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Fumo dos incêndios da Amazónia já cobre sul do continente

Incêndios na região só podem ter mão humana, garantem técnicos. Bolsonaro diz que culpa dos fogos é das ONGs, sem dar provas da afirmação nem citar qualquer nome. Por Luis Leiria.
São Paulo, três horas da tarde: a noite chegou
São Paulo, três horas da tarde: a noite chegou

Cidade de São Paulo, segunda-feira dia 19 de agosto, 15 horas da tarde: de repente fez-se noite. A iluminação pública foi acionada, os carros acenderam os faróis. O céu coberto de nuvens enegrecidas e densas não deixava passar a luz do sol. A temperatura caiu 13 graus em relação ao dia anterior. Muitos paulistanos sentiram medo. Se eu estivesse lá também teria ficado apreensivo.

Lembro-me até hoje quando, pela primeira vez, vi ocorrer um fenómeno parecido na mesma cidade. Foi em 1981, próximo do Verão. No início da tarde, as nuvens carregadas escureceram o dia, a iluminação pública acendeu-se e eu sem saber o que estava a acontecer. Notei que ninguém ligava nenhuma e acalmei-me. Depois, aconteceu o que viria a presenciar muitas vezes: caiu um dilúvio de chuva durante uns dez minutos. Meia hora depois, as nuvens já tinham descarregado toda a água, dispersaram-se e o sol voltou a brilhar.

O que aconteceu em São Paulo na última segunda-feira, porém, foi diferente. Não se tratou de uma tempestade de Verão. Até choveu, mas apenas uma morrinha, que lá se chama garoa. O fenómeno persistiu até à noite propriamente dita. Na prática, a noite paulistana começou às 15 horas. O que aconteceu?

O ClimaTempo, site de meteorologia, baseado num relatório do Instituto Nacional de Meteorologia, esclarece: combinou-se a chegada de uma frente fria que “promoveu a incursão de ar frio húmido marítimo em baixos níveis”, deixando o dia encoberto e com chuva fina (garoa), com a passagem “de uma perturbação dos ventos em níveis médios e altos da atmosfera”; e a estes fenómenos veio juntar-se uma névoa seca composta de “material particulado em suspensão” (fumo).

Esta névoa vem dos incêndios da Amazónia, uma parte, e outra de queimadas de grandes proporções “originadas perto da tríplice fronteira da Bolívia, Paraguai e Brasil, próximo da região de Corumbá, no Pantanal Sul-Matogrossense”. Ou seja: uma combinação particular de nuvens, vento e fumo de incêndios que ocorrem a milhares de quilómetros de distância.

O Brasil a arder

O súbito anoitecer da capital paulista ajudou a chamar a atenção para a situação catastrófica dos incêndios que devastam o Brasil e particularmente a região amazónica.

De janeiro até à última segunda-feira, o número de focos de queimadas em todo o Brasil chegou a 72.843, o que significa 83% a mais do que no ano passado. Há várias razões para estes incêndios – combustão espontânea nas regiões atingidas por seca, queima de restos de cultura pelos pequenos produtores e fogo criminoso, ligado à desflorestação, feita pelos grandes fazendeiros.

O “dia do fogo”

Um exemplo deste fogo criminoso chega do sudoeste do Pará, onde os fazendeiros anunciaram um “dia do fogo” para o último dia 10. Segundo o jornal Folha do Progresso, da cidade de Novo Progresso, os fazendeiros sentiram-se “amparados pelas palavras do presidente” Jair Bolsonaro e coordenaram na mesma data a queima de pasto e áreas em processo de desflorestação. O objetivo, segundo um dos líderes ouvidos sob anonimato, seria mostrar ao presidente “que querem trabalhar”.

 Os fazendeiros sentiram-se “amparados pelas palavras do presidente”  Bolsonaro e coordenaram na mesma data a queima de pasto e áreas em processo de desflorestação.

A partir desse dia, o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) registou uma explosão de focos de incêndio na região. O estado do Pará integra, junto com outros oito, a Amazónia Legal do Brasil, com uma superfície de 5.217.423 quilómetros quadrados, correspondente a 61% do território brasileiro.

Amazónia, a mais afetada

Segundo o Inpe, a Amazónia é o ecossistema mais afetado pelas queimadas, com 51,9% dos casos.

Ricardo Mello, gerente do Programa Amazónia do WWF Brasil, ouvido pelo UOL Notícias, diz que não há um processo natural que provoque as queimadas, como o calor que atinge outras regiões, como o cerrado. Na região amazónica, o aumento dos incêndios só pode ser causado pela ação do homem, esclarece. “Depois de desflorestar, coloca-se fogo na área. Boa parte da desflorestação que cresceu e vem sendo notícia está a reverter-se agora nessas queimadas”, diz.

Ane Alencar, do Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazónia) confirma: o aumento de queimadas só pode ser explicado pela alta da desflorestação, já que não houve qualquer evento climático extremo que justifique essa situação.

