Está aqui

Frontex encobriu pushbacks da guarda costeira grega

A agência europeia de fronteiras não só tinha conhecimento de como as autoridades gregas expulsavam ilegal e perigosamente migrantes como encobriu, mentiu ao Parlamento Europeu e canalizou mesmo dinheiro público para estas operações.
Barco português ao serviço da Frontex em 2016. Foto da Frontex.
Barco português ao serviço da Frontex em 2016. Foto da Frontex.

Um relatório da Agência Europeia Anti-Fraude, datado de 15 de fevereiro, analisou como a Frontex, Agência Europeia de Fronteiras e Guarda Costeira, encobria os pushbacks ilegais a migrantes e refugiados feitos no mar Egeu pelas autoridades gregas. Agora, Der Spiegel, Le Monde e Lighthouse Reports deram a conhecer o conteúdo do documento que, afirmam, era “tão tóxico que ninguém o queria ler” em Bruxelas.

Há muito que as denúncias das Organizações Não Governamentais que trabalham com migrantes na região eram unânimes. A guarda costeira grega pratica regularmente pushbacks. Ou seja força ilegalmente migrantes a saírem das suas águas territoriais sem qualquer procedimento de auxílio ou de verificação de documentos. A Frontex negava ter conhecimento mas o relatório agora divulgado mostra que não só sabia o que se passava como encobriu os procedimentos, mentiu no Parlamento Europeu sobre o assunto e continuou a fazer chegar dinheiro público para que estas ilegalidades fossem perpetradas.

No relatório é descrito que pelo menos seis barcos gregos que foram co-financiados pela Frontex participaram em pushbacks entre abril e dezembro de 2020. Em 5 de agosto desse ano, um avião da Frontex filmou mesmo uma destas cenas na qual um bote de borracha com perto de trinta pessoas a bordo é desviado à força pela guarda costeira grega para o lado da Turquia.

Depois disso, os aviões da agência europeia deixaram de patrulhar o mar Egeu e foi encontrada uma nota de Fabrice Leggeri, o seu diretor, em que admitia que tal fora feito “para não ser testemunha” do que acontecia. Vários testemunhos de funcionários corroboram que ele fechou os olhos às ilegalidades existentes. Os dirigentes da Frontex, escreve-se no relatório, “consideravam que a Comissão Europeia estava demasiado centrada nas questões dos direitos humanos” e apoiavam incondicionalmente as medidas tomadas pelo governo grego.

Depois de sete anos à frente do órgão, Leggeri acabou por ser demitido no final de abril. Aija Kalnaja é a sua sucessora e a Comissão Europeia, contactada por estes órgãos de comunicação social, garantiu que estão a ser tomadas medidas para alterar procedimentos no interior da Frontex. Entretanto, os eurodeputados têm insistido há meses em obter acesso ao documento, o que continua a ser negado.

Termos relacionados Internacional
Comentários (1)