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Grande crescimento dos Verdes no PE, com base na Europa rica

Nas eleições para o Parlamento Europeu (PE), os ecologistas e independentistas/autonomistas do G/EFA (Grupo dos Verdes/Aliança Livre Europeia) registaram um grande crescimento, tendo subido de 52 para 75 MEP. Por Jorge Martins
Na Alemanha, os Verdes tiveram a maior subida passando de 13 para 25 mandatos
Na Alemanha, os Verdes tiveram a maior subida passando de 13 para 25 mandatos

Rescaldo das Europeias (5): o novo Parlamento Europeu (IV)

Continuamos a nossa análise dos resultados, considerando, agora, os grupos ecologista/regionalista e da esquerda, de acordo com os critérios definidos anteriormente, e, também, da participação eleitoral.

G/EFA: Grande crescimento, com base na Europa rica

Os ecologistas e independentistas/autonomistas do G/EFA registaram um grande crescimento, tendo subido de 52 para 75 MEP, o que lhe garantiu um aumento do seu peso percentual de 6,9 para 10,0%.

O G/EFA aumentou a sua representação em 11 Estados, viu-a cair em oito e manteve-a em dois. Nos restantes sete, não tinha e continua a não ter qualquer eleito. São eles Grécia, Chipre, Malta, Polónia, Eslováquia, Roménia e Bulgária.

A rendição dos partidos sociais-democratas ao neoliberalismo levou algum eleitorado mais à esquerda a encontrar refúgio nas formações ecologistas. Mas, por outro lado, o facto de certos partidos verdes se terem rendido ao neoliberalismo triunfante, tornando-se mais “mainstream”, permitiu-lhes conquistar eleitores ao centro, embora perdendo alguns à esquerda. Entretanto, algumas forças políticas integradas no grupo são centristas e/ou de cariz agrário, em especial no Leste.

Os ecologistas forma beneficiados com o aumento das preocupações com as alterações climáticas e o estado do ambiente global, reforçadas pelo mediático apelo da adolescente sueca Greta Thunberg. Muito do seu crescimento deu-se à custa da esquerda, que não logrou capitalizar a viragem ao centro de alguns partidos Verdes.

A maior subida ocorreu na Alemanha (de 13 para 25 lugares), graças ao enorme crescimento eleitoral dos Grüne (21), a que se juntam quatro pequenas formações, cada qual com seu eleito. Aqueles aparecem, cada vez mais, como a segunda formação política do país, beneficiando do desgaste do SPD na “grande coligação” com Merkel e das dissensões internas no Die Linke.

Também em França se verificou um avanço dos ecologistas (de 6 para 12), com a EELV a tornar-se a terceira força no panorama político francês, atrás do RN de Le Pen e da LRM de Macron. Nestas eleições, coligou-se com outra pequena formação ambientalista e com alguns partidos nacionalistas e autonomistas, com destaque para os corsos do PNC, que obtiveram um lugar.

No Reino Unido, também registaram grandes ganhos (de 6 para 11), graças ao excelente resultado dos Verdes (GP) e dos nacionalistas escoceses (SNP) e galeses (PC), que atraíram uma parte significativa do voto “remainer”, em especial no centro-esquerda.

Na República Checa, na Irlanda e em Portugal ganharam representação, nos dois primeiros casos de forma categórica. Na primeira, através dos “piratas”, importante força de oposição no país, que obtiveram 3 mandatos, enquanto na segunda os Verdes (GP) conseguiram 2. Por sua vez, no nosso país, o excelente resultado do PAN (5,1% dos votos) valeu-lhe a conquista de 1 eurodeputado.

Noutros Estados, o G/EFA ganhou um lugar. Foram os casos da Bélgica e da Holanda (de 2 para 3, em ambos os países), da Finlândia, Dinamarca e Lituânia (de 1 para 2, em todos eles).

Quanto a perdas, realce para a Suécia (de 4 para 2), fruto da impopular participação do MP na “grande coligação” entre os social-democratas e alguns partidos do centro-direita, que levou o partido a ter dificuldade em ultrapassar a cláusula-barreira nas últimas legislativas. Contudo, o apelo de Greta Thunberg permitiu alguma recuperação dos ecologistas, principalmente à custa da esquerda.

Também em Espanha o grupo registou a perda de dois lugares (de 5 para 3), devido à perda do eleito da coligação Compromís e do facto de o primeiro elemento do BNG surgir em lugar não elegível na lista do Ahora Repúblicas, embora possa entrar em rotação com o 2º eleito da ERC, como na legislatura que agora finda.

