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Finlândia: fragmentação eleitoral gera novo “thriller” nórdico

As eleições realizadas na Finlândia, no passado dia 14, mostraram um país eleitoralmente fragmentado, com um recuo da coligação governamental de centro-direita, o avanço das forças políticas de centro-esquerda e esquerda e a manutenção da força da extrema-direita. Por Jorge Martins
Sob a liderança da jovem Lil Andersson, a Aliança de Esquerda, que participa na Plataforma “Agora, o Povo”, teve uma subida e obteve 8,2% e 16 lugares
Sob a liderança da jovem Lil Andersson, a Aliança de Esquerda, que participa na Plataforma “Agora, o Povo”, teve uma subida e obteve 8,2% e 16 lugares

Daí que, tal como aconteceu na vizinha Suécia, após as eleições de setembro, não seja fácil a formação de um novo governo e as várias opções disponíveis configurem mais um “thriller” político.

Um regime político muito semelhante ao português

A Finlândia dispõe de um regime republicano semipresidencialista, embora as três últimas revisões constitucionais, ocorridas a partir de 1991, tenham reduzido muito os poderes presidenciais. Aliás, a partir de 2000, o sistema passou a ser quase parlamentarista.

Assim, o Presidente da República é eleito por sufrágio universal, direto e secreto para um mandato de seis anos, não podendo exercer mais de dois consecutivos. Se nenhum candidato conseguir a maioria absoluta dos votos, os dois primeiros passam à ronda decisiva, a realizar três semanas depois, onde será eleito o mais votado.

O chefe de Estado compartilha com o governo a condução da política externa e pode dissolver o Parlamento, embora esse poder esteja hoje sujeito a mais restrições que antes, tendo de consultar obrigatoriamente o primeiro-ministro e os grupos parlamentares. Tem, igualmente, o poder de vetar legislação parlamentar e, apesar de esse veto poder ser levantado pela maioria absoluta dos deputados, estes quase nunca o fazem, respeitando a decisão presidencial.

O executivo é dirigido por um primeiro-ministro, designado pelo PR, tendo em conta os resultados eleitorais. Após negociações entre as diferentes forças políticas, aquele designa um candidato, que tem de receber um voto de confiança da maioria absoluta dos parlamentares para formar governo. Se não o conseguir, as negociações são reabertas e o presidente nomeia nova personalidade. Se esta voltar a não conseguir o número de votos necessários, cada deputado pode apresentar um nome, sendo eleito o mais votado.

O Parlamento (Eduskunta) é unicameral, composto por 200 membros, eleitos por sufrágio universal, direto e secreto para um mandato de quatro anos.

Desses, 199 são-no através de um sistema de representação proporcional muito semelhante ao português. É utilizado o método de Hondt, em 12 círculos eleitorais, que representam uma região, um agrupamento de regiões ou a cidade de Helsínquia, estando a sua magnitude (ou seja, o número de deputados a eleger) compreendida entre 7 e 36. Tal como cá, não existe nenhuma cláusula-barreira legalmente definida. O agrupamento de unidades regionais destina-se a evitar que, nas regiões pouco povoadas, o número de deputados a eleger fosse tão baixo que distorceria a proporcionalidade, algo que sucede em Portugal nos distritos do interior. Já a autonomização da capital face à sua área metropolitana pretende dificultar a representação parlamentar dos pequenos partidos, que, numa circunscrição única, onde seriam eleitos perto de 60 deputados, seria ainda mais fácil de obter do que sucede por cá no círculo de Lisboa.

O outro parlamentar, eleito por sistema maioritário, representa as ilhas Åland, um arquipélago situado à entrada do golfo de Bótnia, a sudoeste do território continental do país, entre este e a Suécia, onde mais de 90% da população é etnicamente sueca e que, desde 1921, tem o estatuto de região autónoma finlandesa.

Um aspeto importante é haver um sistema de voto preferencial obrigatório, isto é, o eleitor, ao votar numa determinada candidatura, tem de votar, igualmente, num dos candidatos dela constante. É esse voto individual que determina a ordenação da lista e, consequentemente, os nomes dos eleitos. Assim, não existe um cabeça de lista oficial e os candidatos são ordenados, no boletim de voto, por ordem alfabética. Podem também apresentar-se listas independentes e candidatos individuais, desde que recolham as assinaturas suficientes para tal.

Apesar de a maioria dos seus 5,5 milhões de habitantes ser etnicamente finlandesa, existe no país uma importante minoria sueca. Embora, ao longo dos anos, o seu peso percentual tenha vindo a decair, ainda representa 5,5% da população (5% no continente e 93% nas Åland). No território continental, esta encontra-se concentrada em algumas regiões costeiras (Ostrobothnia, no Centro-Oeste, onde é maioritária; Sudoeste, em especial no arquipélago de Turku, frente à cidade; e Uusimaa, a área metropolitana de Helsínquia).

