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A herança de Chico Mendes

O seringueiro sindicalista e ambientalista Chico Mendes foi cobardemente assassinado em 1988. Neste artigo, Michael Löwy recorda como ele conseguiu articular as ideias do socialismo internacionalista com a luta ecológica para enfrentar os ruralistas e a ditadura – e acabou por pagar caro por isso.
Chico Mendes em 1988. Pormenor da foto de Miranda Smith/Wikimedia Commons.
Chico Mendes em 1988. Pormenor da foto de Miranda Smith/Wikimedia Commons.

A convergência entre ecologia e socialismo teve no Brasil um precursor na extraordinária figura de Chico Mendes, um lutador que pagou com a sua vida o seu compromisso com a causa dos povos da floresta amazónica. Chico transformou-se numa figura lendária, um herói do povo brasileiro, mas o tratamento mediático da sua história tende a ocultar a radicalidade social e política do seu combate. Existem também tentativas infelizes de “cortar pela metade” a sua herança política: ecologistas reconciliados com o capitalismo “esquecem” o seu compromisso socialista, enquanto que socialistas atrasados negam a dimensão ecológica da sua luta.

Formado na cultura cristã libertadora das comunidades de base, o jovem seringueiro Francisco Alves Mendes Filho, nascido em 15 de dezembro de 1944, descobre o marxismo nos anos 1960 graças a um veterano comunista, Euclides Fernandes Tavora, antigo tenente de 1935, partidário de Luis Carlos Prestes, que, depois de ficar preso em Fernando de Noronha, se exilou na Bolívia, onde participou nas lutas populares; perseguido, foi morar na selva amazónica, na fronteira do Acre com a Bolívia. Esta aprendizagem marxista teve uma influência importante na formação das ideias políticas de Chico Mendes: nas suas próprias palavras, o encontro com Tavora “foi uma das melhores ajudas e uma das razões pela qual eu julgo que estou em toda essa luta. Outros companheiros, infelizmente, naquela época, não tiveram o privilégio de receber uma orientação tão importante como a que recebi para o futuro”.

Inimigo número um dos ruralistas e ditadura

Em 1975 Chico funda, junto com Wilson Pinheiro, o sindicato dos trabalhadores rurais de Brasiléia, e, pouco depois, em 1977, o sindicato dos trabalhadores rurais de Xapuri, sua terra natal. No mesmo ano, é eleito vereador pelo MDB para a Câmara Municipal local, mas bem rapidamente se dá conta de que este partido não é solidário com as suas lutas. É nesta época que vai inaugurar, com os seus companheiros do sindicato, uma forma de luta não-violenta inédita no mundo: os famosos empates. São centenas de seringueiros, com as suas mulheres e filhos, que dão as mãos e enfrentam, sem armas, os bulldozers das grandes empresas interessadas no desmatamento, no derrube das árvores. Algumas vezes os trabalhadores são derrotados, mas frequentemente conseguem parar, com as suas mãos nuas, os tratores, bulldozers e motosserras dos destruidores da floresta, ganhando às vezes a adesão dos peões encarregados do desmatamento. Os inimigos dos seringueiros são os latifundiários, o agronegócio, as empresas madeireiras ou pecuárias, que querem derrubar as árvores para exportar a madeira ou para plantar mato no lugar da floresta, criando gado para a exportação – inimigos poderosos, que contam com a UDR como braço político e, como braço armado, jagunços e pistoleiros mercenários, além de inúmeras cumplicidades na polícia, na Justiça e nos governos (local, estadual e federal).

É a partir desta época que Chico Mendes começa a receber as primeiras ameaças de morte; pouco depois, em 1980, o seu companheiro de lutas, Wilson Pinheiro, será assassinado. Para vingar este crime, que, como de costume, ficou impune, um grupo de seringueiros resolveu “justiçar” o fazendeiro mandante do assassinato. Chico Mendes é enquadrado pelo regime militar na Lei de Segurança Nacional, a pedido dos fazendeiros da região que procuravam envolvê-lo neste episódio. Varias vezes, em 1980 e 1982, ele é levado à julgamento diante de Tribunais Militares, acusado de “incitação à violência”, mas acaba sendo absolvido, por falta de provas.