Mas para quê queimar o terreno desflorestado? Para limpá-lo e usá-lo na agricultura e, sobretudo, para aumentar as áreas de pastagem de gado.

No começo do mês, o governo do estado do Amazonas decretou situação de emergência devido aos incêndios. O governo do Acre decretou o alerta ambiental no estado. Em Rondônia, estado que já perdeu 50% da sua mata original, os incêndios mergulharam a capital, Porto Velho, numa nuvem de fumo que persiste há dias. O município de Porto Velho tem nada menos que 509 focos de incêndio. “No hospital público Cosme e Damião o número de atendimentos decorrentes de problemas respiratórios aumentou em torno de 20%”, relata o Diário da Amazónia.

Governo Bolsonaro: a culpa é das ONGs

Jair Bolsonaro acusa ONGs sem apresentar qualquer prova. Foto de Valter Campanato/Agência Brasil
Jair Bolsonaro acusa ONGs sem apresentar qualquer prova. Foto de Valter Campanato/Agência Brasil

Na terça-feira, o ministro do Meio Ambiente do governo Bolsonaro, Ricardo Sales, afirmou que quem relacionava o súbito anoitecer de São Paulo do dia anterior com os incêndios da Amazónia estava a difundir fake news. Por outro lado, o ministro reconheceu a incidência de incêndios na região Norte, mas garantiu que todas as equipes de combate ao fogo na região estavam em operação, e atribuiu os incêndios ao tempo seco.

Nesta quarta-feira, foi a vez de Bolsonaro falar sobre o assunto: para o Presidente da República, a onda de incêndios é criminosa, mas quem está a pôr fogo na Amazónia não são os fazendeiros nem os criadores de gado, e sim… as ONGs que atuam na proteção ambiental. Sem dar qualquer prova nem citar o nome de nenhuma ONG, Bolsonaro disse: “Pode estar havendo, não estou afirmando, ação criminosa desses ongueiros para exatamente chamar a atenção contra a minha pessoa, contra o governo do Brasil.” E acrescentou: “Nós tiramos dinheiros de ONGs. Dos repasses de fora, 40% ia para ONGs. Não tem mais. Acabamos também com o repasse de dinheiro público, de forma que esse pessoal está sentindo a falta do dinheiro”.

Na lista dos culpados pelos incêndios, Bolsonaro também incluiu os governadores dos estados da região amazónica, acusando-os de conivência com o que está a acontecer, “para depois botar a culpa no governo federal”. Mais uma vez não citou qualquer nome.

Corredor de fumo


Imagem da NASA mostra o "corredor de fumo" da Azonia sobre a América do Sul na segunda-feira

O fumo dos incêndios da Amazónia está a ser empurrado pelos ventos para o sul do continente, formando uma espécie de “corredor de fumo” que atingiu o Centro Oeste, o Sudeste e o Sul do Brasil, e países como a Argentina, o Uruguai, o Peru e a Bolívia, mostram imagens de satélite da NASA.

A vaga de incêndios acontece justamente quando a desflorestação da Amazónia atinge níveis recorde, desmentidos pelo próprio Bolsonaro que também acusou o prestigiado Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) de divulgar dados exagerados da desflorestação e demitiu o seu presidente, Ricardo Galvão.

Noruega e Alemanha suspendem contribuições a Fundo Amazónia

Na semana passada, a Noruega anunciou o bloqueio de 30 milhões de euros destinados ao Fundo Amazónia, para o qual, desde 2008, já contribuiu com 828 milhões de euros. O governo norueguês acusou Brasília de “não querer parar a desflorestação” e de ter “rompido o acordo” com os doadores do Fundo, destinado à preservação da floresta amazónica.

Antes da Noruega, já a Alemanha anunciara a suspensão do financiamento de projetos para a proteção da floresta e da biodiversidade na Amazónia, no valor de 35 milhões de euros, pelos mesmos motivos.

Só então o ministro do Ambiente brasileiro anunciou a suspensão do Fundo, cujos financiadores principais são justamente os dois países.

Cobrindo-se de ridículo

No domingo, Bolsonaro, no twitter, postou um vídeo com cenas de uma caçada de baleias. “Veja a matança das baleias patrocinada pela Noruega”, escreveu. Acontece que a caçada exibida pelo vídeo ocorreu nas Ilhas Faroe, um território dependente da Dinamarca, não da Noruega. E o vídeo foi feito por uma… ONG.

Quanto à Alemanha, Bolsonaro dissse: “Eu queria até mandar um recado para a senhora querida Angela Merkel [...] Pegue essa grana e refloreste a Alemanha, ok? Lá está precisando muito mais do que aqui”.

A resposta não tardou: no site da embaixada da Alemanha foi publicado um vídeo que mostra parques e florestas alemãs, afirmando que a Alemanha é um dos países com área de florestas mais densa da Europa.

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Jornalista do Esquerda.net
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