Por isso, a Constituição da Finlândia estabelece que o Estado é oficialmente bilingue, tendo os funcionários públicos de ser fluentes tanto em finlandês como em sueco. No entanto, em Åland, este último é a única língua oficial. No continente, ao nível local, os municípios onde, pelo menos, 8% dos residentes ou 3000 pessoas pertençam a uma minoria linguística são oficialmente bilingues; os restantes são monolinguísticos. Por isso, na maioria deles, o finlandês (falado por 89% da população) é o único idioma oficial, sendo muito raros aqueles onde o sueco possui esse estatuto.

Nas municipalidades do norte da Lapónia, existe um bilinguismo entre as línguas finlandesa e sami, o povo nativo desta região ártica e que se encontra, igualmente, na Noruega, na Suécia e na Rússia. Tal como nesses países, existe um Parlamento Sami, que representa o respetivo povo e tem competências próprias em matérias de interesse para ele, em especial no âmbito linguístico e cultural.

Análise dos resultados eleitorais

Após as eleições de 2015, de onde saiu vencedor o partido do Centro (KESK), liderado por Juha Sipilä, este formou uma coligação de centro-direita com os liberal-conservadores da Coligação Nacional (KOK) e os Finlandeses Comuns (PS), da direita populista.

Em 2017, a eleição de novo líder fez resvalar este último para a extrema-direita, o que levou o primeiro-ministro e o líder do KOK a rejeitar manter-se no poder com o PS. Contudo, o seu ex-líder, Timo Soini, e quase metade do respetivo grupo parlamentar protagonizaram uma cisão, que levou à criação de um novo partido, o Futuro Azul (SIN), que permaneceu no governo, evitando a sua queda.

No início de março, Sipilä apresentou a sua demissão, a pretexto de divergências na coligação sobre a reforma do sistema de saúde, atitude que a oposição considerou ser uma tática de vitimização para recuperar algum apoio eleitoral, face à impopularidade do seu governo.

As eleições mostraram uma profunda divisão da sociedade finlandesa, expressa numa grande fragmentação partidária, pois, pela primeira vez na história do país, o partido vencedor não atingiu 20% dos votos. Daí que se tenha verificado uma crispação pouco habitual nestas paragens, inclusive com registo de episódios pontuais de violência física contra candidatos.

Ao contrário do que tem sucedido em muitos países europeus, não se verificou aqui uma grande volatilidade eleitoral, com a maioria dos eleitores a manter-se fiel à sua escolha de há quatro anos. A grande exceção foi o KESK, que viu fugir uma parte significativa do eleitorado que nele tinha apostado em 2015 para as restantes opções de voto.

Entretanto, é de realçar, igualmente, o aumento da participação eleitoral, que se cifrou em 68,7% dos eleitores inscritos, contra 65,9% das últimas eleições. De acordo com os dados oficiais, compareceram nas urnas cerca de 72,0% dos residentes no país, mas apenas 11,7% da diáspora.

Já os votos brancos e nulos são residuais: 0,6% do total dos votantes agora, 0,5% nas anteriores.

Um aspeto muito positivo deste ato eleitoral foi a eleição do maior número de candidatas de sempre. Assim, o novo Eduskunta contará com 92 deputadas (46% do total), batendo o anterior “record”, que era de 85. Curiosamente, em 2003, durante três meses, o país chegou a ter três mulheres nos mais altos cargos do Estado: a presidente Tarja Halonen, a primeira-ministra Anneli Jäätteenmäki e a presidente do Parlamento Liisa Jaakonsaari.

Partido Social-Democrata da Finlândia (SDP)

Os social-democratas do Suomen sosialidemokraattinen puolue (SDP), liderados por Antti Rinne, foram o partido mais votado, obtendo 17,7% dos votos válidos, que lhe valeram a eleição de 40 deputados. Uma subida face aos 16,5% e 34 lugares de há quatro anos.

Fundado em 1899, como Partido Trabalhista Finlandês (STP), é o mais antigo dos atuais partidos do país, tendo adotado a atual designação quatro anos depois. Representou historicamente a classe operária, estando muito ligado à principal central sindical do país. Em 1918, após a revolução bolchevique, iniciou um movimento revolucionário e proclamou uma república socialista, que foi esmagada pelas forças conservadoras numa sangrenta guerra civil, em que os “vermelhos” acabaram derrotados pelos “brancos”, apoiados por tropas alemãs.

