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Jacinto Palma Dias: Coimbra sem travões

Jacinto Palma Dias, falecido a 11 de setembro vítima de doença oncológica, considerava-se um “lavrador de letras”. Foi resistente antifascista, exilado político, professor de história, escritor. O Esquerda.net reproduz um conjunto de textos do autor sobre a sua experiência universitária em Coimbra (1967-1969).
Jacinto Palma Dias
Jacinto Palma Dias. Foto publicada em jacintopalmadias.wordpress.com

Os textos que passamos a reproduzir foram gentilmente enviados por Helena Cabeçadas, amiga de Jacinto Palma Dias, ao Esquerda.net.

 


 

 

Momento 1

Coimbra sem travões, 1967/ 68 / 69
Tudo começou numa malvada prova oral de Teoria da História, na Faculdade de Letras da Lisboa de 1966 e na qual o professor Jorge Borges de Macedo me chumbou após ter elogiado a minha literatura por largos minutos. Terminado o discurso amoroso fez-me uma única pergunta à qual eu não respondi em correspondência. E pim! Vi logo por aí que a minha carreira lectiva em Lisboa estava arruinada enquanto aquele psicopata aí residisse como professor. Fui para Coimbra, mas o que eu não sabia era que Salazar tratava aquela universidade com benfeitorias que não abundavam nem em Lisboa nem no Porto. Ele queria que a universidade de Coimbra, que era a sua, fosse a melhor. E de facto quando para lá fui deparei-me com belíssimos professores na Faculdade de Letras, alguns deles dotados de um timbre intelectual muito elevado como foram os casos de Paulo Quintela, Orlando Carvalho, Fernandes Martins e outros mais. No entanto, um pouco mais discretamente, Maria Helena da Rocha Pereira espantava pelo facto de ser o mais notável no plano internacional pois escrevia com frequência nas revistas das então famosas universidades de Oxford e Cambridge. Foi com ela que eu reabilitei a auto-estima que perdera em Lisboa. Foi na sua cadeira de excelência – Cultura Clássica - que eu obtive a melhor nota de toda a Faculdade de Letras, 18 valores. E uma das razões que ela enunciou para tal resultado foi a mesma que conduziu ao meu chumbo em Lisboa, a minha literatura: a capacidade catártica de uma escrita como factor de conhecimento. Lavrei então um tratado de paz com o Jacinto Palma Dias.


Momento 2

Coimbra sem travões, 1967/ 68 / 69
Quando fui para Coimbra só estava a pensar em estudos. Não apreciava muito o fado, nem o de Lisboa nem o de Coimbra. Este último lembrava-me os trovadores da Idade Média. Para além disso os meus pais enclausuraram-me durante 4 anos num colégio de frades em Lisboa e aí também aprendi a não gostar nem de batinas nem de capas tanto como não me agradavam vultos sombrios, não era por aí que eu ia para Coimbra. Mas fomos. Eu, o Júlio Carrapato e o José Francisco Soares de Lima fomos para uma casa em Stº António dos Olivais, numa periferia da cidade e aí defrontei-me com uma inesperada revelação. Os "zés pereiras". Desfilavam nas festas das latadas. Eu nunca tinha ouvido daquilo. Fiquei fora de mim. Quando fui desterrado para o colégio dos frades a minha iniciação musical -"clandestina"- foi o rock’n’roll. O meu primeiro 45 rotações foi do Bill Haley and His Comets, tinha eu 13 anos. Os "zés pereiras" reataram essa linhagem de ritmo e percussão. Muito mais que no rock, encontrava eu ali uma sonoridade vulcânica, uma abertura a um xamanismo ancestral que a euforia ambiental criada pelas latadas permitia reviver. O algarvio de má raça estava assim a cumprir a máxima que os seus vizinhos do Alentejo lhe dedicam: "algarvios e cães de caça são todos da mesma raça".


