Está aqui

Impasse em Cancún

As negociações climáticas que decorrem em Cancún, México, entraram num impasse. A cada dia que passa, a possibilidade de sair algo de positivo da cimeira é cada vez menor.
ONGs têm também denunciado as manobras de contabilidade critativa usadas pelos países ricos para rotular como ajuda externa “climática” fundos que já estavam prometidos para outros fins.

O Japão, conjuntamente com a Rússia e o Canadá, tem defendido a não extensão do Protocolo de Quioto e a sua substituição por um acordo internacional que seja mais abrangente. Com Quioto, apenas os países industrializados estão sujeitos a objectivos de redução de emissões, seguindo o princípio de que devem ser os mais ricos a liderar o processo de despoluição, mas o Japão pretende que países em vias de industrialização sejam também incluídos num futuro acordo. Naturalmente, a ideia foi mal recebida por países como o Brasil e a China.

O braço de ferro entre os EUA e a China continua. A China recusa-se a permitir que observadores internacionais controlem as suas emissões. Este é um ponto particularmente delicado, dado que há fortes suspeitas de que as estatísticas chinesas sejam manipuladas pelo governo e que as emissões sejam superiores ao anunciado. Do outro lado, os EUA têm-se recusado a comprometer-se com reduções de emissões e com ajuda externa a países menos desenvolvidos afectados pelas alterações climáticas enquanto a China não aceitar reduzir as suas emissões de acordo com um plano verificado por entidades independentes.

A Índia tem tentado resolver este jogo do gato e do rato, propondo que todos os países com uma contribuição superior a um por cento para as emissões de gases com efeitos de estufa a nível global sejam obrigados a comunicar às Nações Unidas as suas emissões a cada três anos. Não é claro neste momento se esta proposta será aceite pelas partes.

A União Europeia também tem insistido numa atitude que a põe de costas voltadas para com a maioria do mundo, tendo defendido que as ajudas externas a países menos desenvolvidos para a adaptação às alterações climáticas seja dada sob a forma de empréstimos. Várias ONGs ecologistas e de desenvolvimento criticaram a proposta, defendendo que servirá para agravar a dívida externa dos países mais pobres, para que possam lidar com um problema pelo qual não são responsáveis. As ONGs têm também denunciado as manobras de contabilidade critativa usadas pelos países ricos para rotular como ajuda externa “climática” fundos que já estavam prometidos para outros fins.

Aliança de Pequenos Estados Insulares

Do lado dos países menos desenvolvidos, as Aliança de Pequenos Estados Insulares tem persistido na defesa de um acordo climático que permita limitar o aumento da temperatura média global a 1.5oC, dado que o aumento do nível médio do mar previsto nos piores cenários implicará o desaparecimento de arquipélagos inteiros. Mohamed Nasheed, presidente das Maldivas, declarou numa conferência de imprensa que mesmo os países em vias de desenvolvimento devem esforçar-se para reduzir as suas emissões, seguindo o exemplo do seu país. Nasheed fez estas declarações aquando do lançamento do relatório “Climate Vulnerability Monitor” (Monitor de Vulnerabilidade Climática), no qual se estima que as alterações climáticas já matam 350,000 pessoas por ano e que este número atingirá um milhão em 2030.

As Maldivas juntaram-se ainda à Guiana, ao Bangladesh e a muitos países menos desenvolvidos para denunciar que os fundos prometidos em Copenhaga para ajudá-los a lidar com as alterações climáticas nunca chegaram a ser entregues. Os EUA usaram a promessa de doar biliões aos países pobres que aceitassem o Acordo de Copenhaga, um acordo não vinculativo e com fracos objectivos ambientais, de forma a conseguir impor a sua vontade.

Também os países da ALBA têm repetido os apelos para que políticas mais ambiciosas sejam seguidas. A Bolívia categorizou a política dos países ricos como “genocídio”, exigindo um acordo climático justo para os países pobres. Quando foi acusado de adoptar uma posição intransigente, dificultando as negociações, Pablo Solón, representante da Bolívia, citou o “Climate Vulnerability Monitor” para defender que está apenas a lutar pela sobrevivência de seres humanos.

Entretanto, Ban Ki-Moon, secretário-geral das Nações Unidas, apelou a que os países presentes em Cancún atinjam um acordo, afirmando que não podemos permitir que o perfeito seja inimigo do bom. Num momento em que a escolha colocada pelos países mais poderosos é entre o mau e o péssimo a afirmação será algo infeliz.

Ricardo Coelho

http://cooltheearth.wordpress.com/

Artigos relacionados: 

Sobre o/a autor(a)

Ricardo Coelho, economista, especializado em Economia Ecológica
Termos relacionados Ambiente
(...)