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Fundos de investimento: venda de crédito deixa famílias em situação “dramática”

Bancos têm vendido as carteiras de crédito malparado, incluindo de empréstimos à habitação. Deco denuncia que são vendidos a fundos de investimento ou a outras entidades privadas empréstimos que “entraram em incumprimento há poucos meses”.
Fundos de investimento: venda de crédito deixa famílias em situação “dramática”
Foto de Paulete Matos.

À DECO têm chegado pedidos de ajuda de consumidores que viram os seus empréstimos a mudarem de mãos, estando agora sob pressão para pagarem as dívidas para não perderem as casas. Associação faz saber que em alguns casos são empréstimos que “entraram em incumprimento há poucos meses”.

Em declarações ao jornal Público, Natália Nunes, Diretora do Gabinete de Proteção Financeira (GPF) da Deco, considera que esta “é uma situação nova e dramática para muitas famílias”, adiantando que recebe diariamente pedidos de apoio de consumidores “que são surpreendidos por contactos das novas entidades para que paguem as dívidas”.

“O problema está a ganhar dimensões preocupantes”, diz a representante da Deco ao Público. No primeiro semestre, ao GPF chegaram 17 mil pedidos de apoio devido à dificuldade em manter o pagamento de empréstimos ou por já haver incumprimento. Dos créditos apresentados pelas famílias, 64% ainda estava em situação regular e 36% em incumprimento. Entre estes últimos, 3% já eram relativos a crédito cedidos a entidades fora do sistema bancário, sendo que a grande maioria ainda pertence a instituições de crédito especializado. Segue-se 41% a bancos e, também a ganhar dimensão, 5% concedido por banca online, noticia hoje o Público.

A venda das carteiras de crédito malparado tem vindo a aumentar desde 2017, estando o crédito à habitação entre os mais vendidos. Na mesma situação estão também os empréstimos pessoais e de cartões de crédito onde ocorre uma maior desproteção dos consumidores, pois tendem a ser vendidos a pequenas empresas com métodos de cobrança agressivos.

Para “limpar” os balanços e se desfazerem dos créditos com problemas, de forma a cumprirem com as metas de solidez, os bancos recorrem aos fundos de investimento especializados em recuperar créditos problemáticos. Os fundos de investimento compram a dívida a preço baixo e tentam rentabilizá-las através de negociações agressivas com os clientes.

Segundo o noticiado pelo Público, só em 2018 os maiores bancos portugueses venderam 5,7 mil milhões de euros em créditos problemáticos. Os privados BPI e BCP deram início a esta prática ainda com a troika em Portugal. Já a CGD e o Novo Banco, bancos com as carteiras de crédito malparado mais elevadas do sistema, recorrem a esta prática desde há dois anos.

Natália Nunes defende que o regulador deve garantir que os particulares mantivessem os mesmos direitos que têm nas instituições financeiras após a venda dos seus créditos malparados – sobretudo a possibilidade de renegociarem os seus contratos, mantendo os empréstimos à habitação.

Esta possibilidade, já difícil nos bancos, torna-se ainda mais complicada quando a dívida é vendida a fundos de investimento que preferem o pagamento imediato e integral da dívida. São várias as famílias que contactam a Deco nesta situação a quem lhes é sugerido que vendam as próprias casas sob ameaça de verem as mesmas executadas (ou seja, arriscando perder a casa). Como a venda ou a execução podem não ser suficientes para pagar o valor em dívida, ainda há quem tente penhoras outros bem e rendimentos, como salários ou reformas.

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