Momento 3

Coimbra sem travões, 1967/ 68 / 69 (3)
Um dia apareceu-me o António José Matias a tilintar a campainha de Stº António dos Olivais. Era um colega de Lisboa. As nossas salas de aula em Lisboa eram divididas em duas partes. A metade da frente junto à secretária do professor era preenchida pelos alunos provenientes de Lisboa (Liceus Pedro Nunes, Camões, Maria Amália, Filipa). Tudo bem lá na frente. Na segunda metade, lá pra trás, estavam os que vinham do sul do Tejo. Era outro mundo. Foi aí que conheci o António José Matias. Era um rapaz de hábitos descoloridos, ninguém notava nele, mas o sorriso permanente que florescia em sua face voltava a atribuir-lhe cor. Origens operárias, humildes, distribuía discretamente Avantes e Militantes, os jornais do Partido Comunista. Eu nunca tinha tido acesso a essa literatura, mas forcei então os meus instintos liberais para o poder acompanhar. Foi então que ele me disse: "Eu não sou do PC. Distribuo isto à falta de outra coisa. Não me importo nada”. Percebi logo aí, estar perante um grande senhor, não o banqueiro anarquista, mas face a um proletário que era um príncipe. Recebi-o com enorme alegria e depois de fala pr’aqui e pr’ali disse-me: "Vêm aí uns moços amigos de França tentar fazer qualquer coisa... Se os puderes alojar... etc ". Não demorou mais que um mês e bateram à porta. Observei-os da janela do 1º andar. Eram quatro e tinham todos um chapelinho. Subiram as escadas sorridentes. Depois mostrei-lhes o quarto, o maior, onde os quatro ficariam alojados. Eu, o Júlio e o José Francisco fomos tratar do nosso jantar. Subitamente os nossos hóspedes deram de novo prova de vida. Aproximaram-se, sorridentes, e depositaram em cima da mesa de jantar uma verdadeira artilharia de armas automáticas.


Momento 4

Coimbra sem travões, 1967 / 68 / 69 (4)
Com tanta fartura na mesa ambas as partes tiveram de justificar o acontecimento. Eu tinha 22 anos e estávamos em 1967. Falei em nome dos estalajadeiros, todos algarvios, tal como era a naturalidade dos 4 chapelinhos exceptuando apenas um deles. Falou aquele que tinha semblante de leader, um homem alto de aspecto british, suave e de maneiras simpáticas, cerca de 40 anos. Era Hermínio da Palma Inácio. E repetia a linha programática de António José Matias: prioridade ao restabelecimento da democracia. Nada de ideologias a condicioná-lo. O facto de nos sete presentes apenas um (Camilo Mortágua) não ter nascido no Algarve lubrificou a conversa. Para além de Hermínio da Palma Inácio e de Camilo Mortágua, o quarteto completava-se com Luís Benvindo e António Barracosa (Faro). Os dados estavam lançados e cumprimos à letra a nossa condição quando mantivemos um absoluto mutismo até ao acontecimento que era por nós voluntariamente tido como desconhecido. Entretanto o Júlio mostrava-se farto do curso de Direito e memorizava muito mais os poemas de Verlaine e Rimbaud do que a sebenta de Direito Romano. E o José Francisco fora assaltado à mão armada pela Branca Preciosa de Matos que lhe aplicou uma chave chamada de "manta religiosa", ficando KO por largos meses. O que aconteceu naquela mesa de jantar iluminou-lhes de novo o horizonte. (continua)

p.s. Estes acontecimentos e outros são relatados com fidelidade por Luís Vaz, no seu recente livro "Hermínio da Palma Inácio e o assalto ao Banco da Figueira da Foz", onde aquele autor dedica um pequeno capítulo ao artista que está a lavrar estas linhas.


