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Fundos abutre aumentam compra de crédito malparado português

Durante 2020 e 2021, devido à pandemia, a compra de carteiras de crédito malparado desacelerou face aos anos anteriores. Mas a tendência de crescimento que se verificava até 2019 está de volta.
Foto woodleywonderworks/Flickr

Segundo o estudo “Keep an Eye on the NPL&REO Markets” da consultora Prime Yield, o volume de negócios deste tipo de carteiras em Portugal mostra esse aumento: em 2020 ascendiam a mil milhões de euros, em 2021 estavam entre 3000 a 3500 milhões de euros, mas só nos primeiros três meses de 2022 já contabilizaram mil milhões de euros. 

Em 2016 Portugal atingiu o pico do rácio NPL (non performing loans), isto é, os créditos que se assumem enquanto perdidos face ao total do crédito. Este assumia um valor em torno dos 18%, o que equivalia a um stock de 50.459 milhões de euros, ou seja, 27% do PIB português. Passou a haver uma pressão por parte do regulador europeu para uma redução acentuada do malparado com a ideia de limpar e fortalecer os balanços dos bancos.

Parte desse plano passou pela venda de carteiras de crédito malparado para fundos de investimento. Para que se tenha uma noção de escala deste tipo de negócio, em 2018 o volume ascendeu a mais de 8 mil milhões de euros e em 2019 cerca de 5 mil milhões. Os bancos ganhavam por recuperar parte do que já assumiam enquanto perda e por se libertarem de uma responsabilidade contabilística. Os fundos abutres, que por sua vez contratavam empresas especializadas na cobrança de dívida, ganhavam por conseguir comprar essas carteiras com taxas de desconto avultadas, muitas vezes na ordem dos 40%, e recuperar quase na totalidade o crédito.

Métodos agressivos e assédio para despejar famílias

Antes da pandemia, o mercado em torno do crédito malparado mostrava ser um fator de destabilização para as famílias. Uma parte relevante do total dos créditos vendidos correspondia a crédito a habitação e com a pressão de limpeza dos balanços, passaram a vender créditos com pouco tempo de incumprimento. O Público citava em 2019 Natália Nunes, directora do Gabinete de Protecção Financeira (GPF) da Deco que explicava: É uma situação nova e dramática para muitas famílias” (...) “todos os dias lhe chegam pedidos de ajuda de consumidores que são surpreendidos por contactos das novas entidades para que paguem as dívidas”.

Em situações ditas normais, os bancos oferecem várias opções para que os clientes não entrem em incumprimento, como seja, reestruturação do crédito, alargamento do prazo, etc. Já fundos de investimento, interessados na coleta imediata, oferecem menos opções, podendo recorrer a métodos mais agressivos. A Deco recolheu vários testemunhos de assédio nestas situações.  

Tudo indica que a mesma estratégia de consolidação do balanço dos bancos se irá manter. Francisco Virgolino, dirigente da Prime Yield, explica: “Apesar do malparado entre a Banca ter continuado a diminuir, a estratégia da maioria dos bancos portugueses continua a ser de redução do stock de crédito em incumprimento, havendo atualmente vários processos de venda em curso ou já anunciados, incluindo de instituições como o Bankinter, Santander, EuroBic ou o Millennium bcp. Além disso, é expetável o lançamento de novos processos de venda nos próximos meses por parte da CGD e do Montepio Geral”.

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