Governo de esquerda na Irlanda: matematicamente possível, politicamente difícil

11 de fevereiro 2020 - 21:40

Junto com as outras forças de esquerda e com independentes, o Sinn Féin teria deputados suficientes para formar governo. Mas a tarefa de fazer um governo de esquerda é muito complicada dadas as posições de vários deles. Já a aliança com algum dos dois partidos tradicionais do sistema político irlandês traria outros custos.

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Uma das sedes do Sinn Féin.
Uma das sedes do Sinn Féin. Foto de Sean MacEntee/Flickr.

O Sinn Féin venceu as eleições do fim de semana passado com 24,5%, apesar de não ser o partido que mais deputados elegeu por não apresentado candidatos suficientes. Obteve apenas 37 lugares.

O partido do governo, o Fine Gael, ficou em terceiro lugar com 20,9%, e o outro partido tradicional da direita irlandesa, o Fianna Fáil, obteve 22,2% dos votos mas elegeu mais um deputado do que o maior partido da esquerda irlandesa.

Desta forma, a matemática para a formação de um governo complica-se. Os dois inimigos figadais do tempo da guerra civil não se querem entender, qualquer aliança entre um deles e o Sinn Féin seria politicamente esquisita e um governo só da esquerda parece ser uma possibilidade distante.

Ainda assim, Mary Lou McDonald, a dirigente do SF, assumiu a tarefa de procurar fazer um governo sem o Fine Gael e o Fianna Fáil, colocando a tarefa nas mãos de Pearse Doherty, o porta-voz para as finanças do seu partido. Estes aceitaram dar-lhe tempo suficiente para tentar construir um executivo viável.

Os principais aliados poderiam ser os Verdes com 12 eleitos, os Trabalhistas com seis e os Sociais-Democratas igualmente com seis. Mas ainda assim ficariam longe dos 80 lugares necessários para a obtenção de uma maioria no Dáil Éireann, o parlamento irlandês. Seriam precisos mais de metades dos 20 independentes.

O deputado Matt Carthy, do Sinn Féin, reconhece que os números são “apertados” mas considera que a vontade de mudança que foi expressa nas urnas foi clara. Por isso, a esquerda tem obrigação de procurar entender-se. Mas nem ele, nem McDonald excluem o outro cenário.

O acordo não deixará de se realizar por falta de vontade mais à esquerda do Sinn Féin. Pelo menos, do lado da coligação Solidarity – People Before Profit que elegeu cinco deputados. Mas Richard Boyd Barrett, um destes deputados reconhece: “parece que não temos bem os números”.

Já os Trabalhistas são mais difíceis de convencer, opondo-se à partida à entrada para um governo do Sinn Féin.

Nestas contas, resta ainda o Aontú, partido que tem pouco mais de um ano e que foi fundado por um ex-deputado do Sinn Féin, desavindo com o partido devido à posição deste sobre aborto. É assim um partido de valores conservadores, pró-reunificação da Irlanda mas com posições ecologistas e económicas de esquerda, reivindicando-se da tradição do Estado Social escandinavo.

“A União Europeia devia apoiar a reunificação”

A campanha passou quase ao lado do tema da reunificação. Mas o Sinn Féin garante manter o seu compromisso fundador com a unidade da Irlanda. Mary Lou McDonald declarou à BBC que a União Europeia “deve tomar uma posição como fez quando apoiou a reunificação da Alemanha e tal como tem uma posição sobre o Chipre de abordagem positiva à reunificação desse país”.

A líder do partido mais votado da República da Irlanda acrescentou que “a partição e a divisão foram um desastre e o caminho a seguir é a reunificação, a reconciliação e as boas relações com os nossos vizinhos”.

O Sinn Féin defende a existência de um processo de diálogo que culmine num referendo sobre a reunificação do país. Este referendo está previsto nos acordos de paz de 1998 mas o governo de Reino Unido nunca o concretizou.