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Itália: onde pára a esquerda?

Os partidos à esquerda do Partido Democrático lutam pela sobrevivência nas próximas eleições. Em 2008 não conseguiram eleger nenhum deputado, se a situação se mantiver a coligação comunista arrisca-se a mergulhar num mar de irrelevância política. Fantasma da participação no governo de Prodi ainda pesa.
A coligação La Sinistra l'Arcobaleno (Arco-íris) não conseguiu mobilizar sequer o seu eleitorado fidelizado. Acima de tudo, a Coligação Arco-íris está a pagar pelo facto de ter apoiado durante dois anos o governo de centro-esquerda de Romano Prodi

É uma questão de sobrevivência, aquela que assola os partidos à esquerda do Partido Democrático (PD) nas próximas eleições, que se realizam em Itália no final deste mês. Nas últimas eleições, em 2008, não conseguiram eleger nenhum deputado no Parlamento.
Se isto se repetir nas próximas eleições, o futuro da Esquerda na Itália está em risco. O Partido della Rifondazione Comunista (PRC), o Partido dei Comunisti Italiani (PdCI), entre outros, foram excluídos devido à regra dos 4%.

A coligação La Sinistra l'Arcobaleno (Arco-íris) não conseguiu mobilizar sequer o seu eleitorado fidelizado. Acima de tudo – e a análise é unânime -, a Coligação Arco-íris está a pagar pelo facto de ter apoiado durante dois anos o governo de centro-esquerda do Primeiro Ministro Romano Prodi: Rifondazione, Comunisti Italiani, os Verdes e a Esquerda Democrática tiveram ministros em funções mas, em dois anos de mandato, nenhum deles realizou nenhum trabalho passível de ser mostrado. Os resultados falaram por si.

A vontade de sobreviver

Mesmo após cinco anos a fazer oposição fora do Parlamento, não se pode falar numa regeneração da esquerda em Itália. Em 2008, a Rifondazione Comunista, após uma cisão, separou-se, transformando-se em dois partidos. O porta-voz da minoria, Nichi Vendola, fundou a Esquerda Ecológica – Sinistra Ecologica Libertà (SEL) – que, nas eleições de 24 e 25 de fevereiro, aparecerá coligada com o Partito Democratico. A figura mais importante do Partido Democrático é Pier Luigi Bersani, que em Dezembro ganhou as eleições internas e assim se afirmou como principal candidato. Vendola, pelo contrário, perdeu as eleições na primeira volta com dececionantes 15%. Com esta derrota, decidiu apoiar Bersani.
 

Vendola está sem dúvida a aceitar um risco visto que, o PD como candidato favorito à vitória nas próximas eleições, não é uma força de rutura política. Significa isto que assumir um cargo no governo implica dar continuidade ao legado deixado por Mário Monti. A não renegociação do pacote de medidas Fiscais da União Europeia e das condições impostas a Itália na zona Euro e a impossibilidade de alteração das recentes reformas quanto ao despedimento de trabalhadores não deixam grande margem de manobra. Pequenas alterações nas taxas impostas pela austeridade de Monti podem ainda ser feitas, mas isto só acontecerá caso Bersani e o Partido Democrático o considerem aceitável.
 

É preciso ter em conta que, em breve, a Esquerda Ecologista de Vendola irá reunir novamente com Bersani e Monti ou, outra opção, é reunir com seguidores das políticas de Monti. A maioria absoluta está garantida na Câmara dos Deputados, no entanto, isto não é verdade para o Senado. Caso essa maioria não seja atingida no Senado, Bersani tenciona fazer uma coligação com a corrente ideológica de Monti. Para Vendola e o Partido Ecologista este seria um sapo difícil de engolir. Neste momento já existe uma acesa discussão entre Bersani e Vendola no que toca à participação das tropas italianas no Mali.
 

No entanto, enquanto Vendola se alia ao Governo, a coligação de esquerda Rivoluzione Civile está totalmente na oposição. Esta coligação, formada pela Esquerda Comunista, os Verdes e o partido Italia dei Valori – partido do ex-activista anti-corrupção Antonio Di Pietro -, tem algo de muito concreto em comum: a vontade de sobrevivência. Se falamos em vontade de sobrevivência, temos também de referir o Movimento Arancione – coligação vinda de Milão, Nápoles e Palermo - que ganhou as eleições regionais.

Deste contexto surge Antonio Ingroia, o candidato favorito da Rivoluzione Civile. Nascido em Palermo, em 1959, colaborou como jurista na Antimafia-Pool, da qual faziam parte os juízes

Falcone e Borsellino que foram assassinados em 1992. Ingroia é conhecido pela sua investigação no caso “Cosa Nostra”. Ele descreve-se como “partidário da Constituição” e no Outono lançou um apelo cujo slogan era Cambiare si può (É possível mudarmos). Ingroia declara-se laico, apoia o ensino público e as políticas anti-máfia. A polémica em torno do seu programa prende-se no facto de ser uma rejeição clara do programa de austeridade de Mário Monti e da versão light de Bersani.

É assim que Ingroia se distingue positivamente da Agitação do Movimento Cinco Estrelas, do comediante Beppe Grillo, que faz uma campanha cerrada contra o que designa de “classe política”. Recentemente, Grillo comparou os políticos com Mussolini, Hitler e Ceausescu pouco antes do colapso dos seus regimes.

O mal menor

No entanto, o movimento de Grillo representa uma forte concorrência para os restantes partidos à esquerda. É impossível prever se a Rivoluzione Civile vai conseguir ultrapassar a barreira dos 4% e, assim, assegurar um lugar na Câmara dos Deputados; na segunda câmara, o Senado, a votação mínima a assegurar é de 8%. Para o conseguir, Ingroia apresenta o argumento do “mal menor”. Dado que as sondagens mostram um aumento da intenção de voto na Direita de Berlusconi, Bersani e Vendola apelam ao voto útil no centro-esquerda. Em 2008, a coligação de centro-esquerda, liderada por Walter Veltroni, fez o mesmo e conseguiu, desse modo, desviar votos da coligação arco-íris.

As últimas sondagens preveem uma votação de exatamente 4% para a Rivoluzione Civile.

Nesta coligação, os comunistas estão numa forte campanha para que os eleitores votem melhor do que em 2008, o que não será fácil porque, como admitiu o secretário geral da Rifondazione Comunista, Paolo Ferrero, o “líder” Antonio Ingroia não personifica a tradição cultural e política. O camarada de Ferrero, Alberto Burgio, concorda. Num provocativo editorial de um jornal diário – Il Manifesto -, publicado a 15 de Janeiro, Burgio escreve “apenas o sucesso da Rivoluzione Civile pode trazer mudança, sem a qual a Esquerda em Itália poderá desaparecer por bastante tempo”. E acrescenta, “seria imperdoável não aproveitar esta última oportunidade”.


1. O sistema eleitoral italiano exige um mínimo de 4% dos votos para os partidos não coligados, e 10% para partidos coligados sendo que, no segunda situação, quando não se verifica a obtenção de 10% dos votos, aplica-se os 4% para partidos individuais.

2. Antimafia-Pool: Grupo de magistrados do Ministério Público de Palermo que, compartilhando informações, trabalharam para desenvolver novas estratégias de investigação para desmantelar a máfia siciliana.

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