Proclamada a independência, ocorreu uma cisão entre os social-democratas nacionalistas, que pretendiam integrar-se na vida política do novo Estado, e os simpatizantes bolcheviques, que queriam a integração na Rússia soviética e aí formaram o partido comunista, que se manteria na clandestinidade até 1944. Apesar disso, o SDP manteve-se forte e integrava o governo quando, em 1940, após o pacto Ribbentrop-Molotov, a Finlândia foi invadida pela URSS. Apesar da forte resistência oferecida, na chamada Guerra de Inverno, acabou por ser obrigada a ceder grande parte da Carélia, no Leste e Sueste, aos soviéticos. No ano seguinte, aproveitando o ataque da Alemanha nazi à União Soviética, os finlandeses iniciaram uma invasão daquele país, que designaram por Guerra da Continuação, com vista a recuperar os territórios perdidos. Contudo, inebriados pelos êxitos militares e incitados pelos alemães, prosseguiram com a invasão, tentando conquistar a Carélia russa, aventura a que a liderança dos social-democratas não se opôs. A contraofensiva do Exército Vermelho levou a Finlândia a pedir um armistício, em 1944, do qual resultaram novas perdas territoriais, agora no Nordeste, e a consagração de um certo “droit de regard” da URSS sobre os assuntos finlandeses.

A postura dos dirigentes do SDP provocou a saída de parte da sua ala esquerda e gerou um clima de forte enfrentamento com os comunistas, entretanto legalizados, em especial na luta pelo controlo dos sindicatos. Por isso, os social-democratas não integravam os comunistas nas alianças governamentais que lideraram nos anos 50 e início dos 60. Contudo, esse antagonismo foi diminuindo e estes últimos acabaram por fazer parte de algumas coligações dirigidas pelo SDP entre 1966 e 1983. O facto de este, desde os anos 20, ter estado sempre mais à direita que os seus congéneres dos outros países nórdicos, desenvolvendo uma prática de colaboração com os partidos “burgueses”, levou a que não tenha tido necessidade de fazer uma grande conversão ao neoliberalismo, como a maioria das formações social-democratas de outros países, pois sempre esteve próximo do centro.

O SDP defende o essencial do Estado Social e dos direitos laborais e, por isso, opôs-se aos cortes no subsídio de desemprego e nos gastos com a educação levados a efeito pelo governo de Sipilä. É liberal em matéria de costumes, sendo partidário do direito de adoção por parte dos casais LGBTI. Defende a manutenção do bilinguismo a nível nacional, mas, ao contrário dos seus congéneres na Europa ocidental, é favorável à imposição de restrições à imigração de trabalhadores não qualificados, algo que se explica pelo medo de perder o apoio de mais eleitorado operário para a extrema-direita. No capítulo ambiental, advoga a aposta no desenvolvimento da energia nuclear, que considera essencial para o país atingir a autossuficiência energética. No plano internacional, é pró-UE, tendo sido responsável pela adoção de políticas orçamentais restritivas, que permitiram a integração do país no euro, mas opõe-se à adesão à NATO.

Visto como o grande favorito nestas eleições, face ao descontentamento popular com as políticas do governo direitista de Sipilä, acabou por conseguir apenas uma vitória “poucochina” face à extrema-direita e aos liberal-conservadores. Apesar de ter liderado a oposição ao executivo, as suas propostas, tanto no plano laboral como energético, não satisfizeram uma parte do eleitorado mais jovem e urbano, que acabou por optar pelos ecologistas ou, em menor grau, pela esquerda.

Obteve os melhores resultados nas áreas urbano-industriais da parte ocidental do Centro-Sul, tendo sido o mais votado em quatro círculos eleitorais: três dessa área do país (os mistos urbano-rurais Satakunta e Häme e ainda Pirkanmaa, onde se situa Tampere, a segunda maior área urbana e o berço da indústria do país) e no do Sueste, mais ruralizado. Ao invés, revela-se débil nas extensas e pouco povoadas áreas rurais do Norte (em especial, na circunscrição de Oulu, mas também na Lapónia e em Vaasa) e na cidade de Helsínquia.

Aliás, a capital revelou-se o “calcanhar de Aquiles” dos social-democratas, já que perderam aí cerca de 1/8 dos seus eleitores de 2015, fruto do que referimos acima. No resto do país, apenas registaram perdas residuais no círculo da Finlândia Central, tendo melhorado em todos os outros. As maiores subidas percentuais ocorreram nas áreas onde possui menor implantação (com destaque para a Lapónia), o que se deve também a algum efeito estatístico, e na circunscrição do Sudoeste, onde se localiza Turku, a terceira maior área urbana finlandesa.