Momento 5

Coimbra sem travões, 1967 / 68 / 69 (5)
E os quatro chapelinhos iam e vinham no seu Peugeot 403, sem parar. Talvez fosse melhor resguardá-los um pouco. Por vezes os animais de caça acolhem-se num sítio onde seria improvável serem perseguidos, isto é, amalham-se junto à casa do caçador. E entre eles havia dois que tinham a cabeça a prémio (o Palma Inácio e o Camilo Mortágua). Decidi, assim, convidá-los a tomar o pequeno almoço no bar da Faculdade de Letras e não num café ou tasca qualquer. O bar das Letras era um sítio in face a estabelecimentos similares. E lá foram eles comigo sentar-se numa mesa junto à balaustrada. Tudo bem. Mesmo em frente estava uma mesa onde pontificavam o Paulo Quintela, o padre Miguel, o Orlando de Carvalho. Tudo era tão habitual que ninguém notava nos 4 chapelinhos. Na mesa do canto, à esquerda, a Ilda desdobrava-se nas suas hilariantes alegrias. Tudo segundo os conformes. E esses pequenos almoços repetiram-se. Claro que eles estavam armados. No intervalo das aulas apareciam os fitados de direito, que viam naquele sítio, repleto de raparigas, o seu couto de caça. E eram o Lucas Pires, o Júdice e outros dignitários da direita coimbrã. Dentro deste cocktail de gente insuspeita nada poderia parecer como objecto de suspeição. O acontecimento ocorreu a 17 de maio de 1967, muito antes de ser associado à organização conhecida por Luar e à qual eu nunca pertenci.


Momento 6

Coimbra sem travões, 1967 / 68 / 69 (6)
O hold up da Figueira da Foz trazia duas novidades. Foi o primeiro assalto de natureza política a um banco no pós-guerra europeu e, em segundo lugar,tratou-se da apresentação de uma iniciativa política de oposição ao regime que não era controlada nem pela oposição convencional nem pelo PC, o que deixou toda a gente de boca aberta, senão mesmo em pânico. A coisa fora feita e ninguém sabia nada sobre o acontecimento nem quem fora. Mas internacionalmente tornara-se famoso. Entretanto eu e o Júlio fomos de férias. Um dia, numa daquelas praias tão longas como desertas, vislumbramos dois indivíduos que se estavam a aproximar jogando capoeira, eram o Clynton e o Noro da república "Os milionários". Conversa menos conversa regressámos a Coimbra mas o Júlio já não voltou. Fora para França. Poucos dias depois, já em Coimbra, o Noro aparece convidando-me para ingressar na república. A minha entrada na república "Os milionários”- Rua Antero de Quental - representou uma novidade porque fui o primeiro continental a ingressar naquela residência de africanos e representará o segundo capítulo da minha estadia em Coimbra, a partir de agora virado para o mundo estudantil.


Momento 7

Coimbra sem travões, 1967 / 68 / 69 (7)
Estamos em 1968. A república "Os milionários" era constituída por dez repúblicos, para entrar era preciso ser proposto, os quartos eram individuais, tinha uma biblioteca onde se lia e ouvia música. Cada um de nós geria à sua vez o orçamento mensal. Empregávamos uma cozinheira que tratava de comidas e roupas. As refeições eram a horas certas sob pena de fortes penalizações pois eram os nossos momentos mais comunitários. Mas havia uma novidade que nas restantes repúblicas não era notícia. Não era um regulamento interno, uma regra, como nos conventos, isto é, cada principiante era objecto de uma outra e diferente denominação. Por exemplo, o Jacinto passou a Zafo, o Gilberto passou a Dgib ́s , o Amado passou a Bafo. Esta renomeação de cada um, perdendo por aí a anterior titularidade familiar, constituindo um hábito e não uma obrigação, uma jocosa nomeação e não um baptismo, tudo numa linha de espontaneidade..., porque por aí se constituía a regra não regulamentar mais importante de "Os milionários”, isto é, desfamiliarizavam-se para desse modo criarem uma nova família. Era assim, ninguém dava importância a esse procedimento espontâneo mas era determinante para uma residência de universitários se transformar numa comunidade.


