Invasão do Iraque: há 20 anos a direita portuguesa quis ficar na foto da guerra

19 de março 2023 - 21:21

A invasão do Iraque começou numa madrugada há exatamente 20 anos. Seguindo os EUA, a direita portuguesa no governo jurava que existiam “armas de destruição maciça” no país e hospedou a cimeira da guerra. Passado este tempo, a narrativa está desmontada e os pormenores esquecidos. Mas o Iraque continua mergulhado na instabilidade.

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16 de março de 2003. O então primeiro-ministro Durão Barroso é o anfitrião de um encontro que ficou para a história como a Cimeira das Lajes. Apesar do seu esforço para ficar na fotografia, grande parte dos meios de comunicação social internacionais ignoram-no. Os protagonistas reais são George W. Bush, Tony Blair e José Maria Aznar que decidem a invasão do Iraque. Cabe ao presidente norte-americano lançar mais claramente o ultimato dirigido a Saddam Hussein: “Desarme imediata e incondicionalmente ou haverá sérias consequências”.

20 de março de 2003. De madrugada, começa a guerra. Oficialmente conduzida por uma coligação de 46 países, liderada pelos EUA. No terreno, nesta fase, só enviam tropas os próprios norte-americanos, o Reino Unido, a Polónia e a Austrália.

O pretexto principal era a suposta existência de “armas de destruição maciça” no país. Os falsos relatórios norte-americanos insistiam na sua existência e Paulo Portas jurava que vira as provas. Só que das missões da ONU e da Agência Internacional Atómica chegavam informações contrárias: não havia quaisquer provas da existência de tais armas reiterava, nas vésperas da invasão, Hans Blix, chefe da UNMOVIC, Comissão das Nações Unidas de Vigilância, Verificação e Inspeção com base nas inspeções no local, nem vestígios de uma imaginária tentativa do Iraque de importar urânio do Níger.

A narrativa das armas foi perdendo força logo depois da invasão e até a CIA reconhecia que pudesse ter sido exagerada. Blix insistia que era uma mentira. Anos tarde, em 2016, o inquérito Chilcot, encomendado pelo governo britânico, concluía que a decisão da invasão não foi de todo baseada em quaisquer informações fidedignas sobre armas possuídas pelos iraquianos. Para além disso, provou-se que a guerra estava decidida meses antes da cimeira das Lajes, essa mesmo que Durão Barroso tentará fazer passar em Portugal como uma “oportunidade para a paz” e que era apenas uma encenação de guerra. “Em março de 2003 não havia nenhuma ameaça iminente por parte de Saddam Hussein”, concluiu-se nesse documento.

Barroso terá mentido a Sampaio sobre as Lajes

A cimeira das Lajes abriu também uma crise institucional em Portugal entre o primeiro-ministro e o presidente. Lembra o Expresso que “Durão Barroso disse que Jorge Sampaio esteve “expressamente” de acordo com ela, este negou e afirmou que o então primeiro-ministro lhe garantiu que era “uma derradeira tentativa para a paz e evitar a guerra” e que a seguir pela “primeira vez no país, quando são solicitadas tropas para o Iraque vai a GNR e não as Forças Armadas, porque o presidente, seu comandante supremo, se opôs”.

A Visão invoca o livro “Mantenham-se Loucos e Famintos” de João Gabriel, ex-assessor de imprensa de Sampaio, onde se recorda essa reunião de 14 de março de 2003 na qual o primeiro-ministro foi garantir que a cimeira serviria para “encontrar uma solução pacífica para a crise do Iraque.” Sampaio terá reagiu imediatamente com “forte irritação” porque percebeu que estava a ser enganado: “o rosto estava fechado e mostrava tensão. Não via naquele encontro nada que pudesse ser admirado, nem sequer acreditava nos fundamentos que Barroso lhe transmitira”. Um ano e quatro meses depois, Barroso troca o cargo pelo de Presidente da Comissão Europeia.

20 anos depois, o Iraque não é o prometido paraíso democrático

O regime de Saddam é facilmente derrotado em semanas, apesar das caricatas intervenções na comunicação social do seu ministro da Informação, Muhammad Saeed al-Sahhaf que se torna um ícone mundial pela sua fabulosa denegação da realidade. Para ele, o Iraque esteve sempre a ganhar apesar de tudo e os soldados norte-americanos suicidavam-se às centenas com medo. Na sua última conferência de imprensa, a 8 de abril, afirma perentoriamente no topo de um hotel onde se via o fumo e se ouviam as sirenes: “não há tropas americanas em Bagdade”. A cidade já estava a cair face à invasão. Só em dezembro, o fugitivo presidente iraquiano é capturado sujo e desorientado próximo da sua cidade natal. Depois será executado. E as “armas de destruição maciça” teimavam em não aparecer mesmo depois do país estar dominado.

Para além da geopolítica e dos efeitos que perduraram na região, um balanço mais sério é o dos milhares de mortes deixados para trás. Pela invasão e pela guerra civil que rebentou imediatamente a seguir, entre grupos sunitas e xiitas e com o “Estado Islâmico do Iraque e do Levante” e apoiantes da AlQaeda. A guerra não trouxe a prometida democracia próspera e a instabilidade política permanente e os atentados frequentes seguiram-se ao longo dos anos. Assim, só em 2011 as tropas norte-americanas saem totalmente do país e só em 2017 o “califado” do “Estado Islâmico” é declarado derrotado.

No ano passado, em agosto, depois do líder religioso xiita Moqtada al-Sad ter anunciado a saída política a tensão rebentou e os confrontos entre milícias na suposta zona de segurança onde está instalado o governo, a zona verde, estalaram, causando pelo menos 15 mortes. Em outubro, depois de um ano de impasse após as eleições finalmente um presidente e um governo são eleitos. Em dezembro, o “Estado Islâmico” volta a atacar à bomba perto de Kirkuk matando nove polícias.