Finlandeses Comuns (PS)

Os Perussuomalaiset (PS) são uma formação política da extrema-direita. Antes, o seu nome era traduzido por Verdadeiros Finlandeses, mas, segundo o seu ex-líder e fundador, Timo Soini, o seu nome significaria, antes, Finlandeses Comuns, pelo que sugeria, na tradução para inglês, a designação The Finns (Os Finlandeses). A comunicação social internacional adotou, então, a de Partido dos Finlandeses, mas prefiro ser fiel à tradução mais literal. Liderados por Jussi Halla-aho, tornaram-se na segunda força política do país, ficando a 0,2% dos votos do vencedor. O PS obteve 17,5% dos votos válidos, tendo eleito 39 deputados. Uma ligeira descida na votação face a 2015, quando conseguira 17,7%, mas um pequeno aumento na representação parlamentar, já que apenas obtivera 38 lugares no Parlamento.

As suas origens remontam ao Partido Rural Finlandês (SMP), uma cisão de direita no seio da Liga Agrária (que se transformaria, mais tarde, no partido do Centro), em 1959, e que chegou aos 10% no início dos anos 70 e próximo desse valor em 1983. A partir daí, foi perdendo força e, em 1995, apenas elegeu um deputado. Crivado de dívidas, cessou a sua atividade.

No mesmo ano, alguns dos seus antigos dirigentes criaram o PS. Tino Soini assumiu a liderança da formação dois anos mais tarde. Contudo, os primeiros resultados foram bastante fracos, situando-se na casa do 1%. Em 2007, chegariam aos 4% e cinco eleitos, mas seria nas eleições seguintes, em 2011, que dariam um enorme salto, obtendo 19,1% (quase o mesmo do SDP) e 39 lugares parlamentares, o que o tornou, então, na terceira força política do país. Para este resultado, contribuiu a sua oposição à participação da Finlândia nos resgates aos países periféricos da UE, que ligou a um possível enfraquecimento do Estado Social finlandês, e a sua oposição ao acolhimento de refugiados. A partir daí, tornaram-se incontornáveis.

Como referimos acima, a eleição de Halla-aho, da ala direita do partido, em 2017, provocou uma crise governativa e uma cisão neste, protagonizada por Soini, que fundou o Futuro Azul (SIN) e reduziu a metade o grupo parlamentar. Se, antes, já era uma formação de direita populista e eurocética, moderadamente anti-imigração, embora menos radical que os seus congéneres sueco e dinamarquês, radicalizou as suas posições e passou a filiar-se na agenda da extrema-direita europeia, o que levou centristas e conservadores a afastá-lo da coligação governamental. O apoio reduziu-se nas sondagens e, nas eleições autárquicas desse ano, ficou-se pelos 8,8% dos sufrágios, contra os 12,3% de 2012. Contudo, com o SIN integrado no impopular governo de Sipilä, rapidamente o PS recuperou a maioria do seu eleitorado, atraída pelo populismo simplista da sua mensagem.

O partido é nacionalista e eurocético, defendendo a saída do país do euro e realização de um referendo sobre a permanência na UE. Apesar de ser contrário à adesão da Finlândia à NATO, defendendo a manutenção da política externa de não alinhamento, a par com um aumento das verbas com a defesa e o aumento dos efetivos militares, considera uma eventual entrada na organização preferível à pertença à União Europeia. Ao mesmo tempo, apoia o que considera ser a promoção do orgulho nacional e da “identidade finlandesa” no sistema de ensino e defende a abolição do estudo obrigatório do sueco como segunda língua, o que, na prática, colocaria em causa o bilinguismo constitucionalmente consagrado. Advoga fortes restrições à imigração, em especial de países não ocidentais, ao acolhimento de refugiados e ao acesso de estrangeiros aos benefícios sociais. Em matéria de costumes, é conservador, sendo contrário ao casamento LGBTI e à adoção por parte desses casais e também por parte de mães solteiras, sendo, igualmente, favorável ao fim de todas as discriminações positivas das minorias étnicas e sexuais. Defende, ainda, que o Estado deixe de subsidiar formas de cultura diferentes das tradicionais. Em matéria criminal, é favorável ao reforço das forças policiais e ao aumento das penas para os assassinos, pedófilos e traficantes.

Do ponto de vista económico, a sua abordagem é “social”, afirmando-se crítico do neoliberalismo, defendendo a manutenção do essencial do Estado Social para os finlandeses e o aumento da progressividade fiscal. É, igualmente, favorável, à atribuição de subsídios à agricultura e às regiões rurais, ao apoio aos pequenos empresários, bem como ao aumento do investimento nas indústrias e em novas obras públicas. Na questão ambiental, tende para o negacionismo das alterações climáticas, apoiando a aposta na energia nuclear e rejeitando a fiscalidade ecológica.

O seu resultado deve-se à conquista de um razoável número de eleitores centristas e alguns democrata-cristãos, que compensou alguma perda de eleitores para o SDP e o SIN.

