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International Workers Branch: um sindicato de imigrantes

Sacuntala de Miranda, ex-exilada política portuguesa em Londres, foi uma das fundadoras, em 1971/1972, deste sindicato, que albergava trabalhadores imigrantes de todas as nacionalidades. O Esquerda.net transcreve o artigo da historiadora e combatente pela Liberdade, datado de maio de 2002, sobre esta experiência.
Sacuntala de Miranda. Foto publicada em http://journals.openedition.org/lerhistoria/docannexe/image/2425/img-1.png.

O texto foi publicado nos Cadernos do Grou, nº 1, de novembro de 2002, edição da Solidariedade Imigrante - Associação para a Defesa dos Direitos dos Imigrantes.


Foi em 1971-72 que nos ocorreu a ideia de organizar sindicalmente os trabalhadores portugueses imigrados em Londres, bastante às apalpadelas - visto que não possuíamos qualquer experiência de sindicalismo.

Entrámos em contacto com o nosso compatriota Eduardo Guedes e foi escolhido o filme Fight the Bill, realizado no âmbito do grupo do Cinema Action a que ele pertencia, para iniciar a primeira sessão. Era um filme empolgante, que retratava a luta dos sindicalistas ingleses contra as leis laborais repressivas que o governo conservador procurava introduzir. José Brandão, um dos nossos artistas gráficos, desenhara um convite sugestivo, inspirado no Maio de 68: uma fábrica com uma grande chaminé, de onde emergia um punho fechado. Alguns de nós acharam o desenho demasiado vanguardista e capaz de assustar aqueles que julgávamos fazer parte de uma massa amorfa e despolitizada. Mas, para espanto de todos, no dia aprazado, um Domingo à tarde, a sala foi-se enchendo acabou por se encher completamente enquanto se ouvia música de fundo, com canções e hinos ligados às lutas dos trabalhadores.

Tínhamos assegurado a colaboração de Janet Laranjo, que historiou resumidamente a luta dos trabalhadores britânicos através dos séculos XIX e XX, e de Heliodoro Barradas, empregado de restaurante, que fez um relato muito vivo de uma greve recente em que tinha participado com outros trabalhadores, portugueses e de outras nacionalidades. Eu, pela minha parte, falei sobre a necessidade de organizar sindicalmente os trabalhadores portugueses imigrantes, superexplorados porque desorganizados e ignorantes dos níveis de salários pagos no país de acolhimento. E mostrou -se o filme, que teve um efeito catalizador muito importante.

Depois abriu-se um largo debate, em que muita gente pediu a palavra e falou, porque fizemos perguntas e incentivámos as pessoas a exprimir-se livremente. Ficámos a saber, como já suspeitávamos, que a maioria dos portugueses trabalhavam em hotéis e restaurantes ou como empregados domésticos nos hospitais de Londres, que tinham salários muito baixos (embora mais altos do que os que teriam se tivessem ficado em Portugal) e que, como a maioria dos imigrantes em todo o mundo, se sujeitavam a viver em habitações degradadas para poupar alguns tostões para mandar à família que tinham deixado em Portugal ou para, eventualmente, construir uma pequena casa na sua terra natal.

Todos aceitaram a ideia de fazer uma campanha de sindicalização entre os portugueses. E decidiu-se ali entrar em contacto com a Transport and General Workers Union, o maior sindicato inglês, para que nos abrisse as suas fileiras e orientasse a nossa campanha.

Contactámos a Transport General Workers Union, que nos enviou o seu secretário regional, Jack Lucas e um delegado sindical, John Stevens, que assistia às nossas reuniões e esclarecia as nossas dúvidas. Destes contactos, tornou-se claro para nós que, para organizar os imigrantes portugueses, havia que organizar também os imigrantes de outras nacionalidades com quem trabalhavam lado a lado na hotelaria e nos hospitais: espanhóis, italianos, gregos, jugoslavos e outros. Foi assim que se formou uma ramificação nossa do sindicato, a International Workers Branch, que albergava trabalhadores imigrantes de todas as nacionalidades.

As nossas reuniões tinham de ter tradutores de várias línguas e, como não havia tradução simultânea, decorriam com enorme lentidão. Mas eram produtivas e eficientes. Constitui-se uma direcção, com Álvaro Miranda como presidente, José Neves como secretário e Óscar Figueiredo como tesoureiro, e organizaram-se equipas que, postadas à porta de serviço dos hotéis, distribuíam panfletos e inscreviam os sócios. Fomos recebidos com grande entusiasmo pelos trabalhadores e recebemos numerosas adesões, sobretudo nos hotéis da cadeia Grand Metropolitan, entre elas a do espanhol Federico, em torno de quem decorreu a nossa primeira grande campanha.

