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Futebol, neoliberalismo e cultura de massas

José Luís Garcia e Rahul Kumar estarão no Fórum Socialismo 2018, a realizar-se no primeiro fim de semana de setembro na Escola Superior de Educação e Ciências Sociais de Leiria.
O Fórum Socialismo 2018 realiza-se no primeiro fim de semana de setembro na Escola Superior de Educação e Ciências Sociais de Leiria.
O Fórum Socialismo 2018 realiza-se no primeiro fim de semana de setembro na Escola Superior de Educação e Ciências Sociais de Leiria.

Há muito que o diagnóstico sobre o estado do campo desportivo em Portugal está feito: fragilidade da educação física no espaço escolar, precariedade das condições de subsistência de boa parte do movimento associativo, ausência de investimento público, tanto a nível do estado central como do poder local, para o desenvolvimento de uma prática desportiva socialmente mais alargada, escassez de resultados internacionais nas chamadas “modalidades”. A construção de uma política desportiva à esquerda tem-se orientado, atendendo a esta avaliação, para a democratização da prática, para a defesa dos pequenos clubes, âncoras na vida quotidiana de muitas comunidades, para a promoção da educação física escolar e para ampliação da rede de equipamentos desportivos públicos. Subjacente a estas propostas encontra-se a persistência de uma concepção higienista do desporto – articulando ideias como a ocupação sadia do tempo livre (enquanto parte de uma política de juventude e de combate à toxicopendência, por exemplo), ou a preservação da saúde pública (na luta contra a obesidade ou como instrumento ao serviço de políticas de envelhecimento activo).

O desporto profissional, e em particular o futebol – a modalidade que em Portugal praticamente monopoliza a cobertura dos meios de comunicação social e mobiliza um amplo conjunto de interesses económicos e políticos – não tem suscitado o mesmo tipo de reflexão. Uma longa e enraízada tradição do pensamento crítico que olha para o desporto profissional com desconfiança e para o consumo do espectáculo desportivo como uma forma de alienação cultural não será estranha a este facto; as singularidades da história portuguesa, e o lugar que o futebol tem ocupado no imaginário sobre o Estado Novo, também não. Oscilando entre a crítica moral e a denúncia das ligações promíscuas entre os clubes de futebol, as empresas de construção civil e o poder político, a esquerda tem-se mantido à margem dos debates que estruturam o campo do futebol profissional contemporâneo em Portugal.

Neste painel propomo-nos justamente a analisar as transformações recentes no campo desportivo no quadro do processo de mercadorização geral das relações sociais que se observou em Portugal a partir dos anos 1990 e, enquanto caso exemplar, mapear as principais linhas de clivagem que se formam em torno do futebol profissional. Estreitamente associada às mudanças observadas do sector da comunicação social, a mercantilização do jogo passou por três grandes eixos: a liberalização do mercado de transmissão televisiva dos jogos, a formação de um mercado livre de transferência de jogadores e a instituição das Sociedade Anónimas Desportivas (as SAD's) como modelo de governo dos clubes. É no quadro desta transformação estrutural das lógicas comerciais e políticas do futebol europeu – mais do que no fanatismo clubístico dos adeptos ou no oportunismo de determinados sectores emergentes das elites – que podemos interpretar muitos dos conflitos e lutas que atravessam o futebol português hoje.

Termos relacionados Fórum Socialismo 2018, Cultura
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