A distribuição geográfica do seu voto não é muito distante da dos social-democratas, com quem disputa o apoio da classe operária, embora, ao contrário daqueles, tenha alguma implantação entre os agricultores. Por isso, os seus melhores resultados ocorreram no sudoeste do país, tendo sido, igualmente, na circunscrição de Satakunta que obteve o melhor resultado, logo seguido da de Häme, duas áreas mistas, que compreendem zonas rurais e urbano-industriais, e da nortenha Oulu. Contudo, foi no círculo do Sudoeste (que inclui Turku) que venceu, embora apenas com 0,1% de avanço sobre os liberal-conservadores. Registou, também, bons desempenhos no Leste, nos círculos do Sueste e da Savónia-Carélia, mais rurais. O seu ponto fraco continua a ser a capital e, em menor grau, a sua região metropolitana.

A evolução da sua votação revela alguma irregularidade, tendo subido em seis círculos eleitorais e descido nos outros seis. A maior e mais inesperada subida registou-se em Oulu, no Norte. Para isso, muito contribuiu a descoberta de uma rede de exploração infantil, dirigida por um grupo de estrangeiros provenientes de países muçulmanos, que violava e prostituía menores finlandesas naquela cidade, levando uma delas ao suicídio. O crime chocou a Finlândia e deu força ao discurso xenófobo e racista da extrema-direita, que aproveitou para fazer generalizações a partir do caso e diabolizar a imigração, os imigrantes e os refugiados. Foi a partir daí que o PS começou a subir nas sondagens e, de alguma forma, a contaminar o discurso de outros partidos, em especial dos social-democratas e dos centristas. Apesar de continuar relativamente fraco na capital, registou algum crescimento na cidade, tal como na Lapónia e nas áreas ocidentais do Centro-Sul, onde obteve as suas melhores votações. O declínio de várias indústrias tradicionais em algumas dessas zonas explica, em parte, esse aumento.

Ao invés, registou descidas com alguma amplitude nos círculos de Uusimaa (a área metropolitana de Helsínquia), do Leste (Sueste e Savónia-Carélia), da Finlândia Central e em Pirkanmaa, no Centro-Oeste. Estas coincidem, na maioria dos casos, com aqueles onde o SIN obteve resultados acima de 1%. O que mostra que, não fora a cisão, teria ganho as eleições.

Coligação Nacional (KOK)

O Kansallinen Kokoomus é uma formação liberal-conservadora. Liderada por Petteri Orpo, foi a terceira força política mais votada, tendo obtido 17,0% dos sufrágios e eleito 38 deputados. Um recuo na votação face a 2015, quando tinha conseguido 18,2%, mas, tal como o PS, com um aumento na sua representação parlamentar, já que, então, se tinha ficado pelos 37 eleitos. Estes ganhos marginais de lugares, apesar da perda de votos, só são possíveis pela divisão do território em círculos regionais de diferentes magnitudes, sem qualquer compensação a nível nacional, tal como sucede entre nós, e estão relacionados com a quebra dos centristas nestas eleições. Aliás, nas anteriores, o KOK ficou com menos um lugar que o PS, apesar de ter obtido mais 0,5% que este.

Foi fundado em 1918, como partido conservador, apoiante da instauração de um regime monárquico, liderado por um príncipe alemão. Falhado esse objetivo, após a derrota da Alemanha na 1ª guerra mundial, passou a defender um regime presidencialista e um Estado centralizado, bem como um forte conservadorismo cultural. Assim permaneceu até aos anos 50, quando adotou uma abordagem mais liberal, tanto em matéria económica como de costumes, algo que levou a uma cisão à direita, da qual resultou a criação do partido dos Cristãos-Democratas (KD). Apesar de ser partidário do liberalismo económico, não advoga o fim do Estado Social nórdico, mas é defensor algumas reformas de conteúdo regressivo, como a introdução da ideia de “liberdade de escolha” entre público e privado na saúde e na educação e cortes nos apoios aos desempregados. Nos costumes, afirma-se liberal e tolerante, defendendo o casamento LGBTI e os direitos das minorias. É favorável ao multiculturalismo e não se opõe à imigração. Em matéria de política externa, é abertamente pró-UE e, apesar de se reclamar defensor do multilateralismo nas relações internacionais, é adepto da integração da Finlândia na NATO.

A sua presença no governo de Sipilä foi responsável pela ligeira quebra na sua votação, mas resistiu bastante melhor que o partido do primeiro-ministro, apesar de os seus líderes (Alexander Stubb, até 2016, e Petteri Orpo, desde aí) deterem a pasta das Finanças no seu executivo. O facto de o KOK ter sido, nos últimos 12 anos, o partido alternante com o KESK na liderança do país terá evitado uma maior penalização por parte dos eleitores. O regresso de alguns eleitores que, atraídos pelo discurso ultraliberal de Sipilä, optaram pelos centristas em 2015, permitiu-lhe evitar uma quebra maior, embora tenha perdido votos, em especial para os social-democratas e os verdes.

