Está aqui

França: Nova lei de segurança global é "liberticida"

Numa entrevista à RFI, a dirigente bloquista Cristina Semblano sublinha que, para além do contestado artigo 24, os restantes artigos desta lei aumentam os poderes da polícia.
França: Manifestação contra a lei de segurança global
Foto de Christophe Petit Tesson | EPA/Lusa

No passado sábado, milhares de pessoas saíram à rua em várias cidades francesas para se manifestarem contra o projeto de lei de segurança global. Cristina Semblano, economista, professora na Universidade de Paris III-Sorbonne Nouvelle e dirigente do Bloco de Esquerda, falou sobre esta tema numa entrevista à estação francesa Rádio França Internacional (RFI).

Cristina Semblano resume este projeto de lei da segurança global como "um projeto liberticida que responde ao desejo de instaurar um Estado totalitário em França. Fala-se muito no artigo 24, é certamente o mais contestado, mas na realidade, de uma forma geral, os restantes artigos desta lei são criticados na medida em que eles estendem os poderes da polícia, nomeadamente da polícia municipal, e estendem os poderes das sociedades de segurança privada, avalizam o uso de drones e a vigilância generalizada da população. Portanto, trata-se de uma lei liberticida”.

O artigo 24 proíbe a divulgação de imagens sobre a polícia em caso de “comprometerem a sua integridade física e psicológica”. Entretanto o artigo será revisto como forma de responder às manifestações que decorreram pelo país.

“Dou muito pouca importância a esta nova redação do artigo 24, porque primeiro é preciso constatar que há um problema das forças policiais em França. Quando se chegar à conclusão que isso é realmente o que acontece, qualquer redação do artigo 24 não vai resolver o problema”, disse a dirigente bloquista.

Para Cristina Semblano, “têm finalmente razão todos aqueles que dizem que a França na realidade o que quer é impedir as pessoas de manifestar. Efetivamente, hoje há pessoas que têm medo de manifestar. Eu própria, muitas vezes, tenho medo de ir a manifestações. Eu estava presente em todas as manifestações antigamente, hoje eu tenho medo. Tenho menores capacidades de correr, para fugir e arrisco a minha vida indo manifestar”.

Nos últimos dias têm sido agredidos vários jornalistas pela polícia, nomeadamente dos sites “Brut” e “Médiabask”, do canal France 3 e da AFP. A professora universitária sublinha que “o objetivo de tudo isto é privar os cidadãos de informação” e acrescenta que “se o cidadão é privado de informação vital que lhe é dada pelos jornalistas e pelo jornalismo de investigação, sem essa informação o cidadão não pode agir, não pode fazer nada. Estão a manietá-lo”.

Cristina Semblano considera que esta situação é referente a uma problemática geral e não de casos isolados. “Não se podem analisar os atos de violência policial como se fossem meros atos isolados de ovelhas ranhosas na polícia. Não se trata de ovelhas ranhosas na polícia. A polícia é uma instituição que está cada vez mais ao serviço da repressão e da perseguição daqueles que põem em causa o poder estabelecido. Quando se fala no racismo, também o racismo não é o produto de algumas ovelhas ranhosas na polícia. Se a polícia age assim é porque existe neste país - como nos Estados Unidos, como em muitos países e nomeadamente em todos os países coloniais - um racismo sistémico e um racismo social”, disse a dirigente do Bloco.

 

 

Termos relacionados Internacional
(...)