Federico trabalhava no Hotel Mount Royal, em Marble Arch e, com o entusiasmo e a ingenuidade de quem participava pela primeira vez numa campanha de sindicalização, foi afixar um prospecto do sindicato num placard do hotel destinado à informação dos trabalhadores. Além disso, recrutava abertamente sócios para o sindicato. A reacção da gerência não se fez esperar: uma manhã em que Federico chegou tarde ao trabalho por ter ido ao dentista, foi imediatamente despedido. Rapidamente, organizámos uma manifestação de solidariedade, exigindo a reintegração de Federico: um piquete com cartazes e panfletos, à porta do hotel, denunciava as medidas tomadas pela gerência. As notícias deste piquete, divulgadas pela imprensa, a solidariedade de outros trabalhadores, sobretudo espanhóis, que abraçaram a causa. do seu compatriota com enorme entusiasmo. De manhã à noite, durante um mês, o piquete circulou em frente ao Mount Royal Hotel, conseguindo a adesão dos taxistas ingleses, que se recusavam a tomar clientes à porta do hotel. Finalmente, a gerência acedeu a reintegrar Federico, não no mesmo hotel, mas noutro hotel da mesma cadeia. Oferta que Federico teve o prazer de recusar orgulhosamente, pois já tinha aceite outra proposta de trabalho entre as muitas que recebera.

Com esta campanha, tão bem sucedida, ficou lançada a Inter national Workers Branch, que passou a participar, com a sua bandeira própria, na grande marcha do 1º de Maio, entre os outros sindicatos britânicos, e a apoiar as várias lutas que os trabalhadores ingleses travavam contra um patronato que pretendia, por todas as formas, aniquilar o movimento operário. A nossa bandeira esteve presente na grande marcha de apoio aos trabalhadores dos hospitais, na enorme manifestação que teve lugar às portas da prisão de Pentonville, onde estavam presos os estivadores acusados de fazer piquetagem durante a grande greve das docas, e em tantas outras manifestações que nos fizeram provar o gosto da solidariedade que reinava entre o operariado britânico.

Quanto à nossa tarefa fundamental-a sindicalização de imigrantes - também esta ia progredindo e foi possível sindicalizar vários hotéis e hospitais. O percurso, tal como nos ensinava o nosso instrutor, John Stevens, era o seguinte: começava-se por inscrever no sindicato, pelo menos 50% do pessoal e realizava-se uma reunião em que se obtinha dos trabalhadores inscritos o compromisso de entrar em greve, se isso fosse necessário para conseguir que a gerência reconhecesse o sindicato e o aceitasse como mediador. Depois, o delegado sindical contactava a gerência, comunicava-lhe que 50% (ou mais) dos trabalhadores estavam inscritos no sindicato e propunha-lhe que o aceitassem para a negociação de aumentos salariais. Se a resposta fosse negativa, os trabalhadores votariam em reunião se estavam dispostos a fazer greve e entrariam em greve. Esta prolongar-se-ia até que a gerência acedesse a receber o delegado sindical e a negociar os aumentos. Aprendemos depois que por vezes, mesmo sem sindicalizar 50% dos trabalhadores era possível, se sindicalizássemos uma unidade-chave do hotel, como a cozinha, obter uma posição de força capaz de levar ao reconhecimento do sindicato.

Foi possível, assim, sindicalizar alguns hotéis, restaurantes e hospitais. Mas a nossa campanha de maior êxito foi a sindicalização de cerca de 800 trabalhadores turcos que trabalhavam numa das cadeias de restaurantes conhecidas com Wimpy Bars, pertencente a um empresário, também de nacionalidade turca, de nome Ali Sali. Ali Sali era dono de uma agência de recrutamento de trabalhadores na Turquia e trazia ilegalmente esses trabalhadores para Londres, onde era alojados, em condições degradantes, em dormitórios situados por cima dos restaurantes, e eram obrigados a trabalhar quinze horas por dia, para receber salários miseráveis.

Um dia, fomos procurados por um estudante. de pós-graduação turco, Hassan Capci, que nos propôs ajudar-nos a sindicalizar os restaurantes de Ali Sali, que eram 60 e estavam espalhados em vários bairros do centro de Londres. Contou-nos que os seus conterrâneos eram violentos e andavam armados de facas, que frequentemente utilizavam em rixas intestinas. Mas, mesmo assim, estava disposto a conversar com eles, a explicar-lhes o que era a luta sindical e a procurar melhorar a sua situação.

