Islamistas no coração da rebelião líbia

02 de setembro 2011 - 16:41

Os islamistas podem, de momento, parecer mais fortes do que são, porque só eles tinham líderes guerrilheiros experientes e uma rede organizada de simpatizantes em Tripoli. Por Patrick Cockburn.

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Abdul Hakim Belhaj, à esquerda: veterano da guerra do Afeganistão.

Tripoli – Milicianos rebeldes, muitos deles ex-prisioneiros de Muammar Khadafi, mantêm um controlo de ferro sobre Tripoli, mas pergunto-me quem vai deter a longo prazo o poder na Líbia. Issam, um islamista barbudo que controla um bairro da fortaleza revolucionária de Souq al-Jumaa, tem autorização para liderar 70 homens em armas de uma milícia local. “Não temos esse número de armas”, diz ele. De momento, não precisa delas, porque os fiéis a Khadafi “viraram 180 graus e juntaram-se a nós, ou estão em casa depois de lhes tirarmos as armas”.

Há um ano, Issam estava na cadeia, porque as forças de segurança detinham qualquer suspeito de ter tendências islamistas na época do aniversário do golpe de Khadafi de 1969, que foi apresentado como uma revolução popular. “Eles prendiam-me por um mês devido à minha barba, que consideravam islamista”, lembra Issam. “Tive sorte, porque muitos dos meus amigos apanharam dois ou três meses de cadeia só por terem barba.”

Grande parte da propaganda do governo na TV estatal da Líbia durante a guerra civil de seis meses concentrava-se na afirmação de que a rebelião estava a ser liderada por militantes islâmicos ligados à Al-Qaeda. O objectivo era assustar os EUA e a Nato no exterior e os líbios seculares no país.

Mas as acusações também tinha alguma credibilidade, já que a mais militante e experiente organização anti-Khadafi é o Grupo de Combate Islâmico Líbio (LIFG). Abdul Hakim Belhaj, um dos fundadores deste grupo, que travou uma feroz campanha de guerrilha contra o regime na década de 1990, é quem agora comanda as unidades da milícia em Tripoli.

Belhaj, 45, um veterano da guerra do Afeganistão nos anos 1980, é um importante jihadista que foi preso na Malásia em 2003, por ordem dos americanos, torturado na Tailândia e entregue à Líbia em 2004. Naquela época, os EUA e a espionagem líbia cooperavam na eliminação dos islamistas, e houve oficiais norte-americanos que alegadamente participaram nos interrogatórios em Tripoli.

Libertado junto com outros militantes em 2010 por um regime excessivamente confiante, Belhaj estava bem colocado para desempenhar um papel de liderança no planeamento e execução do ataque que conquistou Tripoli.

As atitudes anti-ocidentais dos islamistas líbios mudaram, ao reconhecerem que sem ataques aéreos da Nato Khadafi teria vencido a guerra. Os objectivos a longo prazo do LIFG podem não ter mudado muito, mas, como acontece com os islamistas na maioria dos países convulsionados pela Primavera árabe, há muito que reconheceram que precisam aliar-se aos liberais e secularistas para derrubar os Estados policiais na Síria, no Egipto, na Tunísia e na Líbia. Também precisavam distanciar-se da Al-Qaeda para evitar serem denegridos como párias internacionais, como Khadafi tentou fazer.

Os islamistas podem, de momento, parecer mais fortes do que são, porque só eles tinham líderes guerrilheiros experientes e uma rede organizada de simpatizantes em Tripoli. Estas células mantinham a existência com dificuldades antes da rebelião começar em 15 de Fevereiro, mas depois expandiram-se rapidamente.

Abdel Razzaq Targhuni, um corretor de câmbio líbio com simpatias islamistas, que vive no Dubai, lembra-se como voltou para casa no final de Fevereiro e começou a organizar o povo contra Khadafi no bairro rico de Andalus, em Trípoli. “Antes disso, não havia muito contacto entre células”, diz.

As lealdades e divisões das novas forças armadas líbias permanecem misteriosas, mas há sinais de problemas pela frente. O tenente-coronel Khalid Bilad, um oficial das Forças Especiais da Líbia que desertou no início da revolução, foi capturado, preso e torturado, mas fugir durante um ataque da Nato e, depois disso, ajudou a planear a insurreição em Tripoli.

A sua unidade, que já foi chamada de Leões de Tripoli”, juntou-se ao corpo principal de milícia e – por razões que o coronel se recusou a explicar – mudou de nome e assumiu o do comandante-em-chefe do Exército rebelde Abdul Fatah Younes, que foi assassinado e era ex-ministro do Interior de Khadafi, que provavelmente foi morto pelos islamistas.

Patrick Cockburn é o autor de Muqtada.

Publicado em 31/8/2011 noCounterpunch

Traduzido por Luis Leiria para o Esquerda.net