O partido é o representante da burguesia urbana e das classes altas, estando o seu maior apoio em Helsínquia e na sua região metropolitana. Daí ter sido o primeiro no círculo de Uusimaa, o maior do país. Também teve bons desempenhos noutras circunscrições predominantemente urbanas, como Häme, o Sudoeste e Pirkanmaa. Ao invés, revela-se tradicionalmente fraco nas áreas rurais do Norte (em especial nos círculos da Lapónia, Oulu e Vaasa) e do Centro-Leste (Savónia-Carélia e Central).

O KOK apenas melhorou a sua prestação eleitoral na circunscrição do Sueste e nas áreas rurais do Norte e do Leste, onde tem menor implantação. Em contrapartida, registou quebras significativas nas zonas urbanas, onde é mais forte, em especial em Helsínquia. Também nos círculos de Uusimaa, na sua periferia da capital, e nas circunscrições vizinhas de Häme e do Sudoeste teve uma descida acima da média nacional.

Centro da Finlândia (KESK)

O Suomen Keskusta, do primeiro-ministro Juha Sipilä, foi o grande derrotado desta eleição, tendo perdido votos em todas as direções. Consequentemente, os 21,1% dos votos válidos e os 49 deputados de 2015 reduziram-se, agora, a uma votação de 13,8% e à eleição de 31 parlamentares, o seu pior resultado de sempre.

Como o nome indica, estamos em presença de um partido centrista. Tal como outros partidos nórdicos com a mesma designação, teve origem na Liga Agrária (SML), fundada em 1906, para defender os interesses dos agricultores e das zonas rurais, em perda face à crescente urbanização do país e desagradadas com a centralização do poder na capital.

No período que anteceu a independência, em 1918, o partido defendeu a forma republicana de governo contra o projeto conservador de instauração da monarquia, acabando por ver a sua posição prevalecer. Com o fim da guerra civil, em que alinhou com os ”brancos” contra os ”vermelhos”, o KESK serviu, frequentemente, de ponte entre a direita e a esquerda, integrando tanto governos mais conservadores como mais progressistas.

Após a 2ª guerra mundial, nos anos 50 e 60, os centristas, representando, então, a maioria do eleitorado da direita, tornaram-se uma das três principais forças políticas do país, disputando as eleições ”palmo a palmo” com os social-democratas e os comunistas, todos na casa dos 20%. Em 1956, o seu líder, Urho Kekkonen, foi eleito presidente, cargo em que se manteve até 1982. Numa altura em que o PR detinha bastante mais poderes que hoje, adotou uma política externa que designou por neutralidade ativa, desenvolvendo boas relações com ambos os blocos da ”guerra fria” e sempre com a preocupação de não ofender os soviéticos.

Com a recuperação do KOK e o crescimento do Partido Rural Finlandês (SMP), criado em 1959 por dissidentes da sua ala direita, a partir do início dos anos 70, o KESK perdeu algum apoio, mas regressou à sua tradicional vocação centrista. Em 1965, mudou o nome para Partido do Centro, tendo adotado a atual designação em 1988. Como referimos, é hoje uma das formações alternantes no poder, que vai partilhando, ora com os social-democratas, ora com os conservadores. Nos 100 anos de existência da Finlândia independente, foi o que mais tempo esteve no poder.

Do ponto de vista ideológico, o KESK não é fácil de caracterizar, apresentando algumas semelhanças com o PSD português. Assim, apesar de integrar o grupo liberal, não é favorável a um liberalismo económico puro e duro, pois, embora se declare defensor da livre iniciativa e do livre comércio, defende a concessão de apoios estatais às pequenas e médias empresas e de subsídios aos agricultores. Uma das causas do partido é a descentralização, defendendo mais poderes para os municípios e regiões e a deslocalização de algumas agências do governo para centros urbanos de menor dimensão. Mostra, ainda, algumas preocupações ambientais. No plano dos costumes, revela algum conservadorismo, sendo a maioria do partido contrária ao casamento LGBTI. Quanto à política externa, dividiu-se quanto à entrada na UE, que teve a oposição de 1/3 dos seus militantes, e opôs-se à entrada no euro, embora os seus governos posteriores não a tenham colocado em causa. É contrário à adesão à NATO, sendo favorável à manutenção da política de neutralidade do país.

