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Grupo chinês da energia pode ficar com petrolífera da Gulbenkian

A Fundação anunciou na quinta-feira que pretende sair do negócio do petróleo e gás, que, a par das aplicações financeiras, tem sido a sua fonte de financiamento. Em novembro de 2017, o CEFC China Energy comprou a companhia de seguros do Montepio.
Foto publicada no site da Câmara Municipal de Lisboa.

Segundo escreve o Expresso e o Público, o grupo chinês da energia CEFC China Energy pretende ficar com a petrolífera Partex, fundada em 1938 por Calouste Gulbenkian, e que é atualmente presidida por António Costa Silva.

Na passada quinta-feira, a administração da Gulbenkian já tinha anunciado que “tem vindo a equacionar a alienação dos investimentos nos combustíveis fósseis (que representaram cerca de 18% dos ativos em 2017), tendo em conta uma nova matriz energética e os seus objetivos em prol da sustentabilidade, na linha do movimento internacional seguido por outras fundações”.

E acrescentou que “recentemente recebeu uma oferta de compra e encontra-se neste momento em processo de negociações com o grupo interessado”.

A Fundação garantiu ainda que “a recomposição do património da Fundação continuará, como no passado, a garantir a realização de todas as atividades filantrópicas da instituição que Calouste Gulbenkian quis ver como perpétua e destinada ao bem da humanidade”.

A confirmar-se a venda da Partex ao CEFC, este será o segundo grande negócio do grupo chinês em Portugal, após ter comprado, em novembro do ano passado, uma posição maioritária na companhia de seguros Lusitânia, detida pelo Montepio, faltando apenas a autorização do regulador do sector para que o negócio se concretize. Na altura, o CEFC anunciou ainda a transferência para Portugal da sede dos seus negócios financeiros.

O Jornal de Negócios escreve que a Fundação Calouste Gulbenkian poderá encaixar 500 milhões de euros com a venda da Partex.

Fontes de financiamento da Gulbenkian: Exploração e produção de petróleo e gás e aplicações financeiras

Desde a sua constituição legal, em 1956, os rendimentos provenientes do negócio do petróleo representaram uma das mais importantes fontes de financiamento das atividades da Fundação. Entretanto, a par da exploração e produção de petróleo e gás natural, desenvolvida pela Partex, a Gulbenkian passou a apostar em aplicações em mercados financeiros internacionais.

De acordo com o relatório de contas divulgado, em 2010, a carteira de investimentos da Fundação estava avaliada em 1772 milhões de euros, sendo que o seu rendimento tinha sido afetado “por uma exposição significativa” à dívida soberana europeia. Em 2010, a Fundação tinha investido 468 milhões de euros em dívida pública.

Os negócios da energia voltaram então a ganhar peso no património da Fundação. Em 2011, as operações de exploração de petróleo e gás natural permitiram que os ativos totais da Gulbenkian crescessem 3%, para 3019 milhões de euros. Já o património líquido reforçou-se em 89,7 milhões de euros, subindo para os 2645 milhões de euros.

Em maio de 2012, o então presidente da administração da Fundação alertava que a incerteza e volatilidade nos mercados financeiros eram fatores que condicionavam a atividade da Gulbenkian. Com 1600 milhões de euros da instituição aplicados nos mercados financeiros, Artur Santos Silva sublinhava que a instabilidade nas bolsas “não deixa de ser uma condicionante”, adiantando que os investimentos no setor do gás e petróleo tinham permitido equilibrar a instabilidade nos mercados.

Artur Santos Silva alterou, posteriormente, o modelo de gestão das aplicações, passando a dar mais peso aos analistas financeiros. No relatório de contas de 2016, o também ex-presidente do BPI realçava o “desempenho satisfatório” da carteira de ativos financeiros. Por outro lado, sinalizava que “a Partex atribuiu à Fundação, durante o período, cerca de 300 milhões de euros em dividendos, cerca de metade dos quais pagos com a transferência de ativos relacionados com energias renováveis, mas gerou uma rentabilidade média anual negativa de 3,2%”.

Em 2016, as participações da Gulbenkian em empresas dedicadas à exploração e produção de petróleo e gás, reunidas na Partex - que, nos últimos anos, tem reforçado o negócio do gás natural, em detrimento do petróleo - somavam 495 milhões de euros. A Gulbenkian detinha ainda uma carteira de ativos financeiros na ordem dos 2.247 milhões de euros.

Hoje, a Gulbenkian defende que a saída do negócio do petróleo baixa o risco: “A gestão da carteira da FCG tem tido como principais preocupações a optimização do binómio rentabilidade/risco. Sendo a Partex o ativo mais concentrado numa só indústria e sobretudo numa região, esta operação concorre também para este objetivo”.

A Fundação também pretende alienar a participação de 25% no Fundo NovEnergia, que se dedica à energia eólica, solar e mini-hídrica na Europa, e que integrava as contas da Partex. Este fundo também deverá ser vendido a um grupo chinês.

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