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Gripe das aves: a industrialização da pecuária gera epidemias

A gripe das aves está a ser potenciada pela criação intensiva. Nesta entrevista, a socióloga rural e ativista Roxanne Mitralias mostra a dimensão do problema em França e analisa as causas do que está a suceder.
Foto de calafellvalo/Flickr.
Foto de calafellvalo/Flickr.

Amplamente ocultada, a atual epidemia de gripe aviária é uma das mais graves da pecuária em França. Em entrevista à revista Contretemps, Roxanne Mitralias analisa esta situação e as suas causas apresentando ainda a posição e as lutas da Confederação de Camponeses.


Podes fazer um ponte de situação do estado da epidemia?

Roxanne Mitralias: Desde 2015, vivemos epidemias de gripe aviária em França. Esta é a quarta e a mais grave mas como não afeta por agora os seres humanos não se fala muito dela. Há atualmente mais de 1.350 focos, 500 dos quais no sudoeste e o resto, pela primeira vez, na região ocidental, maioritariamente no País do Loire.

Historicamente o sudoeste é uma região de criação ao ar livre, enquanto que o Ocidente é quase exclusivamente de criação em espaços fechados. Nas duas regiões, a produção avícola aumentou muito fortemente desde os anos 2000.

A gripe aviária chega habitualmente com a fauna selvagem. Geralmente, o ambiente das explorações é contaminado e o vírus introduz-se através de qualquer um dos fluxos de entrada: materiais, pessoas, animais, ciclos de abate e de transporte de animais, mas também de ventilações dinâmicas (típicas das grandes instalações intensivas). As tempestades acentuaram este fenómeno, transportando os aerossóis contaminados ao longo de vários quilómetros. Quanto mais uma criação está integrada em fileiras longas, quanto mais animais tem, e particularmente quando se situa numa zona densa, mais possibilidades tem de ser contaminada e de contaminar outras. Nestas regiões densas, a situação tornou-se explosiva e a circulação do vírus ficou fora de controle. Em dois meses, são mais de 1000 casas, é um recorde!

O que está em causa nesta epidemia?

Com o Covid, começámos a aflorar a questão da segurança alimentar; constata-se uma vez mais que este sistema não consegue gerir este tipo de crise. As fileiras das aves de capoeira estão à beira do colapso: as regiões afetadas concentram uma grande parte da produção francesa. Este ano foram afetadas a genética, a incubação, a reprodução, ou seja, as crias, sem as quais deixa de haver uma fileira. Não haverá um regresso à normalidade antes de 2023 ou mesmo 2024 para certas espécies. Isso também afeta a produção de ovos: 40% das frangas (as galinhas de seis meses que são entregues nas explorações para por ovos) produzidas na França são provenientes da Vendeia. O mercado de carne de aves caiu 30% e já há 8% menos ovos.

O sistema avícola intensivo é agora incapaz de assegurar o aprovisionamento para o qual recebe abundantes subvenções estatais.

A catástrofe é de tal dimensão que não há equipas suficientes para gerir os cadáveres, para ir matar os animais que estão doentes mas que não morrem ou os que sobrevivem. Isto contraria tudo: o bem-estar animal, as condições de trabalho, ambientais e de saúde. Chegámos a um ponto em que os serviços do Estado pedem para fechar as ventilações para que as aves morram por asfixia e para os trabalhadores acabem com a vida delas à pazada, o que tem um impacto psicossocial muito grande para eles. Permitem aterros em explorações agrícolas quando há risco de poluição do lençol freático. Tudo isto é feito sem equipamento de proteção, os trabalhadores arriscam intoxicação. Estamos portanto face a um sistema que gera problemas que é incapaz de resolver: difusão do vírus incontrolável devido à organização industrial da produção; incapacidade de gerir os volumes de animais que se têm de abater ou que já estão mortos.

De de forma a organização industrial da produção produz estas epidemias?

Ainda que o ministro da Agricultura não queira ouvir, vários cientistas colocam em causa a ideia de que a fauna selvagem é a causa das epidemias. É a industrialização da produção que gera estas epidemias como explica Serge Morand1.

Inverteram-se as proporções entre animais selvagens e de criação. Entre os animais de criação, nascem e circulam novos vírus: estes contaminam a fauna selvagem. Na Europa, três países são os mais afetados: França, Hungria e Itália. Em Itália, são as explorações do norte que foram afetadas: 18 milhões de animais foram abatido uma média de 47.000 por exploração.

Não é porque haja uma forte circulação na fauna selvagem que há muitos casos nas explorações: na Europa, estes três países afetados são grandes produtores de aves. As condições delirante de densidade geram um risco para a saúde humana e animal, uma vez que na Vendeia atualmente circula um vírus que é particularmente virulento para as aves. Existe risco de transmissão para os trabalhadores do setor sem que haja risco de contaminação inter-humana atualmente. Ainda que esta versão não seja muito virulenta para o ser humano, em condições de circulação tão fortes podem emergir novas formas de gripe que poderão ser perigosas.

Habitualmente, pensava-se que a contaminação de uma exploração se fazia através de uma ave migratória (ganso, cisne) que pousaria sobre as capoeiras; na realidade isto não funciona assim: sabe-se agora que os contactos diretos entre aves domésticas e aves selvagens são raros e que as contaminações passam pelo ambiente.