Momento 8

Coimbra sem travões, 1967 /68 / 69 (8)
A pouco e pouco fui descobrindo que os meus amigos da república viviam uma situação estranha (quem está de fora vê melhor, dizem). É que a maioria não apresentava uma negritude como tonalidade epidérmica dominante. Eram mulatos e cabritos. Ora o Agostinho Neto, leader do MPLA, não via com bons olhos a presença de "meios-termos" na luta armada contra o regime colonial português. Tornava-se manifesto um esboço de racismo ao contrário, simétrico do colonial. Eles não o diziam mas tal situação roía-lhes o coração. Por isso o resultado natural dessa situação de contornos esquizoides foi a de que, se não podiam ser negros também não eram europeus, e como tal viraram-se para uma outra tropicalidade, alternativa, sobretudo no âmbito da música. Foi assim que eu descobri o Brasil. Com eles. E nesse capítulo o mestre de cerimónias era o Orlando "Papo". E por aqui também aparece uma segunda e determinante diferença com as outras repúblicas. Nós fomos, por tal, naturalmente imunes ao fado de Coimbra e às baladas. Ouvi pela primeira vez o Tamba Trio e o Zimbo Trio. E a primeira Elis Regina em 45 rotações e o jazz também já aparecia. E dançávamos. E depois a farra. E também aparecia no gira discos o Daniel Bacelar, a voz mais linda de todo o rock português, rock natural da Coimbra de 1960.No entretanto entrámos em pré campanha eleitoral para a direcção da Associação Académica.


Momento 9

Coimbra sem travões, 1967 / 68 / 69 (9)
As residências universitárias conhecidas pelo nome de repúblicas reuniam-se em Conselho de Repúblicas, uma instituição que respondia pelos estudantes enquanto a Associação dos Estudantes, a Académica, estivesse gerida por uma comissão administrativa nomeada pelo governo de Salazar, e que era o caso, mas não tinha valor de representação oficial dos estudantes. No entanto coube-lhe o papel de mover em seu nome a campanha eleitoral para a próxima escolha dos corpos gerentes da Associação Académica. Eu nunca tinha participado mas quando calhou a minha vez lá fui. Não correu bem. Eu na altura já era delegado de curso da minha turma bem como tinha alguma importância na exigência de um ensino com mais qualidade face aos seus elevados custos. Este discurso reivindicativo não era corrente nem em Lisboa nem no Porto. Também no Conselho de Repúblicas pareceu estranho eu acentuar isso e não apenas a liberdade na escolha da próxima direcção da associação. Mas as oposições às minhas intervenções foram-se atenuando até me tornar num intervencionista que a maioria achava importante, de tal modo que Luís Januário, novato de medicina, numa entrevista concedida a Manuela Cruzeiro e Rui Bebiano no livro "Anos Inquietos" a certa altura diz: "impressionou-me muito um que se chamava Palma Dias. Gostei muito. Impressionou-me muito a serenidade", (pág. 280 do livro atrás citado,publicado em 2006). E, de facto, quando a lista do Conselho de Repúblicas foi publicada eu fora escolhido para presidente da Associação pela lista substituta.


Momento 10

Coimbra sem travões, 1967 / 68 6/9 (10)
Pausa para variar. Publicidade: Jacinto Palma Dias. Os livros "Algarve Revisitado", "Metáfora da água, da terra e da luz na mitologia do Algarve arcaico" e "Algarve em 3D"estão esgotados. Escreves sobre o Algarve porque és algarvio? Idiotas. Se fosse de Trás-os-Montes escreveria os mesmos temas. Despegado de Portugal durante séculos pela sua condição de insularidade, o Algarve ainda hoje é um verdadeiro condensado cultural moçárabe, uma relíquia de biodiversidade e pioneiro do modernismo português nos anos 20..., que só não atrai a atenção a quem o vê apenas como uma mansa praia, óptima para o consumo de protectores solares. A tradução para inglês de "Algarve em 3D" está disponível bem como "Estéticas e Inestéticas no Algarve Contemporâneo". A 2º edição de"Algarve Manifesto" também já está disponível. Quanto ao mais especial de todos, porque versa sobre a história e cultura portuguesas, "Portugal antes de Portugal", lançado no Ateneu de Coimbra em 2016, só agora irá ser comercializado.


Momento 11

(Coimbra, Abril de 1969. Greve aos exames) (11)
Coimbra, 17 de Abril de 1969. Toma lá. Grande ajuntamento à porta do edifício das matemáticas. O presidente da república, almirante Américo Tomás, sai do rolls, é cumprimentado pelos importantes do sítio e dirige-se para o edifício, que vai ser inaugurado. Um longo e largo corredor está entre ele e o anfiteatro onde a cerimónia vai ocorrer. O poder está ciente da sua invulnerabilidade, foi displicente, não há seguranças e o corredor que o presidente tem de percorrer está a abarrotar de estudantes. Ainda não tinha chegado a meio e já levava encontrões. Nunca tal tinha acontecido a um supremo magistrado da nação.

