A intervenção político-cultural – um terreno em vias de extinção (I)

30 de maio 2023 - 11:14

Publicamos a primeira de quatro partes de um texto lido por Eduarda Dionísio em Abrantes, durante o Festival do Imaginário, em novembro de 1999, publicado ainda nesse ano na publicação digital Non! Revista crítica de opinião, ideias e artes.

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Eduarda Dionísio.
Eduarda Dionísio. Foto da Casa da Achada,

Parte I: Entendamo-nos sobre cultura e sobre política

1.

«ÀS VEZES SOU PESSIMISTA E PENSO a cultura eleva-nos à categoria de gansos engordados à força de cultura - a cultura serve para se ter um ar inteligente quando se aparece na televisão - a cultura é um exercício de egoístas ciumentos uns dos outros - a cultura não é mais do que uma história de agente de turismo para nos levar a comprar postais - a cultura de uns serve para abafar a cultura dos outros - a cultura culpabiliza (num museu faz-se silêncio, num bar não) - a cultura é a bolha que acompanha o ranger das botas - a cultura tem de nos fazer crer que o artista é um ser superior - a cultura é um bónus da sociedade de consumo - a cultura é para impressionar os pobres - a cultura é o pretexto para invadir os outros povos (para lhes levar a cultura) - a cultura permite aos que sabem envergonhar os que não sabem». [1]

Não sou eu que o digo, é Ben(jamin Vautier) - um artista nascido em 1935, ligado ao movimento Fluxus, esse movimento dos anos 60 que pretendia "misturar a arte e a vida" e cujo programa incluía instalações e provocações, das últimas que se terão feito convictamente neste século.

Onde é que me encontrei com estas frases? Precisamente na ex-capital da cultura, Paris, mais precisamente no Museu Beaubourg, um dos museus mais museus, o modelo de uma série que havia de chegar a Portugal e que corresponde a uma nova fase do conceito e prática da cultura e do entendimento da sua função política: quando se percebeu (há vários anos já) que não seriam as vacas (sem BSE ainda) a fazer a unidade da Europa, a impô-la como "Comunidade", começou a forjar-se um outro suporte e instrumento de "unificação": a "cultura" a que se chamou "europeia", terreno ambíguo, todo ele "espiritual" mas com fortíssimas amarras económicas, ou seja um terreno político.

É assim que Ben, cuja obra de arte principal era a sua minúscula loja de discos em segunda mão em Nice, aceita transportá-la "mumificada" para uma instituição estatal de peso, o Centre Georges Pompidou (que lhe compra a "instalação" em 1975), assumindo ambos (vendedor e comprador) a contradição e exigindo Ben, para a minorar, poder actualizar pelos anos fora objectos e inscrições que nela figuram.

Diariamente passam pela "loja" de Ben muitos japoneses e outros turistas de várias nações. Eu só dei por ela nos anos 90. Fotografei o texto, o que é proibido. Fui repreendida por esse roubo cultural que estava a praticar. Não pude evidentemente continuar a desobedecer: não fotografei tudo.

Tenho, entretanto, utilizado este texto um pouco por todo o lado, nomeadamente na Associação Abril em Maio, uma associação cultural a que pertenço. Vamos divulgando em agendas e folhas volantes estas frases que dizem bastante sobre a cultura de hoje. Sem pagar direitos de autor nem a Ben, nem ao Estado francês, claro está… A um canto, escrevemos: "frases roubadas a uma obra de arte exposta num museu".

2.

Mas o texto de Ben, escrito em letras coloridas numa das paredes da sua ex-loja, actual objecto de museu, não pára aqui, e o resto ainda conseguiu ficar na fotografia. Tem uma segunda parte, toda ela interrogativa, com uma caixa para respostas por baixo. Depois de afirmar sobre "cultura", o texto interroga sobre "arte", uma pergunta em cada linha: «PERGUNTAS: quem decide a arte? porquê a arte? para que serve a arte? a arte é indispensável? de que é feita a arte? o que é a arte? para onde vai a arte? quais são os limites da arte? a arte para quem?»[2]

Perguntas habituais (mais académicas umas do que as outras), mas nem sempre lembradas e pouco respondidas (até talvez sirvam para nunca o serem), que, colocadas na sequência das declarações anteriores, nos obrigam pelo menos a fazer o esforço de separar "cultura" de "arte", a admitir que são dois terrenos que não coincidem necessariamente ou que só por acaso ou por circunstâncias especiais coincidem. E então pensaremos que, perdida a "batalha da cultura", se aceitarmos como boa a "denúncia" que Ben faz dessa "cultura" (ou do seu entendimento e da sua prática), parece restar o terreno das "artes" - aquele onde é possível interrogar - aos que sempre acreditaram e não deixaram ainda de acreditar que há uma "intervenção político-cultural" a fazer dentro do grande programa que é transformar o "estado das coisas", "transformar o mundo", "transformar a vida". Ou seja: o terreno das artes, aparentemente pelo menos, aparece-nos com mais utopia, menos totalitarismo e mais liberdade do que o da cultura.