Nestes primeiros anos de sua atividade sindical, Chico Mendes, socialista convicto, milita nas fileiras do Partido Comunista do Brasil (PCB). Dececionado com este partido que, segundo o seu depoimento, na hora da luta “se escondia atrás das cortinas”, adere em 1979-80 ao novo Partido dos Trabalhadores (PT), fundado por Lula e seus companheiros, situando-se logo na sua ala esquerda, socialista. A sua tentativa de se eleger deputado estadual pelo PT em 1982 não tem sucesso, o que não é de surpreender, considerando a pequena base eleitoral do partido nestes primeiros anos. Em 1985, ele organiza, com os seus companheiros sindicalistas, o Encontro Nacional dos Seringueiros que vai fundar o Conselho Nacional dos Seringueiros; a sua luta recebe o apoio do PT, da Pastoral da Terra, da CUT e do MST que se está a formar nesta época.

É nesses anos que o combate dos seringueiros e outros trabalhadores que vivem da extração (castanha, babaçu, juta) para defender a floresta vai convergir com o das comunidades indígenas e grupos camponeses diversos, dando lugar à formação da Aliança dos Povos da Floresta. Pela primeira vez seringueiros e indígenas, que tantas vezes se tinham enfrentado no passado, unem as suas forças contra o inimigo comum: o latifúndio, o agrobusiness, o capitalismo agrícola destruidor da floresta. Chico Mendes definiu com as seguintes palavras as bases desta aliança: “Nunca mais um companheiro nosso vai derramar o sangue do outro, juntos nós podemos proteger a natureza que é o lugar onde a nossa gente aprendeu a viver, a criar os filhos e a desenvolver as suas capacidades, num pensamento harmonioso com a natureza, com o meio ambiente e com os seres que habitam aqui”.

Chico Mendes era perfeitamente consciente da dimensão ecológica desta luta, que interessava não só aos povos da Amazónia, mas a toda a população mundial, que depende da floresta tropical, “o pulmão verde do planeta”:

“Descobrimos que para garantir o futuro da Amazónia era necessário criar a figura da reserva extrativista como forma de preservar a Amazónia. (…) Nós entendemos, os seringueiros entendem, que a Amazónia não pode se transformar num santuário intocável. Por outro lado, entendemos, também, que há uma necessidade muito urgente de se evitar o desmatamento que está a ameaçar a Amazónia e com isto ameaça até a vida de todos os povos do planeta.

O que nós queremos com a reserva extrativista? Que as terras sejam da União e que elas sejam de usufruto dos seringueiros ou dos trabalhadores que nela habitam, pois não são extrativistas só os seringueiros.”

A solução proposta, uma espécie de reforma agrária adaptada às condições da Amazónia, é de inspiração socialista, posto que se baseia na propriedade pública da terra, e no usufruto dos trabalhadores. É provavelmente nesta época que Chico diz à sua companheira de lutas Marina Silva: “Nega velha, isso que a gente faz aqui é ecologia. Acabei de descobrir isso no Rio de Janeiro”.

Um utopista internacionalista

Em 1987, organizações ambientalistas americanas convidam Chico Mendes para dar o seu testemunho numa reunião do Banco Interamericano de Desenvolvimento; sem hesitação, ele denuncia que o desmatamento da Amazónia era resultado dos projetos financiados pelos bancos internacionais. É a partir deste momento que ele se torna internacionalmente conhecido, recebendo, pouco depois, o Prémio Ecológico Global 500, das Nações Unidas. O seu combate era ao mesmo tempo social e ecológico, local e planetário, “vermelho” e “verde”.

Pragmático, homem de terreno e de ação, organizador e lutador, preocupado com questões praticas e concretas – alfabetização, formação de cooperativas, busca de alternativas económicas viáveis – Chico era também um sonhador e um utopista, no sentido nobre e revolucionário da palavra. É impossível ler sem emoção o testamento socialista e internacionalista que ele deixou para as gerações futuras, publicado depois da sua morte numa brochura do sindicato de Xapuri e da CUT:

“Atenção jovem do futuro,

6 de setembro do ano de 2120, aniversario do primeiro centenário da revolução socialista mundial, que unificou todos os povos do planeta num só ideal e num só pensamento de unidade socialista, e que pôs fim à todos os inimigos da nova sociedade.

Aqui ficam somente a lembrança de um triste passado de dor, sofrimento e morte.