Outra coisa aconteceu, alguém escorregou ou fingiu que escorregou. Eu estava perto, eu e o Tito Cardoso e Cunha. Reconheci o Sérgio Moutinho agachado ao lado do presidente. Tudo muito rápido. Ninguém percebeu bem mas o facto é que logo correu o boato de OS terem apalpado ao Tomás, boato que correu todo o Portugal nos dias que se seguiram. O Sérgio Moutinho, meu colega da faculdade de letras e querido amigo, infelizmente já falecido. Tinha vindo da universidade de Connecticut, nos states, vinha cheio de pica. Depois no anfiteatro o Alberto Martins pediu ao presidente da república para falar e Tomás recusou. Bronca. (está demasiado extenso, continuo depois)


Momento 12

Coimbra, 17 de abril (12)
Ao Alberto Martins, que era o presidente da associação dos estudantes, foi recusada a palavra na inauguração do edifício das matemáticas. O pessoal passou-se. Afinal o estado corporativo estava-se a negar a ele próprio, por a associação fazer parte de uma corporação, a Universidade. Adiante, ao fim do dia o Alberto Martins foi preso pela PIDE. O pessoal enervou-se, embora tenha sido libertado pouco tempo depois. A surpresa aconteceu no dia seguinte. Quando cheguei à faculdade de letras às 9 horas do dia seguinte, os alunos não estavam nas aulas devidas mas sim no anfiteatro do teatro da faculdade, a abarrotar, e eu e o José Maria Teixeira Gomes perante eles. Esperavam de facto por quem eles confiavam. Eu era o presidente da junta de delegados de curso de letras, uma organização informal na qual eles se sentiam em família . Tinham ocupado a faculdade sem darem por isso. O mesmo aconteceu na faculdade de ciências. Serão estas duas faculdades que ditarão a partir de agora os acontecimentos, não apenas por comportarem 3/5 da população universitária de Coimbra que já ia para os 8000mas sobretudo por imprimirem aos acontecimentos que se seguiram uma transparência de processos e uma jovialidade difícil de encontrar tanto nas restantes faculdades como em Lisboa ou no Porto. Por hoje chega. Amanhã há mais.


Momento 13

Coimbra, 17 de Abril de 1969 (13).
Não tardou um mês, foi tudo muito rápido. A certa altura já eram o trio letras/ciências/medicina que arrastavam a direcção da associação académica e não o inverso. Esta última era constituída por gente de direito. Estavam habituados a mandar, seja pela direita ou pela esquerda. Eram os herdeiros dos bacharéis coimbrões, praxes e fado de Coimbra. Em direito seria um contra-senso discutir a existência ou não existência de exames por estes serem a razão de ser do próprio curso. Pelo contrário, nos restantes cursos discutiam-se temas como democratização do ensino, aulas participativas, avaliação contínua... de facto as faculdades tinham sido ocupadas pelos estudantes enquanto as diferentes juntas de delegados de curso não paravam em discussões, diálogos ou conflitos com professores sendo que o tema central erao ensino. Uma movida que alastrou à própria cidade. Contaminou o futebol (final da taça de Portugal Benfica-Académica )... e não tardou ser decretada greve aos exames na assembleia magna de 28 de maio.


Momento 14

Coimbra 1969.
Greve aos exames. Pânico. Mas entre nós não pairava essa atmosfera e os rapazes - estávamos na casa dos 20 - estavam cientes de que algo parecido com um pelotão de fuzilamento os esperava no fim do filme. Muitos deles se chumbassem, e com a greve isso iria suceder, eram automaticamente incorporados na tropa e isso queria dizer guerra colonial. Às raparigas isso não acontecia mas a má fama que lhes seria atribuída tão só por tal mas também pelas então chamadas "más companhias" não lhes iria favorecer a imagem quando regressassem ao que na altura se chamava "província". Quem ficou em pânico foram os pais, as famílias, o reitor, os professores (alguns de nós eram muito bons alunos...), mas sobretudo o regime, tão só por a universidade decoimbrã estar associada intimamente a Oliveira Salazar mas porque tudo o que acontecia em Coimbra se saber rapidamente em todo o pais considerando ser Coimbra a universidade mais geograficamente bem representada em Portugal.


