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Indústria farmacêutica: superlucros criminosos

O livro “Deadly medicines and organised crime”, escrito por um reconhecido professor dinamarquês, Peter C. Gøtzsche, apresenta uma longa e bem documentada acusação contra a indústria farmacêutica (Big Pharma) por fraude, corrupção, lucros ultra exagerados e distribuição de medicamentos mortais. Por Michael Voss
Peter C. Gøtzsche, no livro “Deadly medicines and organised crime”, apresenta uma longa e bem documentada acusação contra a indústria farmacêutica (Big Pharma)

Na Dinamarca, a despesa em medicamentos e em hospitais públicos duplicou em apenas sete anos e as previsões apontam que as autoridades sanitárias deverão destinar a esta rubrica 1.100 milhões de euros. Evidentemente, este dado provocou debates entre os profissionais dos hospitais, os políticos, os jornalistas e os académicos do setor. Desafortunadamente, trata-se de um debate equivocado: pode a sociedade permitir medicamentos tão caros que apenas servem para prolongar a vida de pessoas com doenças graves durante uns meses ou talvez um ano?

Como exemplo dos medicamentos caros, num recente artigo de imprensa foram citados os seguintes:

- Zytica, para o tratamento do cancro da próstata

- Yervoy do tratamento de cancro de melanoma

- Gileneva, para o tratamento da esclerose

Se a jornalista se tivesse preocupado em investigar um pouco, teria comprovado que estes três fármacos são produzidos por JanssenBiotech (antigamente Johnson & Johnson), Bristol-Myers Squibb e Novartis. Esta informação teria dado uma pista de onde se encontra o verdadeiro problema. As três grandes empresas farmacêuticas que citámos encontram-se entre as infames citadas num livro publicado no ano passado na Dinamarca: “Deadly medicina and organised crime” (Medicamentos que matam e crime organizado). O livro foi escrito por um reconhecido professor dinamarquês, Peter C. Gøtzsche, que ao longo de 450 páginas apresenta uma longa e bem documentada acusação contra a indústria farmacêutica (Big Pharma) por fraude, corrupção, lucros ultra exagerados e distribuição de medicamentos mortais.

Entre as suas acusações, encontram-se as seguintes:

- Que um desmesurado número de pessoas morre por causa dos medicamentos.

- Que a Big Pharma comercializa, com conhecimento de causa, medicamentos sem efeitos positivos nas doenças dos pacientes.

- Que a indústria farmacêutica retém e manipula dados com o fim de ocultar sérios efeitos secundários.

- Que a indústria paga (suborna) investigadores para aconselhar os seus produtos, e paga a médicos para comercializar e distribuir os produtos aos seus doentes.

- Que a Big Pharma tem sentenças reiteradas que a obrigam a pagar milhões de euros em multas por causa da comercialização de produtos perigosos ou medicamentos sem qualquer efeito mas que, com frequência, negoceia acordos extrajudiciais para evitar sentenças que a obrigariam a dar informação detalhada dos medicamentos.

- Que há Investigadores académicos e autoridades públicas que assessoram a indústria farmacêutica para que substitua medicamentos relativamente baratos por outros mais caros e com o mesmo resultado.

- Que a indústria atribui mais fundos para a comercialização do que para a investigação, ao mesmo tempo que tenta legitimar as suas patentes de monopólio com os altos custos de investigação.

Todo isso está baseado em documentos provenientes da indústria farmacêutica mundial. Vários dos exemplos incluem a Bristol Myers Squibb e a Novartis.

Entre as suas conclusões Gøtzsche assinala: "Em 2012 cinquenta grandes empresas venderam 610 mil milhões de dólares em medicamentes prescritos. Estou absolutamente convencido que esta quantidade podia ser reduzida em 95% (isto é, em 580 mil milhões de dólares), porque o nosso medicamento mais comum é 20 vezes mais caro que o alternativo com o mesmo efeito e porque a cidadania esta 'sobremedicada'”.

Por conseguinte, pode acontecer que a solução para a saúde pública dinamarquesa não seja negar às e aos pacientes o tratamento que precisam, mas rever os métodos e lucros da indústria farmacêutica privada e começasse a pôr limites ao seu poder e ao seu lucro. Inclusive para isto, o professor Gøtzsche apresenta algumas pistas. Um capítulo inteiro é dedicado a soluções políticas para este problema.

No nível mais básico, sugere que as autoridades poderiam perseguir a criminalidade da Big Pharma com a mesma energia com que atacam a criminalidade comum e que poderiam proteger os delatores que pudessem existir na própria indústria e compensá-los no caso de perderem o emprego.

E avançar para medidas mais radicais, Gøtzsche propõe as seguintes:

- Obrigar às empresas a tornar públicos os dados de investigação e outro tipo de conhecimentos sobre os seus medicamentos;

- Obrigar as empresas a publicar todos os seus contratos;

- Proibir as empresas médicas privadas de realizarem as suas próprias investigações; em seu lugar, deveriam pagar um imposto especial para financiar a investigação pública.

Finalmente, o livro analisa o núcleo do problema e as soluções reais. A primeira é desmedicalizar a sociedade. A segunda, proibir a propriedade privada das empresas médicas e substitui-las por empresa públicas sem fins lucrativos: “Deixar que as forças do mercado determinem as regras não favorece as necessidades das e dos pacientes, e é incompatível com uma profissão baseada na ética. O objetivo do lucro não produz benefícios sociais”.

Artigo de Michael Voss publicado em Viento Sur. Tradução de Carlos Santos para esquerda.net

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