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França: o Louvre fechou e a luta contra a reforma das pensões não pára

Esta sexta-feira, uma centena de manifestantes bloqueou a entrada do famoso museu parisiense. No dia anterior, centenas de milhares voltaram às ruas. Durante três dias, os portos têm estado bloqueados. A greve contra a reforma das pensões é a mobilização mais duradoura que o país conheceu nos últimos anos.
Trabalhadores bloqueiam a entrada no Louvre. Paris, janeiro de 2020.
Trabalhadores bloqueiam a entrada no Louvre. Paris, janeiro de 2020. Foto CGT-Culture.

Os trabalhadores do Louvre participam do movimento grevista contra a reforma das pensões em França. Manifestaram-se à porta do museu esta sexta-feira assinalando isso mesmo. Mas, para precaver represálias, não foram eles a bloquear a entrada no edifício visitado diariamente por entre 30 a 50 mil pessoas.

A ação juntou cerca de uma centena de trabalhadores da área da cultura, convocados por quatro sindicatos, CGC, CGT, FSU et SUD e resultou no encerramento do famoso museu parisiense.

O comunicado emitido por estas organizações sindicais diz que “a reforma por pontos proposta pelo governo visa apenas baixar o montante das pensões para todos.” Luta-se ainda por “melhores condições de trabalho e subida dos salários.”

O local foi escolhido, para além do seu mediatismo global, pelo simbolismo de ter sido ali que Emmanuel Macron celebrou a sua vitória nas presidenciais. Para além disso, procura-se sinalizar que a greve não se concentra apenas nos trabalhadores dos transportes públicos que são quem está a aguentar o conflito a longo termo.

A jornada massiva de luta de quinta-feira

Esta quinta-feira aconteceu a sexta grande jornada de manifestações no país. Depois de cinco, dez e 17 de dezembro e nove e onze de janeiro, trabalhadores, desempregados, estudantes e pensionistas voltaram às ruas de França. A CGT contabilizou 250 mil pessoas em Paris. A Occurrence, empresa contratada por um consórcio de meios de comunicação social para providenciar cálculos deste género, contabilizou 28 mil na capital. O Ministério do Interior 23 mil e 187 mil no conjunto de França.

Discordando nos números, as fontes concordam que foram menos do que a semana passada. Há quem se esforce denodadamente a procurar aí os sinais de um desgaste irreversível mas o que é certo é que a persistência do movimento o tornou único. São inúmeras as ações de luta em vários setores e as greves duram há seis semanas consecutivas, afetando sobretudo o setor dos transportes. Várias recolhas solidárias de fundos para os grevistas têm ajudado à sua sobrevivência. E Philippe Martinez, líder da CGT, assegura que “a determinação continua tão forte” como quando tudo começou. A estratégia sindical passa agora por aliviar o peso da greve que tem recaído sobretudo nos ombros dos trabalhadores dos transportes, diversificando a contestação.

Não é só no bolso dos trabalhadores que as greves pesam. O Banco Central informou que o conflito que começou em dezembro passado reduziu 0,1% o crescimento da economia francesa no último quartel de 2019. Estima-se que 10% dos negócios do país terão sido afetados. De modo desigual. No comércio há quem se queixe de perdas de metade dos seus ganhos devido ao facto dos clientes terem problemas de mobilidade, o que afetou a época do Natal.

A próxima grande “jornada massiva de greve e de manifestação interprofissional” acontecerá a 24 de janeiro, data em que o projeto de lei é discutido no Conselho de Ministros. Depois da retirada da idade de referência, que significava na prática um aumento da idade de reforma, exige-se a queda do conjunto do diploma que pretende instituir um sistema de reforma por pontos e terminar com os regimes especiais de pensões, nivelando-as todas por baixo.

Para além da greve, os bloqueios e a criatividade

Na quarta-feira, uma central nuclear e um centro de tratamento de lixo foram bloqueados. As greves e bloqueios fizeram com que a produção de eletricidade tenha descido 9%.

Os sete grandes portos franceses (Dunkerque, Le Havre, Rouen, Nantes-Saint-Nazaire, La Rochelle, Bordeaux et Marseille) foram bloqueados pelos trabalhadores desde terça-feira. Havia 20 barcos à espera de ser carregados com 536 mil toneladas de cereais e impedidos de entrar nos portos devido a uma greve de três dias dos estivadores. A operação “Porto Morto”, como lhe chamaram, levou também ao bloqueio da sede administrativa do porto de Marselha. E para além da greve foram instalados grandes blocos de betão que impedem a circulação de barcos.

Outra ações pesam menos na economia mas tem certamente peso simbólico. A longa duração da luta fez com que a criatividade e a diversidade de ações se tenham tornado indispensáveis.

Por exemplo, na quinta-feira houver uma “pantufada”. Ativistas da Attac e ferroviários lançaram 300 pantufas à sede do Ministério da Economia para denunciar “a influência nociva dos lóbis” que pretendem reduzir as pensões para ganhar dinheiro com as contas reforma.

Já houve também várias manifestações noturnas com tochas, denominadas retraites aux flambeaux.

O coro da Ópera de Paris tem feito sucesso nas manifestações com as suas atuações. E o seu grupo de ballet também tem marcado presença. Na véspera de Natal levou às ruas o Lago dos Cisnes.

Cerca de 70 advogados em greve lançaram as suas vestes ao púlpito onde discursava a ministra da Justiça e outros profissionais da função pública têm feito o mesmo com os seus instrumentos de trabalho. No setor da saúde têm sido as batas brancas a ser lançadas.

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