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Japão: ninguém sabe quando a tragédia vai acabar

Uma semana depois, as medidas adoptadas contra a tragédia nuclear são como dar um copo de água com açúcar a um paciente terminal. O mais provável é que haja mais fugas radioactivas.
Em Fukushima,todos, sem excepção, estão à espera para ver o que acontece.

Esta sexta-feira completou uma semana desde que o terramoto de magnitude 9 fez tremer parte do arquipélago japonês, seguido de um violento tsunami.

As mortes oficiais são de 6.584 pessoas e cerca de 10 mil continuam desaparecidos, segundo comunicado às famílias pela policia. Mas é um número que deverá ultrapassar os 20 mil mortos, já que algumas localidades têm, ainda, milhares de desaparecidos, como Minami Sanriku, na província de Miyagi e Otsuchi, na província de IwateIwate, cada uma com 10 mil desaparecidos.

As pessoas envolvidas são insuficientes e o resgate de corpos continua em ritmo lento. No momento, encontram-se desabrigados 280 mil pessoas, em mais de 2 mil abrigos provisórios, em diversas províncias do país.

Apesar da tragédia, tenta-se voltar à vida normal. Durante o dia, foi noticiado que algumas prefeituras locais colocaram à disposição apartamentos públicos, como a cidade de Nagalho, que colocou 761 apartamentos à disposição de algumas famílias provenientes do nordeste que já começaram a instalar-se. Enfrentando uma viagem de camioneta de mais de dez horas, vários moradores de Minami Sanriku chegaram à cidade de Iida, próxima aos Alpes Japoneses, na província de Nagano.

Neste momento em que escrevo, o primeiro-ministro fez um comentário em rede nacional. Foi uma colecção de palavras sem nenhum conteúdo prático, que não vale a pena citar. Mas a completa ineficácia do governo frente ao desastre, que é o maior da história, excluindo-se a desastrosa derrota na Segunda Guerra Mundial, está mais que comprovada e, pior, não há nada que se possa esperar.

A tragédia nuclear em compasso de espera

O que era uma das maiores centrais nucleares do Japão, com seis reactores e mais dois a caminho, provavelmente transformou-se no maior depósito de lixo radioactivo do planeta. Isso é o que o governo e a Tokyo Eletricidade se negam a reconhecer, colocando em risco a vida de milhares e, quem sabe, alguns milhões de pessoas que vivem nas províncias próximas a Fukushima, principalmente Tóquio, devido à importância social e económica da capital.

A maior parte dos esforços estão a ser conduzidos para evitar um escapamento de radioactividade do reactor 3. Duas medidas principais estão a ser conduzidas. A primeira, é deitar água do mar através de helicópteros do exército. Essa medida tem-se mostrado ineficaz, já que boa parte da água despejada do alto espalha-se, sem atingir o alvo, por causa do vento. Não resta dúvida que essa alternativa não tem nenhuma perspectiva, apenas é uma atenuação psicológica, para mostrar à opinião pública que algo está a ser feito. É como dar um copo de água com açúcar a um paciente terminal. A outra medida é a utilização de camiões-pipa, também do exército, que possuem bombas capazes de atirar água a vários metros de distância. Nesse caso, ao menos, atinge-se o alvo, mas não existe nenhuma conclusão quanto à eficácia dessa medida.

A situação concreta é que, após o colapso do sistema de refrigeração dos reactores nucleares, não existe uma única pessoa que possa dizer qual a verdadeira situação. Todos, sem excepção, estão à espera para ver o que acontece.

O mais provável é que haja uma ou mais fugas radioactivas. Quando isso vai acontecer, em quanto tempo e qual a proporção da radioactividade que irá escapar, que áreas serão atingidas, são questões que ninguém pode responder. Isto posto, 30km é um perímetro seguro para as pessoas ficarem? A impressão que dá é que estamos a viver uma breve calmaria antes de uma alarmante tormenta.

Os efeitos económicos

O desastre ocorreu na região de Tohoku, nordeste, mas está a afectar principalmente a região de Kanto, onde fica Tóquio. Em Kanto os transportes estão a funcionar de forma irregular. A interrupção de fornecimento de energia está a causar nada menos do que caos. O pânico está a fazer desaparecer os alimentos dessa área, assim como os combustíveis. Algumas actividades, que dependiam da produção dessa área, noutras áreas do país estão a ser paralisadas como resultado. Vivemos um momento onde não se pode dizer nada de concreto sobre a evolução da economia japonesa, mas todos os indícios apontam para uma séria crise económica.

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