Contudo, em 2012, o partido escolheu o empresário Juha Sipilä, um dos homens mais ricos da Finlândia, como líder. Com o país em crise, após a queda da Nokia, a companhia que fora o orgulho dos finlandeses nos 20 anos anteriores, apresentou-se nas eleições de 2015 com um programa baseado na ideia de empreendedorismo e da gestão tecnocrática do Estado, comparado a uma empresa. Com essa retórica, conseguiu apoios fora das suas áreas tradicionais de influência, em especial junto de alguns setores da direita urbana, tradicionalemnte apoiantes do KOK.

Dentro dessa filosofia, e pressionado pelas instituições europeias, onde avultava o comissário finlandês e militante do KESK, Olli Rehn, responsável pela economia e finanças da UE, rapidamente o seu governo enveredou pela implantação de políticas austeritárias, conducentes à chamada ”desvalorização interna”. Para tal, realizou cortes orçamentais significativos nos setores sociais, em especial na educação, e levou a efeito uma reforma regressiva da legislação laboral. A tentativa falhada de reforma da saúde, que levou à queda do governo, inseria-se nessa política de redução do défice orçamental. Estas medidas suscitaram amplos protestos, tanto da oposição parlamentar como das centrais sindicais, tendo havido várias greves e manifestações contra a sua adoção.

Por outro lado, Sipilä foi acusado de conflitos de interesse, já que, frequentemente, utilizou o seu cargo de chefe do governo para promover, interna e externamente, algumas das 120 (!...) empresas de cujo conselho de administração faz parte e ainda algumas detidas por familiares diretos. A hecatombe eleitoral que o partido sofreu, obtendo o pior resultado da sua história, foi a consequência esperada dessa governação impopular e da promiscuidade descarada entre política e negócios, algo até aí pouco frequente naquelas latitudes.

O partido perdeu mais de 1/3 do seu eleitorado de há quatro anos e as perdas ocorreram em todas as direções..

Apesar das enormes quebras, o KESK, formação defensora dos interesses da burguesia rural, continua a revelar-se mais forte nas áreas rurais do Norte e do Leste, tendo saído vencedor em quatro círculos eleitorais: facilmente nas remotas Lapónia e Oulu (nas quais chegou perto dos 30%) e com mais dificuldade na Finlândia Central e na Savónia-Carélia. Também na circunscrição de Vaasa, no Centro-Oeste, conseguiu exatamente 20%, embora tenha ficado atrás do partido da minoria sueca. Em contrapartida, é bastante fraco nas áreas urbanas, em especial em Helsínquia, onde não chegou aos 3%. Também na sua região metropolitana (Uusimaa) e na de Tampere (Pirkanmaa) mostrou também fraca implantação, não atingindo os dois dígitos percentuais.

Embora as quebras tenham ocorrido em todo o país, foram maiores nestas três últimas regiões, bem como na vizinha circunscrição de Häme, também maioritariamente urbana, tendo atingido quase 60% na capital. Nestas, verifica-se, com mais intensidade, a fuga dos eleitores não tradicionais do partido, que haviam apoiado Sipilä em 2015 e que, agora, terão fugido, em grande parte, para os liberal-populistas, os verdes e, em menor medida, para os conservadores. Nas outras, as fugas foram mais para os social-democratas e a extrema-direita. Apenas em Satakunta, no ocidente do Centro-Sul, a amplitude da queda ficou um pouco abaixo dos 20%.

Liga Verde (VIHR)

Os ecologistas da Vihreä liitto, liderados por Pekka Haavisto, foram os grandes vencedores destas eleições, ao obterem 11,5% dos votos válidos e 20 lugares parlamentares, quando, em 2015, se quedaram pelos 8,5% e 15 eleitos.

Fundada em 1987, como movimento cívico, a partir de diversos grupos ambientalistas, feministas e LGBTI, bem como por jovens dissidentes do antigo Partido Liberal Popular (LKP), transformou-se em partido no ano seguinte. Para além das preocupações ambientais e da defesa de uma maior abertura em matéria de costumes, pretendia romper com o status quo partidário tradicional e fomentar a democracia participativa.

Em 1995, fez história ao entrar no governo do social-democrata Paavo Lipponen e o seu líder, Pekka Haavisto, tornar-se ministro do Ambiente, algo que aconteceu pela primeira vez na Europa. O partido manteve-se na coligação até 2002, quando saiu em divergência com o SDP devido ao apoio deste último à manutenção da opção nuclear. Entre 2007 e 2011, o VIHR aceitou integrar o gabinete do centrista Matti Vahanen, uma coligação de centro-direita com o KESK, o KOK e o Partido do Povo Sueco (SFP), o que lhe fez perder o apoio de uma parte do eleitorado de esquerda. Na legislatura seguinte, manteve-se no executivo de unidade nacional, formado na sequência da crise económica que se seguiu à queda da Nokia. Em 2015, passou à oposição, tendo contestado as políticas austeritárias do governo de Sipilä. Após uma crise de liderança, Haavisto regressou à presidência.

