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Espanha: fuga de capitais e o choque de crédito põem em xeque a economia

O que está para vir é uma recessão ainda mais profunda e uma economia que arrefece e gera mais desemprego, propagando a anemia a outros setores. Por Marco Antonio Moreno, El Blog Salmón
A Europa entrou no seu processo de aproximação à chamada espiral da morte. Foto de feteugtcomunicacion

A economia espanhola encontra-se aprisionada em duas frentes altamente nocivas que geram uma retroalimentação perigosa. Por um lado está o tema da fuga de capitais, para o qual vimos a chamar a atenção desde fevereiro. Uma fuga que se intensificou mês a mês e que chega, segundo o Banco de Espanha, aos 326 mil milhões de euros nos últimos 12 meses que vão de julho de 2011 a julho de 2012, como assinalámos aqui, e que equivalem a 30% do PIB espanhol. No relatório do FMI, apresentado esta semana, os dados só chegam ao mês de junho.

A outra frente de ataque é o choque de crédito gerado pelo massivo processo de desalavancagem financeira que assumiram a banca e o setor privado, reduzindo a liquidez do sistema apesar das fulminantes injeções de capital oferecidas pelo BCE. O FMI estima que os bancos europeus deverão cortar os balanços em 4,5 biliões de euros (o PIB conjunto de Espanha, França e Itália), o que vai contrair ainda mais o crédito, infligindo uma queda de 4 pontos percentuais na Grécia, Irlanda, Portugal, Espanha e Itália.

O processo de desalavancagem privado, unido aos planos de austeridade ditados pela troika, é o preâmbulo do que começou a viver a Europa no seu processo de aproximação à chamada espiral da morte, um termo que começámos a usar no começo do ano e que hoje ninguém discute. O que está para vir é uma recessão ainda mais profunda e uma economia que arrefece e gera mais desemprego, propagando a anemia a outros setores. E uma economia anémica que não cresce equitativamente não pode pagar a dívida. Menos ainda pode estar em condições de pagar se os juros da dívida dispararem a níveis mais insustentáveis do que já são na atualidade.

O custo da dívida não cede

O prémio de risco viveu uma forte volatilidade nas últimas semanas, mas mais próximo de afirmar a queda do custo da dívida está o perigoso ascenso que pode levá-la a superar a barreira dos 7%. O FMI, que desta vez falou duramente e sem piedade nas palavras de Olivier Blanchard e José Viñals, estima que o custo da dívida espanhola pode alcançar os 7,5% no próximo ano. Trata-se de um claro antecedente de que a crise está ainda no início e que a o pior ainda está para vir. Estamos longe de ver a luz no fim do túnel porque não houve vontade política para ver que esta crise é o resumo de muitos problemas endémicos da economia e que estão relacionados com o emprego, com os alimentos, com a energia, com o meio ambiente e com a crescente desigualdade que esta crise exacerbou.

Por isso não deve surpreender o novo rebaixamento de dois escalões da qualidade da dívida espanhola decretado ontem pela Standard & Poor's, que a deixou à beira do bónus lixo e aproximando-a dos níveis da Grécia e de Portugal. Com esse dado, o prémio de risco afasta-se dos 400 pontos para regressar ao nível dos 450 pontos. Este aumento do custo do endividamento torna ainda mais insustentável a situação financeira espanhola, o que precipita a falência e o temido resgate.

Ainda que muitos vejam o resgate como a tábua de salvação (um salva-vidas), o certo é que o resgate induzirá a aplicação de políticas de ajuste ainda mais draconianas que podem levar o desemprego às alturas dos 30%, gerando ainda mais descontentamento social. Basta ver o que houve na Grécia e em Portugal com os planos de resgate, para imaginar o futuro que espera a Espanha com a chegada dos homens de negro.

11 de outubro de 2012

Tradução de Luis Leiria para o Esquerda.net

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