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Governo francês avança para dissolução da Geração Identitária

Este movimento de extrema-direita de origem francesa, mas que tem elementos em Portugal, dedica-se a perseguir imigrantes nas fronteiras e a promover a islamofobia.
Geração Identitária em manifestação. Foto de Pulek1/wikimedia commons.
Geração Identitária em manifestação. Foto de Pulek1/wikimedia commons.

Esta sexta-feira, ao final da tarde, os dirigentes da Geração Identitária foram notificados oficialmente da dissolução do seu grupo. Têm agora dez dias para contestar a medida apresentando elementos novos e, se tal não suceder, a organização poderá ser extinta 15 dias depois.

Gérald Darmanin, ministro do Interior francês, justifica a ação devido às várias operações anti-imigração realizadas pelo movimento nas fronteiras do país. A última, nos Pirenéus no final de janeiro, foi a gota de água que fez derramar o copo. Antes dela tinham acontecido ações semelhantes no Mediterrâneo em 2017, atacando barcos e equipas de salvamento de migrantes, e nos Alpes em 2018, onde chegaram a utilizar um helicóptero e um avião. Sob o pretexto de ajudar os guardas fronteiriços, invocando uma “invasão” e o suposto “risco terrorista” da imigração, os apoiantes da Geração Identitária “patrulhavam” as fronteiras perseguindo quem pudesse atravessá-las.

A última operação envolveu poucas pessoas. Aliás, estas estavam pensadas sobretudo para ter mais impacto mediático do que efeitos reais, ainda assim Darmanin considera-as um “trabalho de sapa” contra a República. E reagiu a vários apelos à ilegalização do movimento surgidos por ocasião da expedição de janeiro.

Este grupo foi fundado em 2012 através de um vídeo intitulado “declaração de guerra”. Mas tem raízes em vários grupúsculos anteriores que depois se juntaram nas Juventudes Identitárias em 2002 como sendo parte do movimento “identitário”, uma das correntes da nova extrema-direita europeia. Atualmente, é considerado mais próximo da União Nacional de Marine Le Pen do que do partido “Os Identitários” de que começou por ser a ala juvenil.

A Geração Identitária pretendia mobilizar jovens para as causas tradicionais do radicalismo de direita e procurava mostrar-se através da provocação. Por exemplo fazendo manifestações islamofóbicas e marcando presença numa das manifestações contra a violência policial afixando uma faixa num prédio em que se exigia “justiça para as vítimas do racismo anti-branco”.

Foi assim que conseguiu exportar a sua “marca” para vários países, incluindo Portugal onde os seus símbolos e apoiantes já se mostraram.

Logo no seu início, em outubro de 2012, quando entrou no perímetro da Mesquita de Poitiers com mensagens anti-Islão e anti-imigração, o governo da altura equacionou a dissolução. Devido à ação, cinco dos seus membros foram condenados por “provocação à discriminação racial ou religiosa” e degradação de bens alheios” a um ano de pena suspense e a multas, para além da organização ter sido condenada a de mil euros de multa e ao pagamento de 24.465 euros devido aos estragos causados.

As ações ilegais continuaram. No ano seguinte, durante uma manifestação contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo, vinte dos seus militantes invadiram uma sede do Partido Socialista, tendo sido presos. Em 2016, barraram o acampamento de migrantes de Calais. Em 2017, em frente ao Bataclan realizaram uma manifestação “contra os islamitas” que tinha sido proibida pela polícia. Em 2018, invadiram sedes da SOS Mediterrâneo, passando a haver um processo contra 22 dos seus membros por violência, sequestro, gravação de difusão de imagens de violência.

A ação de 2018 nos Alpes gera penas de prisão de seis meses, multa de dois mil euros e privação de direito por cinco anos a três pessoas e multa de 75.000 euros para o grupo. Serão ilibados num recurso por se considerar que era uma ação “puramente de propaganda política”.

Em 2019, invadem a Caisse d'Allocations Familiales de Bobigny. As CAF são instituições regionais cujo papel é distribuir as prestações sociais do Estado e outros apoios. A extrema-direita foi levar a mensagem de que queria “dinheiro para os franceses, não para os estrangeiros” e foi necessária a intervenção da polícia para os fazer sair. Um deles foi condenado a 90 dias de multa, 18 a penas suspensas entre um a três meses. A questão da dissolução do grupo voltou a ser levantada então.

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