Desculpem. Eu estava a sonhar quando escrevi estes acontecimentos que eu mesmo não verei. Mas tenho o prazer de ter sonhado”.

Em 1988, o Encontro Nacional da CUT aprova a tese apresentada por Chico Mendes em nome do Conselho Nacional dos Seringueiros, com o titulo “Defesa da Natureza e dos Povos da Floresta”, que apresenta, entre as suas reivindicações, a seguinte exigência, ao mesmo tempo ecológica e social: “pela imediata desapropriação dos seringais em conflito para a implantação de assentamentos extrativistas de modo a não agredir a natureza e a cultura dos povos da floresta, possibilitando a utilização auto-sustentável dos recursos naturais, incrementando tecnologias secularmente desenvolvidas pelos povos extratores da Amazónia.”

Ele obtém nesta época duas vitórias importantes: a implantação das primeiras reservas extrativistas criadas no Estado do Acre, e a desapropriação do Seringal Cachoeira, do latifundiário Darly Alves da Silva, em Xapuri. Chico atribuía grande significado a esta conquista:

“A coisa mais importante para estimular a continuidade deste movimento foi a vitória dos seringueiros da Cachoeira. Esta vitória da Cachoeira teve uma repercussão positiva pra toda a região, pois os seringueiros estão conscientes de que eles lutaram contra o grupo mais forte, com assassinos sanguinários. Os seringueiros tinham consciência que estavam a lutar com o esquadrão da morte e mesmo assim não temeram. Tivemos dias em que contámos com 400 seringueiros reunidos (…) em piquetes no meio da mata (…)”.

Legado após o assassinato

Para a oligarquia rural, que tem, há séculos, o habito de “eliminar” – com total impunidade – aqueles que ousam organizar os trabalhadores para lutar contra o latifúndio, ele é um “cabra marcado para morrer”. Pouco depois, em dezembro de 1988, Chico Mendes é assassinado, em frente a sua casa, por pistoleiros ao serviço dos Alves da Silva.

Pela sua articulação entre socialismo e ecologia, reforma agrária e defesa da Amazónia, lutas camponesas e lutas indígenas, a sobrevivência de humildes populações locais e a proteção de um património da humanidade – a última grande floresta tropical ainda não destruída pelo “progresso” capitalista – o combate de Chico Mendes é um movimento exemplar, que continuará a inspirar novas lutas, não só no Brasil mas noutros países e continentes.

Até hoje, os pistoleiros à soldo dos latifundiários da Amazónia continuam a matar, como o mostrou espetacularmente o recente assassinato da missionária norte-americana Dorothy Stang, amplamente conhecida pelo seu compromisso com a luta dos camponeses sem terra. Marina Silva foi ministra do Meio Ambiente no governo de Lula, onde tentou promover medidas de proteção da floresta amazónica – mas não conseguiu impedir a legalização da soja transgénica imposta pela Monsanto.

Mais do que em partidos ou administrações, a herança de Chico Mendes está presente nas lutas, nos combates de seringueiros e indígenas, na mobilização dos camponeses contra os transgénicos, na convergência entre ecologia e socialismo que começa a realizar-se, não só em pequenas redes militantes, mas também em torno do mais importante movimento social do Brasil, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). No quadro das comemorações do seu 20° aniversario, o MST organizou, em colaboração com a UFRJ, um seminário internacional no Rio de Janeiro em julho de 2004 sobre os “Dilemas da Humanidade”. Na brochura de apresentação da Conferência, encontramos resumido em belas palavras, o “sonho de olhos abertos” (para usar uma expressão do filosofo marxista da esperança Ernst Bloch) dos organizadores: “um sonho que teima em acontecer: um mundo igualitário, que socialize as suas riquezas materiais e culturais”.

No mesmo documento encontramos este diagnóstico da realidade atual: “A tal ponto o mundo se encontra aviltado que não se trata mais de pensar estratégias para fazê-lo ‘voltar ao eixos’, trata-se de construir um caminho novo, baseado na igualdade entre os seres humanos e em princípios ecológicos”. Um caminho novo, igualitário e ecológico, socializando as riquezas: acho que o Chico Mendes se reconheceria neste programa.


Michael Löwy é sociólogo e diretor de investigação no Centre National de la Recherche Scientifique - CNRS em Paris.

Texto publicado originalmente na Jacobin Brasil. Editado para português de Portugal pelo Esquerda.net.

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