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Hamas disposto a negociar com Fatah

haniya.jpgDelegação do PE e de deputados nacionais visitou Gaza e reuniu-se com Ismail Haniya que afirmou a intenção de reconciliação palestiana.

Artigo de João Macdonald publicado no site do Bloco de Esquerda no Parlamento Europeu .

A delegação a Gaza recebeu de Ismail Haniya uma garantia de vontade de reconciliação palestiana, mas disse-lhe: “Não basta afirmar a intenção. O Hamas tem de comunicá-la directamente aos líderes europeus e aos EUA”. Os deputados confirmaram ainda as consequências do ataque de há um ano e do cerco imposto por Israel há mais tempo. Marisa Matias foi a única portuguesa presente.

Antes e após a reunião com Ismail Haniya os deputados estiveram com a Comissão de Documentação de Crimes e com funcionários da UNRWA (United Nations Relief and Works Agency for Palestine Refugees in the Near East), tendo-lhes sido fornecidos números actualizados das consequências dos ataques e do cerco imposto por Israel.

A comissão que compila as consequências da ofensiva israelita de há um ano explicou que até agora foram contabilizados cerca de 1400 mortos – 350 crianças e 220 mulheres – e cinco mil feridos. Durante o ataque foram totalmente destruídas 3169 casas, 717 poços de água, 18 mil hectares de terra cultivada e bombardeadas 58 ambulâncias.

Foram ainda danificados ou destruídos cerca de 50 mil edifícios de instituições públicas, entre escolas, postos de polícia e hospitais.

A missão da ONU para os refugiados, a UNRWA, revelou que após os bombardeamentos a comunidade internacional disponibilizou de imediato 4,5 mil milhões de dólares para a reconstrução da Faixa de Gaza mas que até agora nenhum desse valor entrou no território devido ao cerco imposto por Israel. O território destruído assim permanece, uma vez que os fundos destinados à reconstrução ficam bloqueados na fronteira.

Em Gaza, onde existem 700 mil crianças, a ONU apoia a educação de 380 mil mas, segundo palavras citadas com exactidão, sente-se “envergonhada por não conseguir mais do que oferecer uma refeição diária que alterna entre um iogurte e bolachas ou uma sanduíche” a cada uma delas.

Num território que tem 70% de taxa de desemprego e um milhão de refugiados, no início de 2009 100 mil destes viviam em pobreza absoluta, número que triplicou no final do mesmo ano. Os países árabes não tem feito muito: de uns iniciais 8% de contribuição para o orçamento da UNRWA, representam agora apenas 1%. Em relação à Europa, ao longo de um ano apenas dois ministros de Negócios Estrangeiros dos 27 visitaram a Faixa de Gaza.

Reunião com Haniya

Ismail Haniya, primeiro-ministro reconhecido pelo Conselho Legislativo Palestiniano (e líder do Hamas) declarou sábado à delegação de 15 eurodeputados e 40 deputados nacionais de 13 países europeus (e diversas orientaçõe spolíticas) enviada à Faixa de Gaza que está disposto a entender-se com todas as facções políticas da Palestina, a respeitar os acordos internacionais e a aceitar o Egipto como mediador nas divergências entre o seu movimento e a Fatah. Foram afirmações que o grupo de parlamentares, chegado a Gaza na sexta-feira, saudou, não deixando de dizer a Haniya que este conjunto de intenções tem de ser transmitido pelo Hamas directamente aos líderes da Europa e aos EUA. “É uma mensagem que ainda não chegou ao Ocidente”, disseram vários deputados que constituiram a maior delegação de sempre ao território.

A reunião em Gaza teve como assunto principal a reconciliação palestiniana e Haniya – que, recorde-se, em Junho de 2007 foi demitido do cargo de primeiro-ministro da Autoridade Palestiniana pelo Presidente Mahmoud Abbas, apoiado pela Fatah, no auge do conflito entre os dois partidos (um facto não reconhecido por Haniya, que desde então exerce funções apenas na Faixa de Gaza) – exprimiu que a sua principal preocupação é a divisão interna do povo. O Hamas e Haniya venceram as eleições legislativas de 2006.

O primeiro-ministro afirmou que a culpa da clivagem existente não é, contudo, do Hamas mas sim de quem não respeitou os resultados das eleições. Haniya realçou que os deputados do seu partido ainda detidos são presos políticos e sem acusação formada. Permanece, porém, aberto à negociação com a Fatah e confessou que o seu maior interesse é ultrapassar a disputa e reavivar o parlamento e as instituições políticas.

O cerco imposto por Israel a Gaza foi o outro problema muito debatido nesta reunião que funcionou à porta aberta e sem restrições. A delegação exprimiu solidariedade com o povo palestiniano, a quem reconhece o direito a um Estado. Os parlamentares afirmaram que a questão política é a principal e arrasta um grave problema humanitário, mostrando-se empenhados no problema dos prisioneiros de guerra e repudiando o comportamento de Israel.

“O cerco tem de terminar”, declararam os deputados, que manifestaram ainda desagrado pelo facto de a Fatah e todas as outras facções políticas palestinianas não terem estado presentes na reunião, o que teria valorizado ainda mais o compromisso do Hamas no sentido de avançar com o processo de reconciliação.

Missão termina no Cairo

Depois de um encontro com o Conselho Legislativo Palestiniano e com ONGs na última sexta-feira, além das visitas a várias partes do território, a delegação termina a sua missão no domingo, no Cairo, onde se encontrará com dignitários egípcios e da Liga Árabe.

A delegação deslocou-se a Gaza a convite da Campanha Europeia para o Fim do Cerco a Gaza (The European Campaign to End the Seige of Gaza – www.savegaza.eu). A eurodeputada do Bloco de Esquerda foi a única portuguesa que integrou a visita, também na qualidade de membro da Delegação de Relações com o Conselho Legislativo Palestiniano e da Delegação de Relações com Países do Mashreq (Egipto, Jordânia, Líbano e Síria).

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