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Greve geral por melhores condições de vida mobiliza a Guiana Francesa

A comparação com a “metrópole” continental revela uma disparidade colonial moderna. O rendimento por agregado no continente francês está nos 25,6 mil euros, mas apenas 17 mil na Guiana Francesa, apesar dos preços de bens de consumo serem 13% mais altos do que no continente. Uma em cada quatro famílias da Guiana Francesa vive abaixo da linha da pobreza. 

Convocada por 37 sindicatos unidos na Union de travailleurs guyanais (UTG), uma central sindical afeta à CGT de França, as reivindicações dirigem-se a todo o sistema político. Esta não é, por isso, uma greve de barganha salarial ou setorial. 

A mobilização conta com o apoio de representantes políticos locais, como o presidente da Coletividade da Guiana (a Guiana Francesa é uma região administrativa que faz parte da República Francesa), Rodolphe Alexandre, que se recusa ir até Paris para participar das negociações com o governo francês pedidas por François Hollande.

As escolas, a universidade, a zona portuária, os serviços administrativos e alguns setores comerciais estão fechados desde quinta-feira, e assim irão permanecer enquanto a greve não for desconvocada. O trânsito automóvel tornou-se quase impossível devido ao fecho da maioria das estações de gasolina, e tanto a Air France como a Air Caraibes anularam os voos de e para o território. Cerca de dez barragens bloqueiam desde quinta-feira (23 de março) os cruzamentos estratégicos do litoral da Guiana Francesa, fechando inclusive a entrada da capital, Caiena. 

Em concreto, os grevistas reclamam um plano de investimento maciço em serviços de saúde, educação, economia e infra-estruturas, bem como um fim ao sentimento de insegurança.

Criticam a ausência de respostas ao desemprego (que atinge 22% da população, 54,9% nos mais jovens entre os 15-24 anos), uma rede elétrica medíocre, o tratamento de lixos e esgotos quase inexistente, e um nível de escolarização baixo. A rede de transportes públicos consiste em sete linhas de autocarros nas principais zonas urbanas através da única auto-estrada costeira, sem qualquer relação com o resto do território. 

48% dos jovens de 18 anos têm dificuldade na leitura, contra a média nacional de 10% em França. 15% dos cidadãos não tem acesso a água potável; a internet também não é acessível na maior parte do interior. 

A comparação com a “metrópole” continental revela uma disparidade colonial moderna. O rendimento por agregado no continente francês está nos 25,6 mil euros, mas apenas 17 mil na Guiana Francesa, apesar dos preços de bens de consumo serem 13% mais altos do que no continente. Uma em cada quatro famílias da Guiana Francesa vive abaixo da linha da pobreza. 

A primeira cidade onde a greve se fez sentir foi Kourou, a cidade colonial transformada em centro do programa espacial francês em 1964 (hoje centro da Agência Especial Europeia). 

O programa espacial é o centro económico da Guiana Francesa, e o impacto no programa é instrumental para o sucesso da greve geral, tendo provocado o atraso do lançamento do primeiro satélite europeu 100% elétrico. 

O momento em que foi lançada, a meio das presidenciais em França, obrigou os candidatos a posicionarem-se. Jean-Luc Mélenchon declarou a "solidariedade com todos os cidadãos da Guiana Francesa. Por seu lado, Emmanuel Macron referiu-se ao território como uma "ilha", o que provocou um forte embaraço mediático, enquanto que Marine Le Pen denunciou os "serviços cruelmente mínimos" do território. Benoît Hamon manifestou a sua solidariedade e a vontade de lançar um plano de investimentos a cinco anos. 

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