Está aqui

Grupo BES terá financiado ilegalmente campanha de Cavaco Silva

Grupo Espírito Santo poderá ter financiado ilegalmente a segunda campanha presidencial de Cavaco Silva, afirma a revista Sábado, através de um esquema que devolveu a altos quadros do grupo donativos que fizeram à campanha a título supostamente individual. Ministério Público está a investigar.
Ricardo Salgado e Cavaco Silva nos prémios do concurso de Inovação BES, Lisboa, outubro de 2010. Foto Miguel A. Lopes/Lusa.
Ricardo Salgado e Cavaco Silva nos prémios do concurso de Inovação BES, Lisboa, outubro de 2010. Foto Miguel A. Lopes/Lusa.

As campanhas presidenciais de Cavaco Silva terão recebido financiamentos ilegais do grupo Espírito Santo, através de um esquema que os mascarava de donativos individuais feitos por pessoas ligadas ao grupo, avança hoje a revista Sábado.

A investigação da Sábado analisou as contas oficiais da campanha do ex-presidente e cruzou-as com dados sobre transferências envolvendo offshores ligados ao grupo BES/GES. Segundo a reportagem, a suspeita é que a legislação sobre financiamento de campanhas foi contornada através de "uma entidade controlada pelo GES e então desconhecida da maioria dos portugueses, a ES Enterprises". Esta empresa, "uma espécie de saco azul do grupo para fazer pagamentos que não entravam nas contas oficiais do GES", terá restituído a muitas pessoas ligadas ao grupo os donativos individuais que estas fizeram à campanha de 2011 para o segundo mandato presidencial de Cavaco Silva, num esquema "de tal forma eficaz que nenhuma autoridade — PJ, Ministério Público ou Entidade das Contas e Financiamentos Públicos — detetou o que sucedeu".

Ricardo Salgado e outras nove pessoas de topo do grupo Espírito Santo fizeram em 2011 doações individuais através de cheques endereçados à "candidatura de Aníbal António Cavaco Silva", próximas do teto máximo de 25 mil euros, num total de 250 mil euros. A campanha acabou por recolher 1,5 milhões de euros em doações. Até aqui, tudo legal. Mas os dados sobre o chamado saco azul dos Espírito Santo, bem como documentos revelados pelo caso Panama Papers, dão fortes indícios de que o universo de empresas-fachada e offshores do grupo lhes devolveu estas doações, afirma a Sábado.

Amílcar Morais Pires, antigo braço-direito de Ricardo Salgado, é um dos exemplos. Em dezembro de 2014, Pires já recusara prestar informações a Mariana Mortágua na comissão parlamentar de inquérito ao BES sobre o papel de uma sociedade Allanite, de que era o último beneficiário. Segundo os documentos a que Sábado teve acesso, a Allanite recebeu em março e abril de 2010 duas transferências do BES Angola, uma delas no valor de 1,5 milhões de euros. Um mês após as presidenciais, em fevereiro de 2011, a Allanite recebeu 1,525 milhões — mais 25 mil euros que poderão ter sido "a quantia que serviu de pagamento a Morais Pires pelo donativo feito". À Sábado, Pires confirmou as transferências mas disse que o que recebeu a mais foram prémios de desempenho, negando que tivessem algo a ver com compensações pelos donativos à campanha de Cavaco, que diz ter feito voluntariamente "enquanto cidadão". Além de Morais Pires, os antigos administradores do BES António Souto e Pedro Homem são também associados a operações semelhantes.

Segundo a Sábado, as suspeitas sobre o possível esquema de financiamento ilegal à candidatura de Cavaco Silva surgiram no âmbito das investigações do Ministério Público aos processos que envolvem o BES/GES. Embora sejam colaterais e de menor dimensão face a eles, o DCIAP, departamento do MP especializado na criminalidade mais complexa, está a investigar. Segundo uma fonte anónima citada pela revista, "a investigação está muito avançada" e o DCIAP terá identificado "uma dezena de suspeitos", alguns dos quais terão confirmado que tudo terá sido "combinado e dirigido por Ricardo Salgado".

(...)