir os movimentos de um rebanho de cabras a partir de uma central computadorizada. Complicações na compra de um terreno fizeram-no mudar de rumo. E ao frequentar um curso

de especialização de Técnicos Editoriais na Faculdade de Letras, no qual procurava melhorar as suas aptidões enquanto editor da Devagar, encontrou vários editores que reclamavam por terem armazéns cheios de livros que as livrarias devolviam quando deixavam de ser novidade. Começou então a sua aventura editorial através da ideia de fazer uma “livraria de fundos”. Para isso, convenceu um grupo de amigos a tornarem-se seus sócios e a investir nesse projeto que os faria “empobrecer alegremente” como declarou ao jornal online lisboeta A Mensagem. Ou seja, aplicariam o dinheiro e “nunca mais recebem nada. Se ganharmos algum, fazemos mais projetos e livrarias”.

Acabou assim “acidentalmente” por ser livreiro. Nessa condição era sócio da Nouvelle Librairie Française e adquiriu em 2017 a centenária livraria Ferin, no Chiado, a “mais bela de Lisboa” como afirmava, salvando-a do encerramento. Mas o centro era a Ler Devagar da qual foi fundador. Esta abriu nas antigas instalações da Litografia de Portugal no Bairro Alto, em Lisboa, no ano de 1999. Em 2005 este espaço teve de encerrar e provisoriamente ficou nas instalações da Galeria ZDB. Dois anos depois, e em colaboração com outra livraria, a Eterno Retorno, criou o projeto da Fábrica Braço de Prata que contava com 12 salas de livraria, galerias, salas de concerto, bares, esplanadas e jardins. Um ano mais tarde muda-se para a Lx Factory em Alcântara onde assentou arraiais.

A Ler Devagar é não só uma livraria diferente que quer ser uma “livraria de fundos” e “local de encontro e de debate de ideias”. É igualmente um espaço criativo multiforme, biblioteca, galeria de exposições temporárias, galeria de exposição permanente dos “Objectos Cinemáticos” de Pietro Proserpio, Auditório, Discoteca, Restaurante e Bar.

Um novo salto no mundo dos livros é dado em 2013, estando José Pinho na génese de um projeto pioneiro: uma “vila literária” que transformará o centro de Óbidos. Uma “ideia louca”, como disse o ano passado, de fazer livrarias e residências literárias em espaços abandonados e de impor festivais literários num calendário local sobrecarregado de eventos turísticos. Acaba assim por transformar a maneira como esta é reconhecida internacionalmente. Em 2015, a UNESCO atribui-lhe a designação de Cidade Criativa da Literatura. Nesse âmbito foi coordenador da Óbidos Vila Literária, curador do Folio, o Festival Literário Internacional de Óbidos, e do Festival Latitudes, dedicado à literatura de viagens.

Entretanto, a sua atenção também passava por outros locais e projetos em Lisboa. Por exemplo, instalou a Biblioteca Erótica da Pensão Amor no Cais do Sodré e a livraria erótica Ler Devagar.Com Amor.

A sua trajetória de editor não foi feita só de sucessos. Em entrevista ao DN, reconheceu: "temos muitos falhanços: Culturgest, Cinemateca, Aveiro, Serpa, Vouzela. Ninguém falhou mais do que nós".

Em 2020, a Câmara Municipal de Lisboa anunciou o Festival Internacional de Literatura e Língua Portuguesa Lisboa 5L. José Pinho candidatou-se a diretor artístico e conseguiu o lugar. A pandemia impedirá a realização do que estaria planeado como a primeira edição, apesar de alguns eventos ainda se realizarem online. 2021 foi verdadeiramente o pontapé de saída do festival que, este ano, vai decorrer entre 4 e 8 de maio.

O associativismo do setor livreiro também é parte importante da sua história pessoal. Foi diretor da APEL, Associação Portuguesa de Editores e Livreiros e, recentemente, destacou-se enquanto criador e um dos principais dinamizadores da Rede de Livrarias Independentes, uma “associação livre de apoio mútuo” que luta pelas pequenas livrarias num tempo em que os negócios imobiliários, as plataformas online e as grandes livrarias comerciais esmagam a sua existência. Criada durante a pandemia, a associação de mais meia centena de livrarias dinamizou então campanhas para ajudar na sobrevivência das livrarias independentes.

Todas estas dificuldades têm significado que está longe o seu ideal de ter uma livraria independente em cada cidade e que a sobrevivência de projetos culturais alternativos seja por si só um feito. Em 2017, num Folio dedicado ao tema da revolução, em entrevista a Maria João Costa da Rádio Renascença justificava a insistência na atividade livreira: “para todos nós que nos metemos nisto, os livros são um vício”.