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Greve geral e cacerolazo no Chile porque “não são 30 pesos, são 30 anos”

Esta quarta-feira começa a greve geral de 48 horas no Chile. O presidente pediu perdão na televisão e anunciou medidas sociais mas protestos continuam desafiando o recolher obrigatório e indo além da reivindicação inicial contra aumento do preço do metro. A Human Rights Watch exige ao governo cumprimento dos direitos humanos.
Greve geral no Chile. Outubro de 2019.
Greve geral no Chile. Outubro de 2019. Fonte: @GutierrezKine23/Twitter.

O pedido de perdão do presidente Sebastián Piñera, feito na noite da passada terça-feira ao vivo na televisão chilena, não pareceu sincero às mais de duas dezenas de organizações sindicais e estudantis que tinham convocado uma greve de 48 horas. À cabeça das suas exigências está o fim do estado de emergência e a implementação de uma verdadeira agenda social que responda às exigências dos manifestantes.

Piñera tinha anunciado já antes uma viragem depois das declarações iniciais em que falava num estado de guerra causado pelos manifestantes que seriam inimigos. Marcou assim uma reunião com os líderes de todos os partidos da oposição para tentar envolvê-los nos seus planos. Mas apenas os presidentes do Partido Radical, do Partido pela Democracia e do Partido Democrata Cristão estiveram presentes. Frente Ampla, Partido Socialista e Partido Comunista recusaram o encontro.

Os socialistas rejeitaram a proposta de encontro “não porque não queiramos negociar”, esclareceu Manuel Monsalve, o chefe de bancada parlamentar do partido, mas porque o convite “exclui um setor da oposição”, criticando ainda o uso de força contra as manifestações. Guillermo Teillier, presidente do Partido Comunista, esclareceu que não tinha sido convidado primeiro, só em cima da hora chegou um convite, criticando o facto de “não se escutar os movimentos sociais”.

Depois de falhado o acordo com a oposição, Piñera avançou em seu nome com um plano social para tentar amainar as manifestações. Tratou de anunciar que iria aumentar algumas pensões em 20%, complementar o salário mínimo, suspender o aumento da eletricidade em 9,2%, implementar um “seguro de saúde” para a compra de medicamentos e convénios com as farmácias e aumentar impostos para os mais ricos. O presidente do país prometeu ainda uma reforma política de modo a reduzir o número de deputados, introduzir limitações de mandatos e diminuir salários de senadores e funcionários do governo.

Propostas que ficam curtas face às exigências dos movimentos sociais e dos manifestantes que continuam a sair às ruas desafiando o recolher obrigatório. A oposição diz que se tratam de migalhas, que não há mudanças estruturais e que mesmo as propostas que aparentemente têm preocupações sociais se traduzem na prática pela oferta de dinheiro do Estado aos privados que gerem o setor energético, as pensões e as farmácias. Por exemplo, a deputada Carmen Hertz criticou o pacote por não conter “nenhuma medida de fundo apenas “leves” subsídios, migalhas, nada de tocar no modelo de apropriação dos salários e de usufruto de rentistas improdutivos à custa da imensa maioria”. E o analista político Pablo Jofre escreveu num blogue do canal TeleSUR que este governo era “cego, surdo, inepto e incompetente”, acrescentando a ideia que as movimentações atuais do presidente são manobras de “gatopardismo”, ou seja “muda-se tudo para que nada mude”.

Os grevistas pedem a demissão de Piñera, a convocatória de uma Assembleia Constituinte, entre outras medidas como um maior aumento do salário mínimo, nacionalização dos transportes públicos e transportes gratuitos para estudantes e reformados, perdão das dívidas de propinas estudantis, nacionalização da energia e congelamento de preços, retirada do projeto de reforma da segurança social, saúde público e baixa de preços dos medicamentos, abolição da lei da água (que é privada) e congelamento de tarifas, retirada da proposta de reforma fiscal, fim do IVA nos produtos básicos e cabaz familiar, aborto livre e seguro.

Cacerolazo: não são 30 pesos, são 30 anos

Para além do protesto convocado pelos sindicatos, as mobilizações de rua continuam porque, como explica uma das canções que passou a fazer parte da banda sonora da revolta, Cacerolazo, de Ana Tijoux, “não são 30 pesos, são 30 anos”. Ou seja, o que tem feito os chilenos sair às ruas é bem mais do que o aumento do preço do metro, são as injustiças sociais num país altamente desigual.

Na noite desta terça-feira, voltou-se a desafiar o recolher obrigatório. E o número de vítimas mortais nas manifestações elevou-se a 17, devido a um atropelamento em Concepción. Há agora mais de dois mil feridos.

A repressão aos protestos tem ampliado a ira. Um coletivo de 2500 ativistas, artistas e intelectuais publicou uma carta aberta sobre “a grave situação no Chile” na qual condena “de forma enérgica a suspensão das liberdades constitucionais que afetam a população chilena após a declaração de Estado de Emergência, a repressão policial, a ocupação militar das ruas e os toques de recolher obrigatório em diferentes regiões do país”. Exigem a “suspensão da aplicação de qualquer medida criminalizadora do protesto”. E também os signatários desta carta sublinham que os protestos “são uma resposta face a uma continuidade de abusos estruturais”.

Também fora do país a violência estatal está a ser criticada. A organização não-governamental Human Rights Watch lançou um pedido ao governo para respeitar os direitos humanos e para que “os agentes implicados em abusos sejam investigados de forma imediata e imparcial”. O diretor da da divisão das Américas da organização, José Miguel Vivanco, declarou que esta está “profundamente preocupada com as imagens de brutalidade policial no Chile” que considera credíveis e que mostram, por exemplo, militares a espancar manifestantes já detidos para além de transeuntes que não participavam nas manifestações.

O pedido de perdão pouco sincero e os alienígenas

Para além das medidas anunciadas, houve quem tivesse ficado incomodado também com o próprio conteúdo de um pedido de “perdão” que, responsabilizando todos os governos passados, parece sacudir a água do capote dizendo que “os problemas se acumulavam desde há muitas décadas e que os vários governos não foram nem fomos capazes de reconhecer esta situação em toda a sua magnitude. Ou seja, Piñera reconheceu a sua “falta de visão” e pediu “perdão” mas não no que toca ao polémico envio de 10 mil soldados para as ruas e às ordens para disparar gás lacrimogéneo e balas de borracha contra manifestações não violentas não voltou atrás. Na mesma comunicação afirmou que apenas levantará “o Estado de Sítio” quando “esteja seguro que a ordem pública, a segurança, tranquilidade e proteção dos bens públicos e privados estejam resguardados.”

Se o pedido de perdão está a ser tomado como pouco sincero, a verdadeira voz das elites está a ser tomada como a da mulher do presidente, Cecilia Morel, numa mensagem de áudio que se tornou pública no passado domingo. Morel classifica as manifestações como “uma invasão estrangeira, alienígena”, acrescentando que “vamos ter que diminuir os nossos privilégios” porque “o que vem aí é muito, muito, muito grave”.

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