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França prepara-se para nova greve em defesa das pensões

A mobilização contra o plano do governo para alterar as regras dos descontos e pagamentos de pensões promete subir de tom esta terça-feira. Reponsável pela reforma demitiu-se após divulgação de ligações às seguradoras.
manifestação Paris
"Macron, uma prenda para ti: oferecemos-te a reforma aos 41 anos", pode ler-se nesta pancarta na manifestação de 10 de dezembro em Paris. Foto Photothèque Rouge/Martin Noda/Hans Lucas

O braço de ferro entre o governo francês e os sindicatos mantém-se nas últimas semanas por causa do anunciado plano de reforma da Segurança Social. A greve dos ferroviários prossegue há duas semanas e ameaça as deslocações das férias de Natal. Apesar disso, as sondagens dizem que a maioria da opinião pública apoia os grevistas, que terão esta terça-feira uma oportunidade para sentir o pulso ao movimento.

Na véspera da greve foi anunciada a demissão do alto-comissário para o sistema de pensões, Jean-Paul Delevoye. O responsável pela elaboração do plano do governo foi apanhado num escândalo de conflito de interesses e alegou ter-se esquecido de juntar à sua declaração de interesses nada menos do que 13 cargos, dois dos quais remunerados, e alguns em simultâneo com a sua atividade no governo. O facto de pelo menos um desses cargos estar diretamente relacionado com interesses das seguradoras foi naturalmente sublinhado pelos opositores da reforma. O veredito da entidade para a transparência sobre o caso Delevoye está marcado para quarta-feira e o alto comissário preferiu antecipar-se, apresentando a sua demissão a Macron esta segunda-feira.

A greve de terça-feira foi convocada pelos sindicatos FO, CGT, FSU e Solidaires, aos quais se juntaram a CFTC e a CFDT com apelos à mobilização para o mesmo dia. Além da paralisação, estão previstas manifestações em várias cidades. A autarquia de Paris já pediu aos comerciantes para fecharem portas durante a passagem do cortejo que ligará a Praça da República à Praça da Nação.

Esta segunda-feira são os camionistas que entram em greve, convocada por quatro sindicatos, que inclui ações de bloqueio de estradas e concentrações. Uma responsável da federação nacional de camionistas, Florence Berthelot, disse à Europe 1 que o plano do governo põe em causa uma regra vigente desde 1996 e que permite, desde que preenchidas certas condições, a reforma antecipada dos profissionais do volante aos 57 anos.

Na terça-feira prevê-se grande adesão à greve sobretudo por parte de funcionários públicos, vistos como os principais perdedores caso avance a reforma para unificar os diversos sistemas de previdência existentes e alterar as regras de cálculo do valor da pensão. A grande novidade da greve e das manifestações de terça-feira é a adesão da central sindical CFDT, com o seu líder, Laurent Berger, a exigir do governo a retirada da “idade de equilíbrio” que é colocada aos 64 anos para acesso a reforma sem penalizações.

Os sindicatos na origem da contestação continuam a exigir a retirada da proposta do governo, mas o primeiro-ministro Edouard Phillipe parece apostado em manter o braço de ferro e esperar por um eventual desgaste da popularidade dos grevistas à medida que se aproximam as festas natalícias. “O Natal é um momento importante. Não acredito que os franceses aceitem que haja quem os possa privar desse momento”, escreveu o líder do governo num artigo publicado este domingo no Parisien. O líder da CGT respondeu na BFM-TV: Se o governo retirar o seu projeto e discutirmos seriamente a forma de melhorar o sistema […], aí tudo bem. Caso contrário, os grevistas decidirão o que fazer na quinta ou sexta-feira”, afirmou Phillipe Martinez.

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