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"Gossip Girl" e a cultura de opulência

A nova versão de Gossip Girl promete um elenco LGBT+, a participação de atores e atrizes afro-americanos, todo o espectro identitário necessário para legitimar um projeto desta magnitude. Mas até que ponto a nossa sociedade precisa de ver esta história contada? Por Andreia Galvão
Gossip Girl, foto de Gossip Girl 2007/flickr
Gossip Girl, foto de Gossip Girl 2007/flickr

Para quem passou a adolescência a acompanhar os fenómenos culturais que nos chegavam dos Estados Unidos, tem sido evidente o renascer de muitas destas narrativas, entrando na época dos reboots. Vimos o anúncio da maioria dos filmes da Disney, as versões que pretendem atualizar as narrativas dos clássicos que tanto fizeram lucrar as grandes indústrias cinematográficas. Este fenómeno não é novo, o de revisitar propriedades intelectuais anteriores, mas surge na época contemporânea com um novo objetivo: o de reabilitar a imagem de Hollywood, afastando-se mediaticamente do seu passado classista e discriminatório. 

A indústria cinematográfica tem tentado reescrever a própria história. Além disso, atualizar é menos custoso economicamente do que inovar, apostar em novas vozes e formas de perspetivar o mundo.

Quando a indústria é acusada de manter o status quo e o mesmo sistema inerentemente injusto, apesar de todas estas tentativas flácidas de mudança, Hollywood insiste na aposta segura, nos clássicos que confortaram corações de tantos espectadores, durante décadas. 

A HBO Max anunciou, em 2019, o reboot da série Gossip Girl, um programa que acompanhava a vida escandalosa das elites de Nova Iorque, contando os momentos entre os casos de corrupção que enrodilhavam a vida laboral dos pais e as grandes irresponsabilidades inconsequentes que os adolescentes cometiam, almofadados pela segurança financeira. A nova versão promete um elenco LGBT+, a participação de atores e atrizes afro-americanos, todo o espectro identitário necessário para legitimar um projecto desta magnitude. No entanto, impera a questão: até que ponto a nossa sociedade precisa de ver esta história contada?

Quando a série saiu, em 2007, o ambiente sócio-cultural era completamente diferente. Um mundo pré-recessão económica, em que a opulência, o materialismo excessivo e a superficialidade eram centrais. A época que popularizou uma figura como Paris Hilton e antecedeu a fama de Kim Kardashian, o clímax da cultura de celebridade, da fama pela fama criada pela indústria norte-americana. A cultura de ficção refletia este momento em séries como The OC (2003-2007) e 90201 (2008-2013), e foi neste panorama que Gossip Girl surgiu, quando estava em voga ser absurdamente rico e atraente.

A série também apresentava políticas muito questionáveis, convidando figuras como Ivanka Trump, representando artistas hipsters de Brooklyn como desfavorecidos e pintando Nova Iorque, uma das cidades mais diversificadas do mundo, com uma ridiculamente baixa representatividade étnica.

Eram tempos diferentes. Não deixa de ser, no entanto, interessante explorar de que modo a política da série era integral para a sua existência e, se sim, de que modo podemos não precisar de a perpetuar em 2021.

A série saiu em 2007 para milhões de espectadores entusiasmados e acompanhava o romance entre o rapaz marginalizado de Brooklyn, Dan, e a it girl nova-iorquina, Serena Van der Woodsen, no que se revelava um conflito de classes (com muitas nuances, claro, a partir do momento em que se fala de “mundos muito diferentes”). O tom de sarcasmo da narrativa rapidamente nos faz absorver o quão absurdo é o universo de extremo privilégio onde as personagens emergem.

Quando saiu a segunda temporada, verificou-se o impacto da crise económica de 2008, que afetou de forma sem precedentes muitos setores do país em questão, inclusive a vida de milhares de espectadores que constituíam a demografia do programa, deixando os criadores com a seguinte questão: ajustar aos tempos ou insistir cada vez mais na ideia de que extrema riqueza é o status quo?

Foi seguida a segunda opção, com a justificação de providenciar ao público uma escapatória do clima sócio-económico turbulento que atravessavam (a este fenómeno chamamos escapismo, o desvio mental dos aspetos desagradáveis ou enfadonhos do quotidiano, geralmente por meio de atividades que envolvem imaginação ou entretenimento). Vários autores clássicos legitimariam, provavelmente, esta escolha. Por exemplo, C.S. Lewis considerava que, usado com moderação, o escapismo poderia servir tanto para refrescar como para expandir os poderes imaginativos.

A extrema opulência tornou-se o motor da narrativa, virando, progressivamente, o público contra as personagens menos favorecidas neste sentido. Estas vão sendo progressivamente mais vilipendiadas. As personagens que anteriormente representavam o pior que esta sociedade tinha para oferecer foram humanizadas ao longo do programa, nunca justificando os abusos laborais, sexuais e de outro género tidos pelas mesmas no início do arco narrativo. A expansão do espaço de alguns destes intervenientes é crucial para a alteração do tom da série. São estas as personagens que, no final, acabam com tudo o que pretendiam, ilibadas de todos os seus erros.

A nova versão sairá, roubando da nostalgia encapsulada com a primeira versão. O ethos inicial da série (que se foi esfumando ao longo das temporadas) centrava-se na sátira da extrema riqueza, sendo esta crítica crucial para muitas obras culturais dos nossos tempos: um enquadramento com os tempos que nos circundam, a realidade, não permitindo que o escapismo se torne uma arma contra a crítica.

Artigo de Andreia Galvão, publicada no Público P3 a 23 de janeiro de 2021

Sobre o/a autor(a)

Estudante e ativista da Greve Climática Estudantil.
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