As condições específicas ligadas às fileiras industriais fazem com que as criações estejam hiper-conectadas, os animais circulam, as equipas compostas por trabalhadores muitas vezes mal pagos e estrangeiros também passam de exploração em exploração para carregar os animais; é o caso igualmente dos vacinadores ou dos técnicos que vêm fazer a pesagem. Tudo isto são elementos de fragilidade que fazem com que as epidemias se tornem incontroláveis.

Ao mesmo tempo, o governo lança uma política de interdição de criação a céu aberto?

Essa política está baseada numa ideologia que diz que o problema é a fauna selvagem, que um pássaro pousa e contamina uma exploração a céu aberto. De facto, ainda que este risco não seja nulo, é quase inexistente e é necessário agir sobre os perigos principais.

A ANSES, Agência Nacional de Segurança Sanitária da Alimentação, do Ambiente e do Trabalho, precisa que o risco de introdução do vírus numa criação a céu aberto ou fechada é o mesmo. Este ano 99% das explorações que são focos são fechadas uma vez que é quase proibido deixar sair estes animais.

Seja como for, há pouco que pode ser feito para combater a ameaça de introdução primária do vírus. Por outro lado, podemos atuar no risco de difusão, nos fluxos, transporte de animais vivos, na multiplicação de atores, nas densidades. É nisso que se teria que agir; e no ano passado, houve uma contra-ofensiva dos setores económicos: o governo Macron, que os segue integralmente, impôs o confinamento a todos, considerando que isso resolverá o problema.

Nas áreas de risco, o confinamento é obrigatório desde setembro e em toda a França desde novembro. Como temíamos o confinamento é a nova norma. A imposição do confinamento é totalmente compatível com os negócios. Tomar essa medida permite que o governo finja estar a agir apesar de ser inútil o que decide. Mas a realidade é teimosa, esta ano, enquanto estava tudo confinado, assistimos à pior crise já vivida e pode ser que este confinamento das aves, devido à concentração viral e à expulsão no ar através da ventilação, gere epidemias ainda mais graves, ainda que isto esteja por provar.

Também constatámos que este medida aumenta a produção nas zonas intensivas. Exatamente o inverso do que seria preciso fazer. Estas medidas assinalam o fim da criação a céu aberto em França e não têm nenhuma utilidade do ponto de vista sanitário.

Quais são as perspetivas para sair desta crise?

Sabemos que com as alterações climáticas e a intensificação da produção avícola as crises sanitárias deste tipo vão acontecer todos os anos, não há nenhuma razão para que parem. Na realidade, há uma urgência de baixar, radicalmente, a densidade da criação na fileira dos animais de capoeira. Seria preciso também diminuir ou até mesmo suprimir alguns fluxos mas isto coloca totalmente em causa o modelo de produção industrial das aves. São medidas que têm um alto nível de radicalidade; dito isto, a fileira do foie-gras, por exemplo, começa a equacionar isto porque a situação não é gerível. Na realidade, estamos perante fileiras que já não conseguem produzir em grande parte do ano. É um desastre, não conseguem cumprir o seu papel, ou seja produzir aves ou ovos.

Finalmente, desde a aceleração das crises, estas fileiras só sobrevivem graças ao dinheiro público.

Apenas em indemnizações este ano ultrapassámos um bilhão e meio: não faz sentido. É urgente que passemos para outra coisa, a agricultura camponesa, provavelmente, mas isso não acontecerá imediatamente, pelo menos não com este governo.

Que ações implementaram na Confédération Paysanne?

Ao nível jurídico, enviámos um recurso ao Conselho de Estado para proteger as quintas e evitar o desaparecimento das explorações a céu aberto. Infelizmente, perdemos. Também propusemos verdadeiras medidas de lutam que permitiam continuar a viver e a trabalhar. Nunca fomos ouvidos pelos poderes instituídos e, desde a chegada do governo Macron, fomos afastados destas discussões. Por outro lado, interviemos junto dos deputados, tentámos fazer falar do tema. É claro que tentamos defender os camponeses, local e concretamente. Por exemplo, os que recusaram confinar as suas aves incorrem em penalizações e o Estado quer diminuir as suas indemnizações, considerando que são responsáveis pela gripe aviária. Devemos repetir: são obrigados a confinar as aves mas esta medida coloca em perigo as suas explorações, a saúde e o bem-estar dos animais e é perfeitamente inútil. No terreno, desde 2015, é um tema da maior importância para os criadores. Organizaram-se muitas ações. Mobilizámo-nos frente às Câmaras, às Direções de Departamento de Proteção das Populações, aos serviços descentralizados do Ministério da Agricultura.

Mas não temos influência sobre este ministério; o que me choca é que eles negam o consenso científico e a realidade do que está a acontecer; culpam-nos por falar com os meios de comunicação social, não querem que isto seja conhecido. Auto-congratulam-se no seu negacionismo. E, ao mesmo tempo, os camponeses se perguntam-se conseguirão continuar... Parece-me que, num mundo normal, um desastre desta dimensão deveria fazer cair um ministro. Mas não estamos em um mundo normal.


Roxanne Mitralias é socióloga rural e das ciências. Trabalha na Confédération Paysanne de França.

Entrevista realizada por Fanny Gallot. Publicada originalmente no Contretemps. Traduzido por Carlos Carujo para o Esquerda.net.

Notas

1- Serge Morand, L’homme, la faune sauvage et la peste, Fayard, 2020.

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