3.

E é aqui que entra a política e as suas recentes mudanças. Socorro-me dum texto do Jorge Silva Melo que tem a experiência simultânea de "agente" da cultura institucional (programação de teatro no CCB) e de "artista independente" - director da companhia de teatro "Artistas Unidos" cujo programa assenta na vontade de fazer regressar o "teatro político" ou, mais simplesmente, na valorização da dimensão política do teatro. Intitula-se o texto "Teatro para os novos reis, religião dos novos papas" e é um texto fundamental. Com pouca divulgação, obviamente, porque editado por duas associações culturais e feito contra a corrente, para um colóquio realizado durante a Expo a que os organizadores deram o nome de "Em tempo de Expo há outras histórias para contar". E havia. Entre elas, a que Jorge Silva Melo contou:

«O teatro dos novos reis, herdeiro, como seria previsível, das máscaras de Luís XIV ou dos desfiles de Isabel I, Oriana - tem como primeira função mostrar o poder novo (e se possível tecnológico) desses mesmos novos reis. A sua função é a parada. Leitão de Barros e as suas Marchas Populares descendo Avenida abaixo venceu, mesmo que seja um grupo com o nome (terrorista e romântico) de "O Bando" quem lhe herdou recentemente o facho. E nós ainda havemos de ver, em dia de S. Genebro, padroeiro do Teatro, um PR qualquer passar revista aos actores de Portugal devida e agradecidamente empenachados».

Ora

«o teatro é dis-senso.

Mas para que ele pudesse existir, não é só dinheiro, salas, equipamentos que são precisos: seria necessária uma abertura (individual, colectiva, céptica, esperançosa, distante, o que se quiser, mas uma abertura) ao Outro.

Mas que Outro pode haver se tudo é o Mesmo?

Por isso mesmo, neste momento esquisito da História e do Fogo de Artifício, o Teatro lá se foi, procissão abaixo.»

O que resta como o nome de "teatro" não é, para Jorge Silva Melo, propriamente teatro:

«É um género novo e de agrado (até há muito pouco tempo) muito certo. E de certo esquecimento. O espectáculo de aparato que abandonou a noção de pertença em relação a uma sociedade e que conquistou a noção de deslocação - pode ir onde o quiserem e onde o pagarem. O espectador deixou de ser bom ou mau, o homem a quem se destina sairá da função não transformado (nem para o bem social nem para o mal a-social), entrará não nas trevas nem na claridade, ganha sim o seu certificado de pertença a uma comunidade trans-nacional, trans-classista, trans-económica, trans-linguista: a dourada e sempre volátil "comunidade cultural". O espectáculo não existe para criar a clareza ou o debate, a perplexidade ou a dúvida. Não existe para cimentar uma comunidade ou construir/abalar uma sociedade. Existe em si, deixa-se ver, passeia-se pelo mundo e, quando muito, atribui atestados de cultura (alta cultura, dizia-se antes) ao espectador que entra quase sempre por convite. Uma frase comum dos espectadores destes espectáculos é "vi-o em Taormina, em Edimburgo, em Viena, em Madrid, em Bruxelas". Esta nova forma de espectáculos nasce das companhias, mas das de aviação e das cadeias internacionais de hotelaria».

No meio disto, Jorge Silva Melo admite que "o mundo também mudou e não basta fazer troça: há que saber (e é esse um dos fascínios de uma arte da actualidade e de uma produção necessariamente cínica como será sempre a do teatro) quais as respostas mais activas, mais perspicazes, mais agudas, mais contraditórias para as novas perguntas que hoje em dia se nos põem»[3].

O que só será possível, acrescento eu, se não tiver desaparecido como o teatro (com o teatro) a própria política, entendida como esse confronto com o tal "Outro", ou seja se não tiver deixado pura e simplesmente de haver "Outro", se tudo não tiver passado a ser o "Mesmo". E Jorge Silva Melo retoma o tema em recente entrevista:

«Esse problema do Outro é o problema fundamental da sociedade. O teatro é o lugar por excelência do outro. E tenho muito medo que o outro seja apenas um objecto de voyeurismo, pôr uma série de burgueses a ver as experiências de droga dos tipos que não querem ver na rua.