Momento 15

Coimbra 1969.
Greve aos exames. Nenhum pânico possuiu os estudantes, alguns detractores chamavam-lhes ingénuos, claro, em conversas de café. Nada disso, estavam pura e simplesmente em estado de graça. Não havia comparação com algo parecido que tivesse ocorrido em Coimbra ou Lisboa ou Porto. A grande mudança registou-se em letras, uma faculdade muito populacionada e maioritariamente frequentada por raparigas, as quais, pela primeira vez,mudaram o seu comportamento. O anfiteatro do teatro a abarrotar na manhã que se seguiu ao acontecimento do edifício das matemáticas já dera esse sinal. O meu querido amigo e já falecido João Marques, membro da junta de ciências,enviou-me um dado confirmativo, antes de falecer : ..." e quando em vésperas da decisão da greve aos exames (28/5) os estudantes de letras foram sondados por um inquérito 50% dos estudantes abordados dispunha se a aderir à greve pelo simples facto do exame lhes parecer a pedra angular de uma repressividade político-ideológica".


Momento 16

Coimbra 17 de abril 1969.
Quando a policia de choque , os carros de assalto e os cavalos vieram para a rua o nosso e ainda crescente" estado de graça" impediu nos de ter medo .tudo muito rápido , com a primavera a contaminar o desabrochar dos nossos sorrisos, de gostos aos quais nunca tínhamos tido o direito de fruir , de desejos que agora se derramavam livremente . as raparigas que estavam "aprisionadas " nos lares começaram a sair contra a vontade das respectivas famílias , o jardim da associação passou a ser um local de encontro , quase sempre cheios como se uma permanente assembleia magna estivesse reunida . o estado de graça parecia dilatar se a cada dia que passava . A intimidação provocada pelo aparelho repressivo que tinha ocupado as ruas não produziu o efeito desejado . finalmente , a greve foi cumprida a 85% . o governo , ministério , reitor , famílias etc tinham perdido por KO ao primeiro assalto .


Momento 17

Coimbra , 17 de abril 1969
Aquilo em letras funcionava assado e assim. Tínhamos uma linha média fortíssima constituída pela minha pessoa (Jacinto Palma Dias), o António José Remédios, a Rosa Guedes , o José Maria Teixeira Gomes (falecido) e o Sérgio Moutinho (falecido). Também podiam estar o Barata ou o Catroga, mas eram aqueles 5 que faziam a "transição", agora em linguagem futebolística, os que recuavam para ir buscar a bola para depois avançarem e distribuírem aos nossos pontas de lança, esses sim, uns extraordinários desequilibradores e que eram o Francisco Sardo, o Torquato Sepúlveda de Macedo (estes dois já falecidos) e a Teresa Saraiva, actualmente em parte incerta. A novidade de letras estava no facto de nenhum de nós ter estado ligado a qualquer força ou tendência política da Oposição ao regime salazarista vigente nessa altura. Funcionávamos a mando das nossas próprias cabecinhas. Livres como uns passarinhos. Foi também essas poses de naturalidade que fizeram aproximar os estudantes de letras dos seus leaders, como se provou pelos altos índices de adesão à greve.


Momento 18

Coimbra 17 de abril de 1969
Não foi com o aparelho repressivo que os diferentes poderes envolvidos na reacção contra os estudantes que o movimento foi derrotado, mas sim com a dispersão dos estudantes motivada pelo facto de, não havendo exames : "vamos para férias", e mais as férias propriamente ditas. Apanhando os estudantes dispersos isso queria também dizer desunidos, enquanto o jardim da associação perdia a função de Fórum permanente por esvaziar-se progressivamente. Só agora eles irão atacar. Julho: suspensão de 40 estudantes, escolhidos a dedo, e, claro, daqueles 40, 30 pertenciam a letras e ciências, não exactamente por serem as faculdades mais populacionadas mas sim porque fora delas que se destacara um novo perfil de dirigente, não afastado dos estudantes como até então era costume e de poder de decisão independente de qualquer pressão exterior.


