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Há risco de mais um golpe militar no Brasil?

Se Jair Bolsonaro tivesse apoio interno e internacional já teria dado um golpe e, como corre perigo de perder em outubro, vai tentar empastelar o processo eleitoral. Para que não tenhamos um Capitólio brasileiro, precisamos estar mobilizados para derrotá-lo nas ruas e nas urnas. Por Guilherme Boulos.
Bolsonaro na cerimónia de graduação de militares na Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais, na Vila Militar em Deodoro, no Rio de Janeiro. Foto de Fernando Frazão/Agência Brasil
Bolsonaro na cerimónia de graduação de militares na Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais, na Vila Militar em Deodoro, no Rio de Janeiro. Foto de Fernando Frazão/Agência Brasil

Jair Bolsonaro, depois de um “período sabático” em que deixou de falar das urnas eletrónicas, voltou a ameaçar a integridade do processo eleitoral. Nas últimas semanas, atacou de novo o Tribunal Supremo Eleitoral, voltou a falar de uma “sala secreta” e exigiu militares no processo de apuração de novo.

Conforme outubro se vai aproximando e ele continua bem atrás de Lula nas sondagens, Bolsonaro liga o modo desespero. Ataca, agride as instituições e ameaça com o golpe.

Visivelmente, ele usa o discurso golpista como cortina de fumo, uma manobra de distração para evitar a discussão dos temas que realmente importam para maioria do povo brasileiro: inflação, desemprego, queda da renda. Mas não é apenas isso.

Não dá para ignorar que, se Bolsonaro pudesse, se estivesse apenas nas mãos dele, ele já teria dado um auto-golpe. Basta ver o 7 de Setembro do ano passado. O bolsonarismo tem um DNA autoritário, herdeiro de Silvio Frota e dos militares da chamada linha dura durante a ditadura.

Mas o Brasil de hoje não é o mesmo de 1964. Nem o cenário internacional. Hoje dificilmente um golpe teria apoio externo. O mais provável é que gerasse uma série de sanções e o isolamento do Brasil. Muito diferente de 1964, onde os Estados Unidos apoiaram o golpe do início ao fim.

Hoje é muito improvável imaginar uma situação em que o comando das Forças Armadas no ativo embarcasse numa aventura golpista do bolsonarismo. Não embarcou até agora, apesar das tentativas.

Agora, por, aparentemente, não existir o risco de golpe tradicional, com tanques nas ruas, não quer dizer que Bolsonaro não vai atuar, como já está atuando, para tumultuar o processo eleitoral, e criar um ambiente golpista. E por isso, ele fará o possível para mobilizar as suas milícias políticas e os seus seguidores nas polícias militares. Isso não é suficiente para dar um golpe e virar a mesa, mas é capaz de criar um tumulto no país, a exemplo do que fez Donald Trump com o episódio do Capitólio.

Resumo da ópera: é muito improvável que tenhamos um golpe militar tradicional. Mas também é muito improvável imaginarmos Bolsonaro a perder as eleições e a aceitar a derrota. Será preciso derrotá-lo nas urnas e nas ruas.

Não estamos num processo eleitoral normal. O nosso papel não será apenas no dia 2 de outubro. Esta eleição vai exigir engajamento e mobilização de todos nós. Temos 5 meses para disputar a consciência da sociedade, eleger Lula e derrotar a ameaça bolsonarista. Para cima deles!


Guilherme Boulos é professor, membro da coordenação nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto e foi candidato à presidência nas eleições de 2018 pelo PSOL.

Texto publicado originalmente na Jacobin Brasil. Editado para português de Portugal por Esquerda.net.

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