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Há mais de 100 mil alunos com professores em falta, diz Fenprof

A federação sindical apresentou o resultado do levantamento feito na última semana junto das escolas de todo o país. Faltam professores em três quartos das escolas. Dia 4 de outubro há plenário em frente ao Parlamento para assinalar o Dia Mundial do Professor.
Foto de Paulete Matos.

Entre 16 e 23 de setembro, a Fenprof contactou todas as escolas para obter o retrato da falta de professores no início do novo ano letivo. Com base nas respostas de 277 agrupamentos e escolas, 27% do universo inquirido, Mário Nogueira afirmou esta terça-feira: “Posso afirmar sem medo de errar que são certamente mais de 100 mil alunos” sem todos os professores atribuídos. Um número semelhante ao que tinha sido avançado meses antes nas projeções feitas pela diretora do Pordata e que o ministro da Educação usou como comparação para dizer que o ano letivo tinha começado melhor do que o previsto, pois havia 60 mil alunos sem pelo menos um professor.

A falta de professores abrange todas as disciplinas e regiões do país. “Nestas duas semanas, até dia 23, o ano letivo abriu com três quartos das escolas, ou seja, 73,7% a terem falta de professores”, disse o líder a Fenprof, citado pela agência Lusa. As situações são diferentes de escola para escola, pois há casos onde apenas falta um docente e outros onde faltam 34.

As disciplinas mais afetadas pela falta de professores, segundo a informação recolhida neste inquérito, são Informática, Físico-Química, Português, Matemática, Biologia-Geologia. Mas também faltam educadores de infância e professores do 1.º ciclo, adianta a Fenprof.

“Eu gostava de ver as pessoas a submeterem-se a uma cirurgia por gente sem habilitação própria"

Para suprir a carência de professores, há escolas a recorrer a “jovens que não optaram pela profissão de professor mas que acabaram por optar por vir dar aulas”. Uma prática comum nas regiões de Lisboa e Algarve, onde “60% das escolas e agrupamentos já tinha recorrido, só nas duas primeiras semanas de aulas, a pessoal não profissionalizado para dar aulas”. Mas que não é bem vista pela Fenprof.

“Eu gostava de ver as pessoas a submeterem-se a uma cirurgia por gente sem habilitação própria, fazer uma viagem de avião com um piloto sem curso porque já não havia dos outros, mas para as escolas vai-se resolvendo”, desabafou Mário Nogueira. O inquérito revela ainda que ese tipo de contratação está praticamente ausente das escolas na Região Norte, com apenas 2,7% dos estabelecimentos a contratarem não-profissionalizados, enquanto na Região Centro esse valor sobe para os 20%.

Além da falta de professores, também a falta de funcionários continua a fazer parte do quotidiano escolar. De acordo com Mário Nogueira, “em metade das escolas e agrupamentos deu-se a abertura com falta de trabalhadores não docentes”. Para remediar essa ausência de trabalhadores, algumas direções escolares estão a “obrigar professores a fazer o papel de assistentes operacionais”. Em escolas do 1º ciclo, revelou o sindicalista, há diretores a pedir aos professores que fiquem a tomar conta das crianças durante os intervalos.

Bloco apresentou três propostas urgentes para suprir falta de professores

Na semana passada, em visita a uma escola na Baixa da Banheira, no distrito de Setúbal, Catarina Martins denunciou a situação das escolas sem professores suficientes e apresentou as propostas do Bloco para fixar professores na escola pública.

O Bloco propõe em primeiro lugar a abertura de um "processo de vinculação extraordinária de docentes" para dar estabilidade aos professores precários que já estão nas escolas. Em segundo lugar, o fim dos horários incompletos, que significam "salários incompletos", através da promoção e dinamização de atividades nas escolas e projetos educativos. E em terceiro lugar, a criação de um “regime de compensação a docentes deslocados, para garantir que os professores não têm de pagar para trabalhar e que conseguem fazer face às despesas de alojamento e transporte”.

Fenprof admite greve caso OE'2023 não dê respostas e promove plenário em frente ao Parlamento a 4 de outubro

A próxima etapa da luta dos professores está marcada para o dia 4 de outubro, quando irão celebrar o Dia Mundial do Professor com um plenário em frente às escadarias da Assembleia da República.

Questionado sobre a possibilidade de convocar greves, Mário Nogueira respondeu que isso dependerá do que o Orçamento do Estado para 2023 a apresentar pelo Governo destinar à classe docente.

“A existência de greve ou não está mais nas mãos do Governo do que nas nossas. Não queremos que o Orçamento do Estado resolva todos os problemas em 2023, mas queremos que haja um protocolo negocial da legislatura, entre a Fenprof e outros sindicados e o Ministério da Educação, que preveja a forma de valorizar de forma faseada a profissão dos professores”, afirmou o sindicalista.

Uma das reivindicações dos professores é a garantia de que não irão perder mais poder de compra, após este ter caído 14% na última década. Por isso, defende que aumentos salariais  “abaixo de 10% é uma perda tremenda”.

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