EUA

A forma errada de acabar com a ajuda

23 de fevereiro 2025 - 17:31

O complexo humanitário-industrial deve ser desmantelado – mas não por um governo apoiado por bilionários sem qualquer plano para além do abandono.

por

Kathryn Mathers

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USAID. Foto  U.S. Army Southern European Task Force, Africa
USAID. Foto U.S. Army Southern European Task Force, Africa

Por que razão estou revoltada com a pausa da administração Trump nos projetos e fundos da USAID? A ajuda humanitária sempre fez parte de um projeto neocolonial, e eu passei décadas a criticar o trabalho que faz em África, especialmente a forma como produz uma espécie de África imaginada e propaga um conjunto de ideias sobre o que o continente precisa (ver o meu livro “White Saviorism and Popular Culture” e o documentário “When I Say Africa”, a ser lançado em breve). Este complexo humanitário-industrial depende das desigualdades infraestruturais e extrativas criadas pelo colonialismo e sustentadas e reconstruídas pelo imperialismo e pelo capitalismo tardio. Organizações como a USAID entram neste espaço como os “bons da fita”, concebidos para ajudar e intervir para aliviar crises humanitárias – devastação pós-guerra, desastres climáticos, pandemias e, cada vez mais, educação, cuidados básicos de saúde, direitos das mulheres ou igualdade de género. Mas, como as reações à “pausa” da administração de Musk (em teoria, de Trump) na USAID tornam claro, o seu papel real sempre foi o das relações externas, como ilustra este comentário de Michael Schiffer no Just Security:

“Porquê? Porque a ajuda externa, embora caridosa, não é caridade. É um investimento estratégico que salvaguarda os interesses mais importantes dos Estados Unidos e reflete os seus valores mais elevados.”

Já lá vai algum tempo desde que trabalhei com fundos da USAID, dirigindo um projeto de educação de eleitores antes das primeiras eleições democráticas da África do Sul e trabalhando para a ONG de educação básica de adultos Project Literacy, com sede em Pretória, África do Sul. O Project Literacy dependia em grande medida do financiamento dos doadores nas décadas de 1980 e 1990, embora tenha resistido com êxito à transferência do financiamento dos doadores para o Estado sul-africano, uma medida que encerrou muitas das nossas organizações irmãs de alfabetização após as eleições. É claro que ficámos felizes por tirar partido do financiamento dos doadores ocidentais, principalmente da Europa, mas este veio sempre acompanhado de condições, especialmente o dinheiro da USAID. Se precisássemos de recursos, éramos obrigados a comprar a fabricantes e empresas americanas e 15% de qualquer subsídio era gasto numa auditoria efetuada por contabilistas de Washington, DC. Mais frustrante ainda é o facto de cada proposta exigir que o nosso trabalho fosse distorcido para se enquadrar no que quer que fosse a palavra-chave ou a “vítima” do dia. Tínhamos um programa sustentável estabelecido que ensinava milhares de alunos adultos todos os dias, mas não conseguíamos angariar fundos para manter as luzes acesas, os veículos com gasolina ou a renda paga. Mesmo quando apoiava programas essenciais, o objetivo principal da USAID era apoiar a economia americana e transmitir valores americanos.

Mesmo os argumentos que estão a ser apresentados à administração Trump sublinham que a ajuda externa é importante porque é importante para a posição dos Estados Unidos no mundo, representa os EUA globalmente como um lugar forte e ético e constrói boas relações internacionais. Por isso, mesmo no seu melhor, a ajuda tem tudo a ver com os EUA e não com os locais que supostamente ajuda. No entanto, no pior dos casos, está claramente a definir agendas globais, policiando as ideias americanas de mérito e valores, direitos humanos e “empoderamento”. Como Will Shoki salienta no editorial desta semana do Africa is a Country, esta ajuda resolve problemas que foram causados ou sustentados pelos Estados Unidos e outras políticas do Norte Global. A ajuda vai ao encontro das necessidades, muitas vezes imaginárias, de pessoas cujas realidades assentam em histórias de extrações e de exploração contínua. Estas realidades poderiam ser atenuadas através de diferentes tipos de acordos comerciais, leis laborais e políticas que não limitasse a capacidade das nações do Sul Global para insistirem em que os trabalhadores das suas fábricas, propriedade de empresas norte-americanas, sejam bem pagos, tenham cuidados de saúde e trabalhem em ambientes sanitários e seguros. O humanitarismo ocidental não só não resolve nenhum destes problemas como cria narrativas de impotência e desumanidade que justificam a exploração e fazem parecer que a única solução para estes problemas é a ajuda. É a derradeira máquina anti-política que exerce um soft power em benefício dos interesses capitalistas ocidentais.

Portanto, sim, a decisão de Musk de que os EUA já não precisam de prestar ajuda – especialmente, ao que parece, ao seu país natal, a África do Sul, o país que permitiu à sua família construir uma enorme riqueza – deve e pode ser uma coisa boa. Poderá ser, de facto, uma oportunidade de reinício para a África do Sul e outros locais procurarem novas formas de tornar as suas populações seguras, saudáveis, educadas, empregadas e alojadas e procurarem novos aliados neste projeto. Mas não deixa de ser uma ação chocante e, não há outra palavra para o dizer, grosseira. Para não falar que é mais uma demonstração da total ignorância desta administração sobre o funcionamento das economias globais, o impacto dos desastres climáticos em todo o mundo e as repercussões dos conflitos globais que financia. A ironia (ou talvez seja de facto inteiramente coerente) é que esta administração identificou a migração e os refugiados como as grandes questões que quer “resolver” – um problema administrativo que só irá piorar sem a assistência humanitária dos EUA.

Apesar da necessidade de desmantelar o complexo humanitário-industrial, cancelar toda a ajuda (exceto ao Egito e a Israel, que foram autorizados a gastá-la em armas) é errado. Porquê? Gostaria de me opor à caraterização de Schiffer da ajuda caritativa como não sendo caridade. É, evidentemente, muitas outras coisas, a maior parte delas violentas e extrativas, dominadoras e limitadoras, e definitivamente não são suficientes para aliviar realmente a desigualdade global. Mas, por vezes, os atos de caridade são caridade; a filantropia é a coisa certa a fazer. Face à escalada da violência em todo o mundo, muitas vezes financiada pelos Estados Unidos, às catástrofes das alterações climáticas profundamente criadas pela economia norte-americana, cada vez mais pessoas precisam de ajuda. Por mais imperfeita que seja, a infraestrutura que fornece essa ajuda precisa de ser alterada, mas não desta forma.


Kathryn Mathers é autora de dois livros: “Travel, Humanitarianism, and Becoming American in Africa” e ”White Saviorism and Popular Culture: A África imaginada como espaço de salvação americana”.

Texto publicado originalmente pelo Africa is a Country.