O ataque terrorista ao semanário Charlie Hebdo e o sequestro sangrento desta semana em Paris, que fizeram 20 mortos, tiveram uma resposta nas ruas de toda a França com uma enorme mobilização para repudiar os atentados e prestar homenagem às vítimas e defender a liberdade de expressão. Em muitas cidades francesas, as manifestações de hoje foram as maiores de sempre.
Sem números oficiais, o diário Le Monde estima entre 4 a 5 milhões o número de de pessoas que se manifestaram por toda a França. Na maior marcha, em Paris, cerca de 2 milhões transbordaram as ruas do percurso oficial da manifestação que só desmobilizou durante a noite. Francisco Louçã e Ricardo Sá Ferreira representaram o Bloco de Esquerda nesta manifestação. E noutras cidades europeias, como Bruxelas, Berlim, Londres ou Viena, dezenas de milhares de pessoas prestaram também homenagem às vítimas destes atentados.
“É incrível o tamanho desta manifestação, foi muito forte”, declarou ao Le Monde o redator-chefe do Charlie Hebdo, que desfilou com os sobreviventes do jornal. Questionado sobre a ironia de estarem ali presentes mais de 50 chefes de Estado para homenagear o insubmisso Charlie Hebdo, Gérard Biard respondeu: “Fiquei contente que alguns não tenham desfilado ao pé de nós, pois não queria ter de lhes apertar a mão. Mas fiquei contente por apertar a mão de François Hollande enquanto presidente da República. Dissemos que contamos com ele para não ceder quanto à laicidade”.
“Não podemos deixar os predadores da liberdade de imprensa cuspirem nas sepulturas do Charlie Hebdo”
Os slogans de apoio ao Charlie Hebdo e o hino francês marcaram o percurso deste “Marcha Republicana”, que contou com situações inéditas, como os aplausos às barreiras policiais e às viaturas da polícia de choque, ou, como apontaram os Repórteres Sem Fronteiras com indignação, “a presença de líderes de países onde os jornalistas e os bloggers são sistematicamente perseguidos como o Egito (em 159º dos 180 lugares do Índice de Liberdade de Imprensa da organização), a Rússia (148º), a Turquia (154º) e os Emirados Árabes Unidos (119º).
“Seria inaceitável se os representantes de países que silenciam jornalistas se aproveitassem desta expressão de emoções para tentar melhorar a sua imagem e depois voltarem a casa para continuarem as suas políticas repressivas. Não podemos deixar os predadores da liberdade de imprensa cuspirem nas sepulturas do Charlie Hebdo”, afirmaram em comunicado os Repórteres Sem Fronteiras. Os chefes de Estado presentes desfilaram num cortejo próprio com os seus guarda-costas e afastados do resto das pessoas.