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Incêndios: Relatório volta a apontar falhas na prevenção e negligência da EDP

A desvalorização dos alertas meteorológicos e a desmobilização dos meios do dispositivo de combate contribuíram para que as populações ficassem "entregues a si próprias". Tal como em Pedrógão, a negligência da EDP pode ter estado na origem do maior incêndio de outubro.
Capa do relatório entregue pela Comissão Técnica Independente

O relatório da comissão técnica independente sobre os incêndios de 14 e 15 de outubro aponta o dedo à negligência da EDP na origem do fogo que começou a 15 de outubro na Lousã e se espalhou a nove concelhos dos distritos de Coimbra e Viseu, sendo considerado “o maior incêndio florestal registado em Portugal desde que há registos”.

“A ignição com origem nas linhas elétricas, neste caso particular em que terá sido provocada por queda de árvore sobre uma linha de média tensão, pode resultar do não cumprimento do regulamento de segurança das linhas elétricas pela entidade gestora, a EDP”, refere o relatório da Comissão Técnica Independente entregue na terça-feira no parlamento, citado pela Lusa.

O incumprimento das regras de segurança por parte da empresa elétrica já tinha sido apontado no relatório elaborado pelo Centro de Estudos sobre Incêndios Florestais sobre o incêndio de Pedrógão Grande, concluindo que o fogo foi causado por “contactos entre a vegetação e uma linha elétrica de média tensão” da EDP, que “não se encontrava devidamente cuidada”. “Esta situação configura, em nossa opinião, uma deficiente gestão de combustíveis na faixa de proteção da linha, por parte da entidade gestora”, referia ainda o relatório que a EDP veio depois refutar. A empresa voltou esta quarta-feira a negar a existência de incidentes que tenham dado origem à ignição de fogos nos incêndios de outubro.

Queimadas e fogo posto foram as duas causas principais das ignições

Entre os dias 14 e 16 de outubro de 2017 registaram-se mais de 900 ignições, um número que a comissão considera “excessivo” face à capacidade do dispositivo de combate. Cerca de um terço das ignições foram causadas por fogo posto e outro terço por queimadas. E 23.6% das ocorrências registadas nesse período foram reacendimentos.

No que toca às queimadas, o relatório diz que “a necessidade de limpeza de solo agrícola e a proximidade anunciada de precipitação poderão ter conduzido a um aumento de ocorrências em períodos do dia que os agricultores possam ter considerado como menos problemáticos”.

 

Tal como aconteceu em julho, a violência dos incêndios foi multiplicada por um fenómeno meteorológico extremo, provocado pelos ventos quentes e fortes da passagem do furacão Ophelia. Para os técnicos, este foi "o maior fenómeno piro-convectivo registado na Europa até ao momento e o maior do mundo em 2017".

Populações ficaram “entregues a si próprias”

O relatório aponta o dedo à incapacidade da estrutura montada para fazer face aos incêndio e à “capacidade de mobilização limitada” pelo facto de terem acontecido em outubro, após a desmobilização de boa parte do dispositivo em funcionamento no verão, tanto de meios humanos como de meios aéreos.

“Os contactos realizados permitem concluir que, em muitas situações, não havia possibilidade alguma de combater o incêndio. Nalguns concelhos, o fogo entrou por várias direções, com uma velocidade e severidade nada habitual, pelo que o esforço se concentrou naturalmente na defesa de pessoas e bens. E nem sempre com êxito”, aponta o relatório.

O resultado traduziu-se “numa situação de dramático abandono, com escassez de meios, ficando as populações entregues a si próprias”, ante a “dificuldade de mobilizar forças suficientes perante o número de ignições que se sucediam em áreas de grande dimensão e impossibilidade de dar uma resposta a todos os incêndios por parte dos corpos de bombeiros”. A deficiente localização dos postos de comando operacional também é uma das falhas apontadas neste relatório.

No capítulo da prevenção, o relatório critica a desvalorização dos alertas meteorológicos para os dias em que se registaram os incêndios. Apesar desses alertas, a previsão de chuva para esse fim de semana levou muitos agricultores a realizarem queimadas que contribuíram para a catástrofe que assolou o Centro do país. À semelhança do que acontecera em agosto, deveria ter sido "estabelecido o Estado de Calamidade Preventiva” para esses dias, acrescenta o relatório elaborado por personalidades indicadas pelo Conselho de Reitores das Universidades Portuguesas e pela Assembleia da República.

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Termos relacionados Incêndios florestais, Sociedade
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