Já na Áustria perdeu apenas um mandato (de 3 para 2), com os Grüne a recuperar da cisão protagonizada pelo deputado Peter Pilz, que criou uma nova formação e afastou o seu antigo partido do Parlamento nacional nas últimas legislativas.

Por seu turno, perdeu o representante solitário que tinha na Estónia (onde o independente Tarand se passou para os social-democratas, cuja lista encabeçou), em Itália, na Croácia e na Eslovénia, enquanto na Hungria viu “voar” os seus 2 eleitos (do LMP, que não passou a cláusula-barreira, e do Párbeszéd, que concorreu junto com os socialistas, mas a lista só elegeu o cabeça de lista, indicado por aqueles).

Entretanto, no Luxemburgo e na Letónia manteve o representante que já detinha.

O G/EFA será afetado pelo Brexit, já que sairão os seus 11 membros britânicos e, em compensação, apenas conseguirá quatro adicionais, em França, Áustria, Suécia e Finlândia. Por isso, verá a sua representação diminuir de 75 para 68 MEP, ficando atrás da extrema-direita em dimensão e reduzindo-se, ligeiramente, o seu peso percentual de 10,0 para 9,6%.

GUE/NGL: uma derrota em quase toda a linha

O grupo da esquerda sofreu um importante desaire nestas eleições europeias, não se confirmando as perspetivas de crescimento de há uns meses atrás. A sua representação no PE reduziu-se de 52 para 41 MEP e o seu peso percentual de 6,9 para 5,5%.

O GUE/NGL apenas melhorou a sua representação em dois países, recuou em cinco e manteve-a em oito. Não possui eleitos em 13 Estados: dez da antiga Europa “comunista” (onde só a República Checa, com um eleito, é exceção), mais a Áustria, o Luxemburgo e Malta.

A sua oposição às políticas austeritárias e a desilusão de muitos eleitores com os social-democratas e, em menor grau, com os verdes tenderiam a favorecer um aumento da sua representação no PE.

Contudo, tal não se verificou, por três razões. A primeira foi a “onda verde” que antecedeu as europeias, com a questão climática na ordem do dia, e que levou muitos eleitores, em especial os mais jovens, a eleger formações ecologistas, trocando as forças da esquerda por aqueles. A segunda foram as divergências internas que atingiram alguns dos seus partidos integrantes. Por fim, a sua tradicional debilidade no leste do continente, onde ainda é associada aos regimes derrubados entre 1989 e 1991, não lhe permite ter, para já, grandes ambições numa região que elege mais de 1/4 dos membros do PE.

A maior descida ocorreu em Espanha (de 10 para 6 MEP), com a coligação Unidas Podemos (UP), a ficar muito abaixo dos resultados do Podemos e da Izquierda Plural (IP) há cinco anos, quando cada uma delas elegeu 5. Desta última, onde pontificava a IU, um, da catalã IC-V foi para o G/EFA, tal como agora. Porém, o grupo foi reforçado, tal como então, com um eleito dos independentistas bascos do EH Bildu.

Em Itália, as coisas vão de mal a pior, tendo perdido os 3 eurodeputados que, havia eleito, por uma “unha negra”, em 2014, quando a lista La Altra Europa obteve 4,03% (!...) dos votos, sendo a cláusula-barreira de 4%. Agora, após várias hesitações e dissensões, surgiu, à última hora, uma coligação de vários partidos, sob a designação de La Sinistra (LS). Sem um discurso articulado, quer sobre o país, quer sobre a Europa, a esquerda italiana viu fugir os seus eleitores potenciais para os dois populismos dominantes (a Lega e o M5S) e continua a penar. Agora, não foi além de 1,8% dos sufrágios. É caso para dizer: “Porca miseria”!...

Também na Alemanha sofreu perdas (de 8 para 6 eleitos), fruto das dissensões internas no seio do Die Linke, que perdeu votos para os Verdes, a atravessar um excelente momento. Já os animalistas do Tierschutzpartei mantiveram o seu lugar.

Na Holanda, a quebra também foi significativa (de 3 para 1), com o SP a confirmar o seu mau momento, já visível nas regionais. Também aqui o partido foi afetado por divergências no seu interior e perdeu os 2 mandatos que detinha. Agora, o “país das tulipas” está apenas representado pelos animalistas do PvdD.

Para já, e ao contrário do PAN, as duas formações animalistas deverão manter-se no GUE/NGL, pelas suas posições antiausteritárias, embora não seja de descartar a possibilidade de se transferirem, a médio prazo, para o G/EFA.

Na República Checa, único país da Europa de Leste onde o grupo tem representantes, verificou-se uma descida idêntica (de 3 para 1), com os comunistas do KSČM, não só a sofreram uma forte quebra eleitoral, mas também a terem alguma dificuldade em segurar um eleito.

