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Governo “negou proteção temporária” aos mais desprotegidos

Paulo Pedroso lembra que o executivo não quis estender a proteção social a quem vive em situação de maior precariedade, tendo sido o Bloco a levar ao Parlamento a criação do subsídio extraordinário de desemprego. A medida foi aprovada a 9 de junho, apesar dos votos contra do PS e da Iniciativa Liberal.
Foto de Paulete Matos.

Num artigo de opinião de 27 de junho, publicado no jornal Público, o antigo ministro do Trabalho e da Segurança Social escreve que o perigo da covid-19 “chegou-nos da mobilidade internacional dos nossos grupos sociais mais cosmopolitas”, sendo que “os primeiros casos conhecidos foram trazidos por quem viajou, em particular por motivos de lazer”.

“Depois, como sabemos, criou-se a ilusão de que o vírus era socialmente cego e interclassista”, avança Paulo Pedroso, sublinhando que rapidamente nos apercebemos que “a propagação seguia a desigualdade socioeconómica no país”.

Citando o estudo sobre as desigualdades da Escola Nacional de Saúde Pública, o sociólogo sinaliza que não compreende “porque nos mostramos surpreendidos quando o ressurgimento da covid-19 acontece nas periferias residenciais pobres da Área Metropolitana de Lisboa”: “Se a estratégia do confinamento estava certa, o vírus transmitir-se-ia mais lentamente, mas as cadeias de transmissão afetariam mais os que não puderam ficar confinados. E assim foi”, frisa.

Paulo Pedroso lembra aqueles de quem “o nosso bem-estar dependia”, que tiveram de “continuar a sair de casa todos os dias, apanhar transportes coletivos, ser transportados nos veículos das suas empresas e alguns, muitos mais do que a sua invisibilidade mediática sugere, que o fazer em bairros onde a ausência de contacto é impossível, em habitações onde as condições são precárias”.

“Muitos desses, se não forem trabalhar esta semana, não têm dinheiro para viver na próxima”, aponta, lamentando que que o Governo não tenha “ajudado alguns deles, cujo trabalho não fosse mesmo necessário e vivem em situações precárias, estendendo-lhes a proteção social”.

“Mas negámos-lhes até agora a proteção temporária, com algo como o subsídio de desemprego universal temporário que propus no início de abril, o Governo não achou necessário e em versão mais completa e aperfeiçoada o Bloco de Esquerda levou à Assembleia da República”, recorda. O projeto bloquista para a criação de um subsídio extraordinário de desemprego acabou por ser aprovada a 9 de junho, apesar dos votos contra do PS e da Iniciativa Liberal.

“Os mais pobres estão mais expostos ao vírus pelas suas condições de existência mas também porque a nossa estratégia de combate ao vírus os manteve mais expostos”, continua o antigo ministro do Trabalho e da Segurança Social, assinalando que “não fiscalizámos os locais de trabalho, não monitorizámos os transportes dos trabalhadores e não reforçámos devidamente os transportes públicos nas horas a que essas pessoas os usam e tudo isso foi notícia”.

Paulo Pedroso repudia o discurso de culpabilização dos pobres, referindo que “as freguesias da terceira velocidade de desconfinamento são também as da terceira classe do barco em que viajamos”.

“São em concelhos diferentes mas são todas contíguas. São a mancha periférica pobre e precária, de trabalhadores, imigrantes e bairros sociais. E não me surpreenderia se aparecessem a seguir as suas irmãs gémeas da Margem Sul do Tejo”, adverte.

O sociólogo defende que “mudar agora as condições estruturais de vida dos precários e pobres dá mais trabalho mas é mais eficaz e mais justo do que voltar a expandir a ideia das classes perigosas e descontroladas ou de que os pobres adoecem porque fazem muitas festas”.

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