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Hidroelétricas lucraram 600 mil euros na primeira noite do mecanismo ibérico

Durante quatro horas na noite de 15 de junho, a eletricidade portuguesa no mercado ibérico, de origem hidroelétrica, foi vendida a 1.200 euros por MWh, enquanto do lado espanhol o preço ficou entre 183 e 339 euros. Bloco chama ERSE, REN e o operador do mercado a darem explicações ao Parlamento.
Barragem da Aguieira. Foto de Vitor Oliveira/Flickr

O dia do arranque do mecanismo ibérico que veio limitar o preço da eletricidade vendida a partir de centrais a gás natural, que define o preço a que é remunerada a energia de outras fontes mais baratas, ficou marcado por uma variação anormal nos preços praticados no mercado intradiário do lado português.

Segundo o Expresso, entre as 20h e as 24h de 15 de junho, o preço intradiário em Portugal fixou-se em 1.200 euros por MWh, enquanto em Espanha oscilou entre 339 e 183 euros por MWh. Na hora seguinte, o preço já era igual nos dois países (263,95 euros por MWh) e assim permaneceu no resto do dia, chegando a baixar para os 166 euros por MWh ao fim da tarde de 16 de junho.

Urgência ou especulação? Ninguém sabe explicar o disparo no preço

A explicação para aquela diferença enorme de preços não é fácil de encontrar, com especialistas ouvidos pelo Expresso a sugerir que podem ter origem na necessidade urgente de um operador de cobrir uma posição para a qual estaria descoberto, ou com uma ação especulativa de traders no mercado. O jornal adianta que na faixa horária em causa a capacidade comercial de exportação de eletricidade de Espanha para Portugal esteve saturada.

Independentemente do que esteve na origem do disparar do preço, quem vendeu essa eletricidade (590 MWh) faturou 708 mil euros em poucas horas, bem acima dos 106 mil euros que renderia o preço médio praticado naquela data, o que se traduz num lucro acima dos 600 mil euros. A EDP, que detém a maior parte da capacidade hidroelétrica em Portugal, negou ao Expresso que a sua oferta tenha determinado aquele preço.

Governo nunca quis travar lucros extraordinários das hidroelétricas

Mas o fenómeno veio contrariar logo no primeiro dia o que tinha sido o objetivo anunciado pelos governos de Espanha e Portugal com a imposição de um teto ao preço do gás neste mercado, e que era o de evitar a sobreremuneração dos vendedores de energia de fontes mais baratas. Mas mesmo antes da subida do preço do gás, impulsionada com a guerra na Ucrânia e as sanções à Rússia, as regras do mercado da energia já obrigavam os consumidores a pagar mais do que o devido aos produtores de eletricidade com energias renováveis, como as hidroelétricas. É que ao contrário das centrais a gás, estas não pagam taxas de emissões de carbono, mas o preço da eletricidade é fixado ao preço mais alto da última energia que entrou no sistema, o que na prática significa que o preço do gás, que é o mais caro e o mais poluente, acaba por determinar o preço final da energia que consumimos. O resultado é que o país consome energia das barragens e eólicas e paga ao preço do gás, traduzindo-se num lucro extraordinário às produtoras de energia que o governo português nunca quis travar.

Mesmo com o teto imposto ao preço do gás no mercado ibérico de eletricidade, que os governos preveem que faça cair o preço médio para os 140 euros/MWh este ano, as barragens que constituem um terço da potência instalada em Portugal continuarão a cobrar quatro vezes mais do que cobraram em média em 2020 (34 euros/MWh) e quase três vezes mais do que cobraram em 2017, ano de seca extrema (52 euros/MWh).

Bloco quer ouvir ERSE, REN e OMIP sobre disparo especulativo dos preços da eletricidade

O Bloco de Esquerda anunciou na terça-feira que vai requerer com carácter de urgência uma audição parlamentar com a presença da Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE), da Redes Energéticas Nacionais (REN) e do Operador de Mercado Ibérico de Energia - Portugal (OMIP) acerca das condições em que ocorreu, durante quatro horas, a venda de eletricidade no mercado grossista português ao preço de 1200 euros/MWh, resultando na sobre-remuneração de determinado(s) produtor(es) em mais de 600 mil de euros.

Para o Bloco de Esquerda, qualquer das explicações já avançadas para a situação da noite de 15 de junho "aponta para uma vulnerabilidade do mercado elétrico a iniciativas especulativas com impactos relevantes na formação de preços".

"Num quadro nacional e internacional em se multiplicam pressões para a subida dos preços da eletricidade, o que já levou o governo a tomar medidas cujo anunciado objetivo é mitigar o efeito daquela subida na fatura dos consumidores, a existência de estratosféricos "windfall profits" [lucros caídos do céu] é matéria que deve ser objeto de completo esclarecimento e correção".


[Notícia atualizada às 21h30 com a informação da audição parlamentar requerida pelo Bloco de Esquerda]

Termos relacionados Rendas da energia, Sociedade
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