Em França, a subida (de 5 para 6 eurodeputados), não significa uma vitória, antes pelo contrário. Depois dos quase 20% obtidos pelo líder da FI, Jean-Luc Mélenchon, nas presidenciais do ano passado, os 6,3% de agora sabem a muito pouco.

Ao invés das últimas europeias, disputadas num período de “maré baixa”, a esquerda apresentou-se dividida, já que a FI apenas aceitou aliar-se a uma pequena formação da esquerda soberanista, a Esquerda Republicana e Socialista (GRS), formada por dissidentes do PS. Ao invés, descartou qualquer aliança com o PCF e seus aliados ultramarinos, que faria todo o sentido. Ora, com 2,5% dos sufrágios, a lista comunista não passou a cláusula-barreira. No fundo, uma oportunidade perdida para um melhor resultado!

O único país onde, de alguma forma, se pode cantar vitória é a Bélgica, com o PTB-PVDA a obter um representante, através do colégio francófono, como previam todas as sondagens. A indicação do sindicalista Nico Cué como um dos candidatos do grupo a presidente da Comissão poderá ter ajudado, embora não pareça ter sido um fator decisivo para o bom resultado do partido, já que o seu crescimento tem sido visível nos últimos anos.

Por sua vez, manteve a sua representação na Grécia, onde o SYRIZA voltou a eleger seis MEP, tal como há cinco anos. Contudo, três deles haviam abandonado a formação, após a capitulação de Tsipras face às exigências da UE, embora mantendo-se no GUE/NGL. Assim, um deles tornou-se independente e outros dois aderiram a novas formações dissidentes à sua esquerda: a LAE e a MeRA 25, de Yanis Varoufakis. Esta última não passou a cláusula-barreira “por um cabelo”: 2,99% (!...), quando aquela é de 3%. Agora, o primeiro-ministro grego, que, tendo ficado atrás dos conservadores da ND, marcou eleições antecipadas para julho, viu a posição do seu partido reforçada no seio do grupo, o que não é, necessariamente, uma boa notícia para este.

Manteve, igualmente, a sua representação em Portugal e na Irlanda (com 4 MEP em ambos os países), embora a relação de forças no seio das delegações seja diferente. No caso português, o BE conquistou um lugar, passando de 1 para 2 eurodeputados, enquanto a CDU viu a sua presença reduzir-se, baixando de 3 para 2, o segundo conseguido a muito custo. No caso irlandês, o SF sofreu uma quebra acentuada, passando de 3 para 1 lugar, mas esta foi compensada pela reeleição do independente Luke “Ming” Flanagan e pelos dois eleitos dos Independents for Change (I4C), que reforçam, assim, o grupo da esquerda europeia no PE.

Por fim, manteve a sua representação inalterada em Chipre (2), Dinamarca, Suécia, Finlândia e Reino Unido (1 em cada um desses países). Neste último, temos a representante do SF na Irlanda do Norte, a mais votada nas primeiras preferências.

Dos Estados onde não obteve representação, referência para a desilusão na Eslovénia, onde se esperava que a Levica, que tinha sondagens favoráveis e cuja cabeça de lista, Violeta Tomić, era uma das candidatas da esquerda à presidência da Comissão, fosse eleita. Porém, tal acabou por não suceder.

A representação do GUE/NGL será muito pouco afetada pelo Brexit, pois o grupo apenas dispõe, como referimos, de um dos lugares atribuídos ao Reino Unido. Porém, pouco ganha com ele, pois, por capricho das urnas, não terá direito a qualquer membro adicional. Logo, verá a sua bancada reduzir-se de 41 para 40 MEP, mas o seu peso percentual no PE subirá de 5,5% para 5,7%. Ou seja, qualquer que seja a perspetiva, “poucochinho”!...

A participação eleitoral

Ao contrário do que vinha sucedendo em todas as eleições europeias desde que o Parlamento Europeu passou a ser eleito por voto direto, universal e secreto, em 1979, a participação eleitoral subiu e de forma significativa no conjunto da UE, tendo passado dos 42,6% em 2014 para cerca de 51,0% agora. Nada de extraordinário, é certo, mas inverteu o plano inclinado em que a afluência às urnas nas europeias se encontrava.

Para esse fenómeno, muito terá contribuído o medo de que a extrema-direita e as direitas populistas e reacionárias ocupassem uma percentagem muito significativa de lugares no PE, o que terá contribuído para uma mobilização de eleitores de várias tendências políticas, preocupados com a ascensão daquelas.

Também a centralidade das questões climáticas, colocadas na primeira linha da agenda política pelos Verdes e outras forças políticas (como o BE, em Portugal) levaram às urnas alguns eleitores jovens, que, habitualmente, pouco votam.