Momento 19

Coimbra 17 de abril de 1969 (terminus).
Perdemos, assim, o segundo assalto não por ko mas aos pontos. No entanto, algo inesperado irá acontecer. Não só os estudantes suspensos mas também aqueles com idade de recruta militar que tinham chumbado com a greve, todos eles foram confrontados com uma imediata incorporação militar, algo como" condenados" a servir militarmente na guerra colonial, entretanto já em cenário de três frentes. Como as escolas militares não forneciam oficiais suficientes para as frentes da Guiné, Angola e Moçambique o governo viu-se obrigado a recorrer a universitários, os chamados "oficiais milicianos", muitos deles provenientes das "crises académicas", incluindo a de Coimbra. Processa-se assim um absurdo histórico: muitos pelotões em combate em África eram comandados por "condenados" a essa função, e não poucos deles irão aderir ou mesmo ocupar postos de comando no golpe de estado do 25 de abril.Vitória no terceiro assalto, embora indirectamente, isto é, em diferido.


Momento 20

Coimbra sem travões, 1967 / 68 / 69
Entre a minha estadia em Coimbra e depois em Bruxelas instalaram-se algumas semelhanças. Em Coimbra nunca frequentei as suas centralidades culturais como o TEUC ou o CITAC e outros, nem Mandarim nem A Brasileira. Eu circum-navegava, frequentava terrenos menos focados sem ter necessidade, no entanto, de me esconder de ninguém. Feitio esguio e discreto, dizem por aí,"um pouco tímido até"... Quando cheguei a Bruxelas confrontei-me com a emigração portuguesa, sobretudo a de origem política, e repliquei o meu comportamento de Coimbra. Isto é, contornei aqueles núcleos ligados a Portugal por um interminável cordão umbilical. A falar sempre e sempre do mesmo. Eu tinha a consciência tranquila, tinha desempenhado o meu papel,estava farto de baladas e lamurias. Resolvi desertar.


Momento 21

Coimbra sem travões, 1967 / 68 / 69
A Maria Helena da Rocha Pereira foi o professor que mais me impressionou na minha passagem por Coimbra. Chegado a Bruxelas no outono de 69, tive a chance de assistir às aulas de Pierre Verstraaten (filosofia) que era o director da revista "Les Temps Modernes" do Jean Paul Sartre. Anfiteatro enorme, sempre cheio, portas sempre abertas para quem quisesse entrar ou sair. Masquem deu a volta à minha carreira universitária foi Michel Foucault nos seus cursos livres no Collège de France. Foi com ele que aprendi a não ser um especialista, foi também com ele que aprendi a "agarrar" o olho do furacão para depois o descrever. Partir um bolo em fatias e depois não saber restituir-lhe a sua integridade, e por aí se declara a especialidade como a doença fatal da ciências humanas.


* Jacinto da Palma Dias (Castro Marim, Algarve, 1945-2020) era graduado em História pela Universidade de Coimbra / Universidade de Paris VIII (1973).
‘Algarve Revisitado’ (1994 – Loulé/Lisboa) é a primeira obra de sua autoria e também a primeira onde se aborda o tema das platibandas, em co-autoria com João Brisos. Em 1999, publica ‘A Metáfora da Água, da Terra e da Luz na Mitologia do Algarve Arcaico’.
Em 2012 apresenta ‘Algarve em 3D’, no qual faz um esboço do mapa gastronómico de Portugal. A obra foi traduzida para inglês e publicada sob o título ‘The Algarve, An Amazing Journey Through Gastronomy, Architecture Biodiversity’.
Segue-se, ‘Estéticas e Inestéticas no Algarve Contemporâneo’ (2016) no qual dá a conhecer um movimento modernista entre 1909 e 1929. Ainda no mesmo ano, apresenta em Coimbra ‘Portugal antes de Portugal’. (biografia in jacintopalmadias.wordpress.com)

Para mais informações sobre Jacinto Palma Dias seguir:
jacintopalmadias.wordpress.com
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