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Irão: mulheres contestam a obrigatoriedade do "hijab"

Várias mulheres no Irão tiram o “hijab” em protesto contra a sua obrigatoriedade desde 1979.
Vida Movahed antes de ser presa por descobrir a cabeça em público.

No final de dezembro, o Irão passou por fortes protestos contra a subida dos preços dos alimentos, a corrupção e o Governo, motivados pela perda de 15% da riqueza do país na última década, pelos 12% de desemprego e pelas sanções impostas devido ao programa nuclear assinado em julho de 2015 com 6 potências internacionais.

Os protestos, que o aiatolá (o mais alto dignitário na hierarquia religiosa) Ali Khamenei considerou maquinados “pelos inimigos do Irão”, começaram em Mashhad e estenderam-se a várias cidades, tendo subido em termos de intensidade e violência. Desta forma, tornaram-se na maior onda de manifestações contra o Governo de Teerão desde 2009, aquando do movimento verde (2009-2011), cuja mobilização fez abanar a Revolução Islâmica.

Nesta onda de protestos, quase passou despercebido o protesto solitário de uma mulher que tirou o hijab (lenço islâmico) e, de cabeça descoberta, subiu a um caixa de eletricidade com o lenço pendurado num pau. No entanto, a imagem veio a tornar-se viral e, semanas mais tarde, várias mulheres replicaram o gesto, e até homens, num protesto contra a obrigatoriedade do uso do véu na República Islâmica, estabelecida em 1979, aquando da Revolução Islâmica. Posteriormente, veio a descobrir-se que essa mulher era Vida Movahed, que foi presa e libertada na passada segunda-feira, após um mês de detenção. Nesse mesmo dia, foi detida uma outra mulher, que replicou o gesto da primeira. Usava uma pulseira verde, possivelmente em referência ao Movimento Verde de 2009, cujos líderes ainda se encontram em prisão domiciliária. Correndo o risco de serem castigadas, algumas mulheres têm testado os limites, desafiando as autoridades, ao usarem o lenço solto (e arriscando ser multadas por “mau hijab”) ou tirando-o enquanto conduzem.

A jornalista Masih Alinejad tem estado a concentrar as fotografias dos protestos, que podem ser encontradas em My Stealthy Freedom. Alinejad vive desde 2009 nos EUA e teme ser detida caso regresse ao Irão. Entretanto, começou um movimento online, com a hashtag #WhiteWednesdays, no qual, às quartas-feiras, várias mulheres usam um hijab branco ou se vestem da mesma cor em protesto contra o uso obrigatório do lenço. Uma vez fotografado o protesto, Alinejad compila e publica as imagens.

Mohammad Jafar Montazeri, juiz e procurador-geral do Irão, veio considerar, em declarações à agência ISNA, que este comportamento é motivado pela “ignorância” e que é fruto de uma “estimulação de sentimentos” que vem “de fora do país”. Desvaloriza-o no contexto de um país de 80 milhões de pessoas, em que a maioria das mulheres usa xador ou hijab, o que, na sua ótica, significa que a maioria não irá permitir “que se aplique uma diretiva do inimigo”. Assim, considera que este protesto é um “movimento infantil” com o objetivo de se repercutir nas redes sociais e que segue um plano predeterminado. Está, portanto, em consonância com Khamenei, que considerou os protestos de dezembro como ação dos “inimigos do Irão”.

Nota-se, assim, uma dissonância entre as novas gerações de iranianos e o fervor religioso do governo e das gerações anteriores. As primeiras enfrentam a desaprovação do poder político e a possibilidade de castigos, o que inclui penas de prisão.

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