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Grécia: direita pró-austeridade venceu as eleições mas solução de governo ainda é incerta

O Nova Democracia foi o mais votado nas eleições legislativas gregas deste domingo, com 29,7% dos votos, contra os 26,9% do Syriza (Coligação de Esquerda Radical) e os 12,3% do socialista PASOK. Vitória foi por pequena margem, e não é clara ainda a composição do governo presidido pelos conservadores. Syriza garante “uma forte oposição contra um governo fraco”. Os resultados do Syriza “quebram o dogma de que não existe alternativa”, disse a eurodeputada do Bloco de Esquerda Marisa Matias.
O líder do Nova Democracia, Antonio Samaras. Foto Alexandros Vlachos/EPA/LUSA

Segundo dados oficiais do Ministério do Interior grego, estando contados 99.9% dos votos na Grécia, a Nova Democracia ganhou as eleições com 29,7% dos votos, seguida da Syriza com 26,9%, do PASOK com 12,3%, dos Gregos Independentes com 7,5%, da Aurora Dourada (neonazis) com 6,9%, da Esquerda Democrática com 6,2% e do Partido Comunista (KKE) com 4,5%.

Em assentos parlamentares, estes resultados traduzem-se em 129 deputados para o Nova Democracia (contando já com o bónus de 50 para o vencedor), 71 ao Syriza e 33 ao PASOK.

Alexis Tsipras já reconheceu a derrota. No seu Facebook, a Syriza publicou uma curta declaração: “Centenas de milhares de pessoas hoje quebraram o medo. A Syriza enviou ao mundo uma forte mensagem contra a política do memorando. A Syriza garante uma forte oposição contra um governo fraco. Não trairemos a confiança do povo grego.” (tradução aproximada).

Tsipras insistiu que a única maneira de sair da crise é reverter as medidas de austeridade. E garantiu que a Syriza se oporá a uma aliança dos poderes do passado, dentro e fora do país. “Começámos a luta para acabar com o plano de resgate. Abrimos o caminho da esperança”, disse.

“Estaremos presentes na oposição, representaremos aqueles que estão contra o memorando” e as políticas de austeridade da União Europeia e do FMI, prometeu Tsipras aquando das suas declarações após saber-se o resultado das eleições.

Já o líder do partido pró-troika Nova Democracia, Antonis Samaras, no seu discurso de vitória, assegurou que “os gregos votaram hoje para continuar na via europeia e na zona euro. Não vai haver mais aventuras, o lugar da Grécia na Europa não será posto em causa”. “Estou aliviado pela Grécia e pela Europa e vamos formar governo logo que possível”, disse. Samaras anunciará em breve uma “base de programa de Governo para manter o país no Euro e renegociar alguns pontos do memorando” com a troika.

Solução de Governo é incerta

De modo diferente do das eleições inconclusivas de 6 de Maio, e apesar do desfecho que decorre destes resultados ser é incerto, há uma solução fraca que se impõe com muito probabilidade: uma coligação do Nova Democracia com o PASOK daria aos dois partidos 162 deputados – pouco mais do que os 151 necessários para uma maioria, mas suficientes para formar governo. O Pasok, porém, já veio dizer que só aceita ir para o governo se a Syriza também for, o que já foi descartado por esta última.

O líder do Nova Democracia, Samaras, apelou à formação de um governo de “unidade nacional”. Assim, logo ao início da noite chegaram ao quartel-general do PASOK notícias das intenções do partido de incluir no Governo o Syriza e ainda a direita populista dos Gregos Independentes, que emerge como quarta força política no novo Parlamento, tendo eleito 20 deputados. "Nenhuma decisão pode ser tomada sem esta unidade nacional”, disse o líder socialista Evangelos Venizelos.

Mas também os Gregos Independentes, direita anti-troika, descartaram totalmente participar num governo que cumpra o memorando.

Todos os partidos perderam deputados, com a exceção do Nova Democracia e do Syriza

Mantêm-se no Parlamento os mesmos sete partidos que conseguiram assentos nas eleições de 6 de Maio, embora todos tenham reduzido o número de eleitos, com a exceção do Nova Democracia e do Syriza.

O quinto lugar foi ocupado pelos neonazis do Aurora Dourada que elegeram 18 deputados. Em sexto lugar ficou o Esquerda Democrática (Dimar), que conseguiu 17 deputados, seguido do Partido Comunista que conquistou apenas 12 assentos parlamentares.

Os resultados do Syriza “quebram o dogma de que não existe alternativa”, disse a eurodeputada do Bloco de Esquerda Marisa Matias

Na noite de domingo, ainda falando sobre resultados preliminares, Marisa Matias classificou como "grande vitória da esquerda" o resultado que a Coligação da Esquerda Radical - Syriza obteve nas eleições na Grécia.

"É quebrar o dogma de que não existe alternativa. De facto existe uma alternativa à esquerda e é um resultado extraordinário", declarou Marisa Matias contactada telefonicamente pela Lusa, na sede da Syriza, em Atenas.

Esta manhã, em declarações à TSF, Marisa Matias disse que os resultados demonstram "um voto de resistência contra a austeridade".

Reações internacionais reforçam pressão para cumprimento do memorando

Os ministros das Finanças da zona euro (Eurogrupo) afirmaram este domingo que esperam um rápido processo na formação de um Governo na Grécia, para assumir a responsabilidade pelo programa de ajustamento em curso no país.

A chanceler alemã, Angela Merkel, felicitou o vencedor das eleições legislativas na Grécia, o conservador Antonis Samaras, de quem espera continuidade nas reformas e o cumprimento dos compromissos assumidos perante os parceiros da União Europeia. Ainda no domingo, em comunicado, o ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schäuble, sublinhou que, a confirmar-se a tendência dos resultados preliminares, os eleitores gregos optaram por “prosseguir com reformas económicas e fiscais profundas no país”.

Por seu lado, o ministro das Finanças francês, Pierre Moscovici, apelou aos europeus para que apoiem os gregos “na direção do crescimento”, reafirmando a necessidade de Atenas cumprir com os compromissos internacionais assumidos. “É preciso disciplina, mas também esperança”, declarou, realçando que os Estados-membros da União Europeia “estão atentos à situação social e económica particular da Grécia”.

Os Estados Unidos também já felicitaram os gregos pela votação. “É do nosso interesse, e de todos, que a Grécia permaneça na zona euro, respeitando os compromissos para com as reformas”, declarou o porta-voz da Casa Branca, Jay Carney.

 

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