O grande problema entre teatro e política é a confusão entre pensamento político e exortação política. Exortar tem muito pouco de político, no sentido em que político é o desejo de diálogo, de lutar um com o outro. O teatro é sempre político nesse sentido. É sempre o confronto entre duas vontades no palco, entre uma vontade no palco e a plateia, entre várias vontades que estão ali em conflito. É a experiência da vivência política que me interessa, seja ela aplicada a uma história de amor, seja ela aplicada a um desejo de poder»[4].

4.

Entendamo-nos:

Para colocar a questão da "intervenção político-cultural" - saber se ela existe, em que pode consistir, para que serve ou pode servir, quem a pode ou deve fazer - temos de ter alguma consciência das "novidades" destes tempos com "novos reis" e "novos papas" numa "política" sem "outro" (ou quase) em que o discurso domina a prática e impõe a realidade. E em que para designar realidades que pouco mudaram se usa um vocabulário novo, em grande parte herdado de tempos antiquíssimos, recuperado ora em nome da "modernidade" ora da "pós-modernidade", e sempre do consenso.

No discurso sobre a sociedade e a política, sobre o tal "Outro" que se tem tornado o "Mesmo" (isto à medida que se desenvolve e especializa o discurso sobre o "Outro") e onde entronca o terreno da "intervenção político-cultural", deixou de haver "trabalhadores" (empregados, desempregados ou por empregar), voltou a haver "cidadãos"; deixou de haver "classes sociais" e "fracções de classe", há grupos de "utentes" e de "clientes", classes designadas por letras maiúsculas (ou "grupos de interesses", ou "minorias étnicas", noutros casos); deixou de haver "exploração", "opressão", "repressão" para haver "exclusão"; deixou de haver "capitalismo" e fala-se então em economia ou sociedade "de mercado"; deixou de haver "imperialismo" e passou a haver "globalização"; deixou de haver "emancipação", há é "livre concorrência" e "competição". E a cultura e os "gestores culturais", os organizadores da cultura, têm uma bem maior visibilidade do que a "arte" e os "artistas" - pelo menos dos que não são "mediáticos", porque não querem ou porque não podem.

5.

A situação em que hoje vivemos é, no fundo, aquela para que Guy Debord chamava a atenção quando dizia há uns anos: «Dantes, só se conspirava contra a ordem estabelecida. Hoje conspirar a favor dela é uma nova profissão em grande desenvolvimento». A "cultura" é um campo importante dessa "conspiração", para não dizer que é o campo por excelência.

Se se puder falar de "tarefas" (como insisto em fazer), há uma primeira tarefa (prévia em relação a todas as outras) neste domínio: é um trabalho sobre o vocabulário. Ao começar a chamar os bois pelos nomes, a "intervenção político-cultural", que infelizmente, quando parecia justificável e pujante, se colocou quase sempre, e sem muitas dúvidas sobre a sua eficácia, do lado da mera "resistência" - a um regime político totalitário, ao "obscurantismo", ao "baixo nível cultural dos povos", ao "pensamento único" mais recentemente - poderia deixar de ser esse terreno em vias de extinção e passar a ser um lugar decisivo de proposta. Para recolocar o "Outro" no centro da sociedade e, porque ter medo de o dizer?, para que a emancipação do pensamento e das práticas de cada um aconteça - uma óbvia condição de felicidade.

Aqui chegamos provavelmente ao reino da "utopia". Pelo meu lado, continuo a conseguir imaginar uma sociedade em que o pintor é aquele que "entre outras coisas pinta", em que uma cozinheira poderia ter a mesma oportunidade para ter vontade de o ser do que eu e sê-lo como outra pessoa qualquer. Pensar numa sociedade assim, serve-me pelo menos como ferramenta para viver nesta, correndo riscos, que passam por memórias incómodas e fenómenos diversos que são parte necessária desta "utopia". Lembro o esquecido e obscuro suicídio de Maiakovski. Lembro as "previsões" e expectativas de Mondrian sobre o desejável fim da arte.

Leia aqui a segunda parte deste artigo.

 

Notas:

  1. ^ Texto que pertence a uma “instalação” de Ben, “A Loja”, em exposição no Museu de Arte Moderna do Centre Georges Pompidou (Beaubourg), Paris. (Ben tem actualmente uma página na internet, com a sua autobiografia e vários outros textos, nomeadamente sobre cultura - http://www.esf.ch/ben).
  2. ^ Idem
  3. ^ Jorge Silva Melo, “Teatro para os novos reis, religião dos novos papas” in Essas outras Histórias que há para contar, edição Abril em Maio/SOS Racismo/Salamandra, 1998.
  4. ^ “Estou farto de não ter lugar”, entrevista de Luís Trindade a Jorge Silva Melo, in Vida Mundial, n.º 21, Outubro de 1999.