Aceitámos a proposta. Na verdade, os trabalhadores só falavam a sua língua e não podíamos comunicar com eles senão através de Hassan ou de outros tradutores arranjados por ele. Foi assim que Hassan iniciou o seu trabalho de recrutamento, indo aos dormitórios onde os trabalhadores passavam a noite e passando horas a fio a explicar-lhes que só a união fazia a força, que era necessário esquecerem os diferendos que os desuniam e trocarem as facas pela greve, única arma dos trabalhadores.

Foi um trabalho que demorou alguns meses, mas que resultou: quando, finalmente, o fruto parecia maduro e pronto a ser colhido, pediu-se o reconhecimento e, como ele fosse recusado um atrás de outro, os restaurantes, espalhados por Londres inteira, entraram em greve, uma greve que durou várias semanas e conquistou grandes apoios. Postados à porta dos restaurantes, os trabalhadores turcos exibiam cartazes em inglês, explicando quanto ganhavam. A opinião pública inglesa agitou-se, choveram contribuições em dinheiro. Durante a greve, estávamos uma noite reunidos, na sede de Theobald's Road, quando Hassan recebeu um telefonema que lhe contava que um grupo de trabalhadores turcos fora assediado pela polícia, em frente do Wimpy Bar de Picadilly Circus e telefonava para o Centro de Convívio Turco a pedir socorro. Logo, várias dezenas de trabalhadores que ali estavam reunidos decidiram marchar para Picadilly Circus em defesa dos seus compatriotas. Hassan temia que fossem presos nos confrontos que certamente ocorreriam: muitos estavam em situação ilegal e podiam ser devolvidos para a Turquia. Num ápice, ocorreu-nos uma ideia salvadora: sugerimos a Hassan que desse instruções para que se impedisse qualquer acto de violência e para que os turcos marchassem em fila indiana, na mais perfeita ordem, em torno do restaurante. Assim aconteceu e o espírito cívico dos ingleses rendeu-se à forma civilizada como estes estrangeiros, supostamente bárbaros, souberam expressar o seu protesto. Os grevistas foram deixados em paz e, no dia seguinte, o Times apresentava um artigo em que dizia que, ao contrário do que constava geralmente, a Turquia era um país altamente civilizado.

Ao fim de algumas semanas de greve, Ali Sali, ele sim, um turco bárbaro, de coração empedernido, acabou por se render, reconheceu o sindicato e aceitou um aumento. A partir daí, através de uma série de greves ou ameaças de greve, os trabalhadores de Ali Sali obtiveram o mais elevado nível de salários da indústria e passaram a ser olhados com respeito pelos sindicalistas ingleses, que anteriormente os desprezavam. E Hassan, esse amigo turco que um ano mais tarde regressaria à sua terra (quem sabe onde estará, neste momento...) era tratado como um herói, quase um santo, pelos homens rudes e violentos que soubera educar e conduzir a uma luta organizada por uma vida mais digna.

O passo seguinte na integração destes trabalhadores imigrantes foi a legalização da sua situação e a obtenção de licenças de trabalho para todos. Aqui, tivemos o apoio do deputado trabalhista Bob Edwards, velho combatente das Brigadas Internacionais na Guerra Civil de Espanha, que conseguiu, junto do governo trabalhista de James Callaghan, que todos os trabalhadores sindicalizados fossem chamados e lhes fossem concedidas licenças de trabalho.

Já em Portugal, vim a saber que os restaurantes Wimpy Bars de Ali Sali foram fechados, para acabar com o sindicato, e que os trabalhadores foram devolvidos à Turquia. É este o desfecho possível de toda a luta sindical, na medida em que não é autorizada a consulta da contabilidade pelos sindicatos e estes desconhecem a verdadeira situação financeira da empresa. Doeu-me saber que, afinal, todos os esforços no sentido de dignificar a vida dos trabalhadores turcos em Londres tinham tido este fim. Mas pensei que eles tinham tido a oportunidade de participar num combate memorável e de aprender formas de luta que, onde quer que fosse, poderiam servir-lhes.

Noutros hotéis, restaurantes e hospitais que conseguimos sindicalizar, a organização sobreviveu e criou raízes. Até quando? Trinta anos volvidos, todas as vezes que visito Londres e passo pelo Mount Royal, que hoje mudou de nome, e por hotéis que, com maior ou menor sucesso, sindicalizámos, pergunto-me o que subsistirá do nosso esforço, numa Inglaterra em que, a partir da segunda metade da década de 1970, o movimento sindical tem sido vítima da crise económica e da estratégia combinada dos governos e do grande capital. Mas penso que, quaisquer que tenham sido os seus resultados, a longo prazo, foi uma experiência que valeu a pena viver e que deixou em nós uma marca indelével.

 

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