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Janeiro de 1937: “Bombas dos Ministérios”

Entre 20 e 22 de janeiro de 1937, Lisboa foi acordada pelo deflagrar de algumas dezenas de bombas colocadas em Ministérios, em rádios e em empresas de produção de armamento e de distribuição de combustível. Por Luís Farinha.

Este episódio, pouco conhecido por ter sido pouco divulgado e sobre ele se ter lançado um manto de silêncio através da Censura imposta pela Ditadura, foi promovido pelo Comité Revolucionário de Barcelona da Frente Popular Portuguesa. Causou vários feridos e destruição de instalações e obrigou o Governo da Ditadura à declaração de um continuado estado de sítio na região de Lisboa, enquanto procedia à normalização da situação e à reinstalação dos serviços atingidos.

A Frente Popular Portuguesa

A partir da Primavera de 1936, com a vitória da Frente Popular em Espanha, convergem para Madrid as diferentes famílias políticas das esquerdas portuguesas – republicanos, anarquistas, comunistas e todo um conjunto de emigrados, civis e militares, que foram obrigados a abandonar a cidade durante o 2º Biénio Espanhol da II República. Por dificuldades inerentes à forte repressão montada pela Ditadura a partir de 1936 no interior do país, é no exílio que se vai forjar o Programa, a Estratégia e o Plano de Ação da Frente Popular Portuguesa. Começa, numa primeira fase, por constituir-se a UAPRE (União dos Portugueses Antifascistas Residentes em Espanha), uma organização que une diferentes famílias políticas em defesa das liberdades e na luta contra o fascismo em Portugal e em Espanha.

Em Madrid, na Castellana, a emigração política portuguesa ganhava um novo fôlego, em encontros que juntam, ali em liberdade, as mais diferentes sensibilidades da oposição a Salazar. São reuniões que permitem, pela primeira vez, sentar à mesma mesa republicanos (de vários matizes), comunistas (e mesmo anarquistas), numa aliança que permite delinear um Programa e realizar várias ações de propaganda que vão mais tarde desembocar em torno do jornal UNIR (Jornal da Frente Popular Portuguesa) e da FEPF (Frente dos Emigrados Portugueses em França), durante todo o ano de 1937 e início de 1938.

Pode dizer-se que a unidade programática geral foi atingida em torno de um fim comum – derrube do regime fascista de Salazar, através da mobilização “das massas populares em colaboração com as forças militares da democracia”. Com esta finalidade geral todos pareciam concordar. No entanto, separava-os a estratégia e a forma de angariar os meios a disponibilizar para um plano de ação revolucionária. À Frente Popular entendida como movimento de massas, movidas por reivindicações económicas e políticas (tal como preconizavam os comunistas), opunham os republicanos radicais a tradicional linha do golpe, levado a cabo em segredo por um reduzido número de antifascistas na clandestinidade, numa articulação entre o “interior” e o “exterior” do país. A discussão dos planos de ação no seio das organizações criadas (FPP, FEPF, jornal UNIR) vão mobilizar ações revolucionárias diferenciadas ao mesmo tempo que também era diferente o posicionamento dos exilados perante a Guerra Civil de Espanha: da neutralidade absoluta dos moderados à intervenção decidida ao lado das Forças Republicanas dos mais radicais.

O Comité de Barcelona

É neste contexto de unidade débil que, em 1937, os “Budas” (Jaime Cortesão, Jaime de Morais e Moura Pinto) voltam a ganhar centralidade., deslocando a sua atividade para Barcelona, com o argumento de a cidade ser mais aberta ao exterior que Madrid. Na verdade, também com a intenção de se autonomizarem em relação à atividade unitária com os comunistas, antes desenvolvida em Madrid, na altura cercada pelos nacionalistas. Jaime Cortesão e Jaime de Morais constituem na Catalunha uma Delegação local da Frente Popular Portuguesa. São, assim, credenciados como representantes daquela organização perante os membros da Frente que, de Portugal, demandavam aquela cidade espanhola e, muito especialmente, como representantes da FPP e porta-vozes dos portugueses junto do Governo espanhol e da Generalitat. Por esta altura, Jaime Cortesão e Jaime de Morais eram considerados os interlocutores privilegiados para os “assuntos portugueses”.