Por outro lado, a crise que assola a UE, de que o Brexit é, atualmente, a face mais visível, terá, paradoxalmente, feito perceber a algum eleitorado a importância que as decisões tomadas no seio daquela têm, para o bem e para o mal, nas nossas vidas.

A Bélgica e o Luxemburgo foram os dois países onde a percentagem de afluência às urnas foi maior, com 88,5% na primeira e 84,1% no segundo, o que não surpreende dado o voto ser aí obrigatório. Em todo o caso, foi, em ambos, ligeiramente menor que em 2014 (89,6 e 85,6%, respetivamente).

Seguiu-se Malta, onde há, igualmente, obrigatoriedade de votar, com 72,7%, uma pequena descida face a 2014, quando atingiu os 74,8%.

Depois, vem a Dinamarca, com 66,0% (56,3%), algo a que não será estranho o facto de estarem marcadas legislativas para a semana seguinte, embora, apesar do tradicional euroceticismo do país, a participação nas europeias seja sempre superior à média da UE.

Realce para o aumento da participação em Espanha, que se cifrou em 64,3%, contra os 43,8% de há cinco anos, algo que se deve ao facto de ter havido eleições municipais e na maioria das comunidades autónomas no mesmo dia das europeias.

Seguiram-se a Alemanha, com 61,4% (48,1% em 2014) e a ÁustriRescaldo das Europeias (1)a, com 59,8% (45,4%), a Grécia, onde, apesar de o voto ser obrigatório, se ficou pelos 58,8% (60,0% há cinco anos) e a Suécia, com 55,3% (51,1%)

Ainda com uma afluência acima da média, vêm a Itália, apesar da descida, com 54,5% (57,2%), a Lituânia, onde foram às urnas 53,5% dos eleitores (47,4% em 2014) e a Roménia, onde, com 51,1%, registou uma forte subida, face aos 32,4% do último ato eleitoral.

Em França, votaram, desta vez, mais de metade dos inscritos, com 50,1% a ir às urnas, contra 42,4% em 2014, mas a participação ficou ligeiramente abaixo da média da UE. Por sua vez, na Irlanda foi um pouco menor, com a percentagem a quedar-se pelos 49,7%, quando, em 2014, em plena crise, tinha atingido 52,4%.

Entretanto, na Polónia e a Hungria, os 45,7% de ambas refletem um grande aumento, num contexto de autoritarismo crescente. Na primeira, a afluência quase duplicou, face aos 23,8% de há cinco anos, algo que se pode explicar pela grande bipolarização que marcou estas eleições. Já na segunda, a subida foi um pouco menor, pois nas últimas europeias cifrara-se em 29,0%.

No Chipre, apesar de o voto ser obrigatório, quedou-se pelos 45,0% (44,0%), o que se deve ao facto de as multas não serem aplicadas, o que torna a lei em “letra morta”.

Por seu turno, a Holanda confirmou a sua tradicional “alergia” às eleições europeias, ficando a participação pelos 41,9%, apesar da subida registada face aos 37,3% de 2014. Seguiram-se a Finlândia, onde se ficou pelos 40,7% (39,1%) e a Estónia, com 37,6% (36,5%), dois países onde tinha havido, recentemente, legislativas.

Como é habitual, a afluência foi baixa no Reino Unido, com 36,9%, mesmo assim melhor que os 35,6% de há cinco anos. Resta saber quem se mobilizou mais: se os “brexiters”, se os “remainers” …

Vêm depois a Letónia, com 33,5% (30,2%) e a Bulgária, onde os 32,6% significam um recuo face às últimas europeias, quando foi de 35,8%.

Depois, vem Portugal, onde se quedou por uns modestíssimos 30,7%, contra os 33,7% de há cinco anos, embora tal se explique pelo recenseamento automático dos emigrantes registados nas nossas representações diplomáticas e consulares, como explicamos aqui.

Apesar de tudo, só em quatro países da Europa de Leste se registaram taxas de participação piores que a nossa, abaixo de 30%.

Assim, na Croácia foi de 29,9% (25,2% em 2014), na Eslovénia de 28,9% (24,6%), na República Checa de 28,7% (18,2%) e na Eslováquia, que manteve a “lanterna vermelha”, apenas de 22,7%, apesar de tudo um pouco melhor que os 13,0% (!...) de há cinco anos.

Artigo de Jorge Martins, para esquerda.net

No próximo texto, iniciaremos a análise dos resultados eleitorais e da composição do novo Parlamento Europeu por regiões geopolíticas da UE, começando pela Europa Mediterrânica.Rescaldo das Europeias (1)

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