Está aqui

Guatemala: Congresso queimado, orçamento retirado

A proposta orçamental que cortava na saúde e na educação gerou indignação popular. Foi retirada esta segunda-feira.
Manifestante em frente ao Congresso da Guatemala enquanto este arde. Novembro de 2020. Foto de ESTEBAN BIBA/EPA/Lusa.
Manifestante em frente ao Congresso da Guatemala enquanto este arde. Novembro de 2020. Foto de ESTEBAN BIBA/EPA/Lusa.

Na Guatemala, o fim de semana tinha sido de revolta contra a proposta de orçamento para 2021. O Congresso da República, sede do poder legislativo, foi coberto de pinturas e chegou a ser incendiado no sábado. Esta segunda-feira, foi anunciada a sua retirada. O parlamento guatemalteco fica assim com menos de uma semana para preparar uma nova proposta orçamental.

A anterior tinha sido aprovada no passado dia 17 pela maioria afeta ao presidente conservador Alejandro Giammattei. No cargo desde janeiro, este enfrentava já uma crise política com desavenças públicas com o seu Vice-Presidente, Guillermo Castillo, que o convidara a demitir-se em conjunto consigo.

O orçamento mais elevado da história do país, com 11 mil milhões de euros, um terço dos quais financiado por mais dívida pública, gerou indignação por negligenciar o combate à pobreza, o investimento na saúde e na educação. Nas redes sociais comparavam-se os mais de 55 mil euros em refeições para parlamentares, previsto no orçamento, com o corte de fundos destinados aos pacientes Covid. Mas quem ficava mesmo a ganhar era o setor privado: para além da reconstrução após os furacões Eta e Iota, estava previsto o investimento em sete grandes obras.

O problema é que neste país onde 60% das pessoas vivem abaixo do limiar da pobreza, grandes obras são sinónimo de corrupção, amiguismo e desvio de fundos. Aí está para o provar uma das grandes apostas do anterior presidente, o cómico Jimmy Morales: a estrada circular de Chimaltenango. Parte do dinheiro para o estudo de impacto ambiental foi desviado e a concretização da obra somou problemas como o deslizamento de terrras e inundações que arruinaram as colheitas à sua volta. Para além das suas condutas de água ameaçarem um parque natural. O anterior ministro das Comunicações, Infraestruturas e Habitação, José Luis Benito, é acusado neste caso de desvio de fundos pela procuradoria anti-corrupção, sendo atualmente procurado depois de se terem descoberto 22 malas com 13 milhões de euros em sua casa.

O anterior presidente saiu do cargo manchado pelas acusações de abusos sexuais e de corrupção e com a Amnistia Internacional a acusá-lo de “ameaças e intimidações contínuas e discursos estigmatizantes” contra os defensores dos direitos humanos no país. Descobriu-se ainda que recebia um complemento de salário secreto e ilegal, a título de “bónus de risco”, das Forças Armadas e foi acusado de financiamento ilegal da campanha eleitoral.

Antes de Morales, tinha ocupado o cargo Otto Pérez Molina, que se demitiu na sequência dos protestos massivos anti-corrupção de 2015. Molina encontra-se neste momento, junto com a sua antiga Vice-Presidente, Roxana Baldetti, detido à espera de julgamento em vários casos.

Termos relacionados Internacional
(...)