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Governo poupa administradores da RTP aos cortes salariais

O regime de exceção para o presidente e um administrador da televisão pública vai permitir-lhes manter a média do salário anterior à entrada na RTP. A mesma administração cortou o subsídio de férias, Natal e 10% da remuneração aos trabalhadores, que não vêem aumentos há dez anos. Os sindicatos da RTP pedem a demissão de Guilherme Costa e o Bloco de Esquerda quer que Miguel Relvas apareça para explicar esta discriminação.
Trabalhadores pagam a crise, administração mantém salário milionário. Foto Paulete Matos

A decisão teve o parecer favorável do Secretário de Estado da Administração Pública, pode ler-se no despacho publicado esta terça-feira no Diário da República. Guilherme Costa, presidente da RTP, poderá assim manter os 14 mil euros de salário mensal e um dos vogais do Conselho de Administração, José de Araújo e Silva, ficará igualmente com um salário acima do do primeiro-ministro, que recebe 6850 euros por mês.

Um comunicado conjunto dos sindicatos que representam trabalhadores da RTP (SMAV, SINTTAV, STT, FE, SITIC) não poupa críticas ao sucedido e considera mesmo que "a RTP não tem uma administração, tem uma comissão liquidatária" e pede a demissão de Gilherme Costa porque "um presidente sem vergonha e sem moral não pode ter o respeito de quem trabalha!". Os sindicatos dizem que "esta decisão é indecorosa, principalmente porque tem como origem os próprios contemplados, e ocorre numa empresa onde a totalidade dos trabalhadores assistiu ao corte inconstitucional dos seus subsídios de natal e férias, à redução do seus salários em 10%, ao congelamento das suas progressões profissionais e à paralisação salarial de quase 10 anos".

Por seu lado, a deputada Catarina Martins já pediu explicações ao ministro da tutela, Miguel Relvas, e também a Vítor Gaspar, que autorizou a exceção que garante que o salário milionário dos administradores permaneça intocável. "O Grupo Parlamentar do Bloco de Esquerda sempre defendeu tetos para os salários dos gestores públicos e opõe-se a todas as exeções. Não podemos ainda deixar de estranhar esta opção discriminatória de todos os trabalhadores da RTP que ficam assim injustamente prejudicados", declara a deputada bloquista, acrescentando que "ninguém pode compreender que o mesmo governo que promove um discurso para denegrir a RTP como um serviço público demasiado caro, manipulando até a realidade a verdade dos números oficiais e omitindo a comparação europeia, crie logo a seguir exceções milionárias sem qualquer justificação".

Este regime de exceção tinha sido criticado em abril pela Comissão de Trabalhadores (CT) da RTP, que o considerou "uma vergonha" para o Governo, sobretudo após o discurso de Vítor Gaspar em Washington, onde defendeu uma "justa repartição dos sacrifícios". Afinal de contas, esta administração é a mesma que em janeiro comunicou aos trabalhadores o corte de 10% nos salários e a retirada dos subsídios de natal e férias. A CT insurgiu-se ainda contra os salários milionários pagos a várias celebridades na estação pública de televisão.  «Como trabalhadores, cidadãos e contribuintes, não podemos continuar a aceitar em silêncio os relatos que nos chegam da atribuição de salários por negociação directa à porta fechada entre contratadores da empresa e contratandos, que nada têm que ver com a realidade custo/benefício do trabalho prestado», afirmou a CT em comunicado no início de março.

Com esta decisão, o Governo equiparou os administradores da RTP aos da TAP, por se tratar de «uma empresa em concorrência e que está em fase de privatização». Mas ao contrário do que fez na transportadora aérea, esqueceu-se de alargar esse critério a quem trabalha na RTP, mantendo os cortes salariais na tv pública e abrindo exceções para os seus administradores.

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