Em final de 1936, era público e notório – e também amplamente divulgado -, a ação de apoio de Salazar às tropas rebeldes de Franco: em facilidades no aprovisionamento de bens e armas que chegavam a território espanhol através de meios terrestres e marítimos portugueses e no policiamento da fronteira, com denúncia e reenvio para Espanha de republicanos espanhóis refugiados em Portugal. Isso mesmo tinha sido denunciado pelos exilados em sucessivos comunicados publicados na imprensa espanhola ou em declarações contundentes do ex- Presidente Bernardino Machado. O comunicado que mais repercussões teve foi publicado ainda em outubro de 1936 nos jornais El Sol e Claridad de Madrid.

As bombas dos Ministérios

Tornava-se, portanto, claro que o derrube da Ditadura em Portugal daria um contributo decisivo para a derrota de Franco. Essa era a convicção do Governo Espanhol e da Generalitat da Catalunha. Por esse motivo, vão conceder à FPP (Delegação de Barcelona) meios financeiros e logísticos para o desenvolvimento de ações de propaganda (na imprensa e na rádio) em favor da Espanha Republicana, o que podia envolver – e de facto envolveu – ações revolucionárias contra os alvos mais destacados e emblemáticos de apoio aos nacionalistas espanhóis em Portugal.

É nesta linha estratégica de combate ao nacionalismo belicista e colaboracionista que são levados a cabo os atentados à bomba de 20 e 21 de Janeiro de 1937, em Lisboa, contra os Ministérios da Educação Nacional, da Guerra e do Interior (neste último caso a bomba foi desativada antes de rebentar) e, bem assim, contra alvos de apoio concreto e material aos nacionalistas espanhóis: a Fábrica de Pólvora de Barcarena e armazéns de Caxias, o Depósito de Material de Guerra de Beirolas e os Depósitos da Vacuum em Alcântara. Também a Emissora Nacional e o Rádio Clube Português foram alvo de atentados, neste caso numa ação que procurava castigar os responsáveis pela descarada propaganda que era feita nas rádios portuguesas – onde ficaram conhecidas as célebres “charlas” do general Queipo de Llano. Os atentados chegaram ainda à Casa de Espanha, tendo algumas bombas sido desativadas pela polícia nos próprios dias 20 e 21 e nos dias seguintes. No terreno, os atentados têm a direção de José Maria Ferreira (mais conhecido por “Silva da Madeira”), um “correio” e um operacional do Comité de Barcelona.

Esta é uma “ação revolucionária” que terá desenvolvimentos no “interior” pelo ano de 1937, designadamente através do “atentado a Salazar”, ocorrido em 4 de julho. Anos mais tarde, no regresso a Portugal (1940) e perante o inquérito policial, Jaime de Morais declara que Silvino Ferreira (um operacional ligado ao Comité) lhe teria dado conhecimento da decisão do atentado, por carta, um dia antes da ocorrência. Através do rádio do PSUC, Jaime de Morais teria enviado mensagem, tentando “evitar o desastre” e reprovando o ato “como um grave erro) (IAN/TT, PIDE, Proc. 1279/40, f.21).

Um silêncio (in)esperado...

O Governo da Ditadura tinha facilitado (através de um abrandamento da Censura) a publicação de foto-reportagens abundantes e incisivas sobre a Guerra Civil de Espanha – em particular da violência que atribuíam à ação militar republicana. Repórteres portugueses tinham cruzado a fronteira e, a par das peças jornalísticas, abalançavam-se na produção de livros e de revistas em que se fazia propaganda nacionalista e se condenava – de forma encoberta ou explícita – o “governo legal” republicano.

Esta é uma “liberalidade” que termina logo que Salazar tem que lidar com a questão da “não-intervenção” promovida pelo governo inglês, com apoio de outras democracias e em que a posição de Portugal começava a ser difícil de explicar. E que termina também quando começou a ter algum peso – pelo menos simbólico -, o entendimento bem patente entre o Governo Espanhol e a comunidade de emigrados políticos portugueses em Espanha. Fora as notícias dos diários – o Diário de Lisboa publica notícias sobre os atentados a 21 e 22 de janeiro -, pouco mais se soube. E, ao contrário do que sucedeu na primeira fase da Guerra Civil, as reportagens fotográficas não existem agora, ou são muito raras.

 

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Sobre o/a autor(a)

Ex-Diretor do Museu do Aljube Resistência e Liberdade. Investigador no Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa
Termos relacionados Esquerda com Memória, Sociedade
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