A VIHR é um partido ecologista moderado. No espectro partidário, a ala esquerda tende a posicionar a formação entre os social-democratas e a esquerda, mas a ala direita afirma-se centrista, considerando não se situar nem à esquerda nem à direita do espectro partidário. Por isso, no Parlamento, senta-se à direita do SDP. Do ponto de vista económico-social, existem, assim, no seu seio, perspetivas mais estatistas e mais liberais. Defende, no entanto, a ideia de um rendimento básico universal. Como é óbvio, advoga o fim da energia nuclear e a adoção de medidas favoráveis à transição energética, entre as quais uma progressiva fiscalidade verde. Extremamente liberal em matéria de costumes, defende o casamento LGBTI (o seu líder é assumidamente gay) e a paridade de género a todos os níveis. Por isso, é a favor do fim do serviço militar obrigatório masculino, sendo favorável a um recrutamento seletivo misto, embora o seu objetivo seja torna-lo voluntário para ambos os sexos. Não por acaso, dos 20 lugares parlamentares conquistados nestas eleições, 17 serão ocupados por mulheres. Na política internacional, o partido esteve, inicialmente, muito dividido sobre a adesão à UE e era maioritariamente contrário ao euro. Contudo, gradualmente, foi mudando de posição e hoje é um dos partidos finlandeses mais pró-UE, embora continue a opor-se à adesão do país à NATO.

Os verdes conquistaram eleitores em quase todos os quadrantes, em especial entre os social-democratas, a esquerda, os centristas e os suecos, bem como entre abstencionistas e jovens.

Helsínquia constitui, tradicionalmente, o seu grande bastião eleitoral e, nestas eleições, foi a força política mais votada na capital, onde obteve 23,5% dos votos. Como acontece com a maioria dos partidos verdes, a sua força reside nas áreas urbanas e a VIHR não é exceção. A região metropolitana de Helsínquia e a área urbana de Tampere, representadas nas circunscrições de Uusimaa e de Pirkanmaa, respetivamente, foram outras regiões onde ultrapassou os dois dígitos percentuais, a par com a mais rural Finlândia Central, onde beneficia da boa implantação em Jyväskylä, a sua principal cidade. Já em Turku, no Sudoeste, a sua prestação não foi tão positiva como nos outros centros urbanos de maior dimensão, fruto da boa prestação da esquerda nessa região. Por outro lado, os seus piores resultados ocorreram nas áreas costeiras do Oeste, em especial nos círculos eleitorais de Vaasa e de Satakunta.

A VIHR registou uma forte subida em todo o país. Foi nas regiões onde possui menor implantação que registou os maiores acréscimos percentuais, embora possamos estar na presença de algum efeito estatístico. Destaque para a Lapónia, onde quase quadruplicou a sua votação (de 2,6 para 9,7%), fruto da ameaça que as alterações climáticas constituem para a zona ártica, e nas circunscrições mais rurais do Oeste e do Leste. Em contrapartida, nos círculos mais urbanos, onde sempre foi mais forte, o crescimento foi menor, mas com acréscimos entre 20% e 35% face ao eleitorado de 2015. A exceção foi a circunscrição do Sudoeste, onde ficou pouco acima dos 5%.

Aliança de Esquerda (VAS)

Também a Vasemmistoliitto, sob a liderança da jovem Li Andersson, uma sueca falante de 31 anos, registou uma subida neste ato eleitoral, embora com menor amplitude que a dos verdes. O maior partido da esquerda finlandesa obteve 8,2% dos votos válidos e 16 lugares parlamentares, quando, em 2015, se ficou pelos 7,1% e 12 eleitos.

A VAS foi fundada em 1990, sendo, na prática, a sucessora da antiga Liga Democrática Popular Finlandesa (SKDL), que tinha como principal formação o Partido Comunista da Finlândia (SKP) e esteve ativa entre 1944 e 1990.

O SKP foi fundado em 1918, após a guerra civil, a partir de uma cisão no seio do SDP por parte da sua fação simpatizante com os bolcheviques. O partido foi ilegalizado e assim se manteve até 1944, embora, nos anos 20, tenha disputado eleições com outras roupagens.

Após a derrota finlandesa na chamada Guerra da Continuação face à URSS, os comunistas passaram a atuar na legalidade e tomaram parte no primeiro governo do pós-guerra. Criaram, então, a SKDL, onde o partido era a força dominante, apesar de nele se integraram várias organizações de esquerda, como o Partido Socialista Unido (SYP), formados por dissidentes do SDP, que discordaram do apoio dos social-democratas à referida campanha militar. Dele fazia parte Mauno Pekkala, que liderou o executivo entre 1946 e 1948.

A SKDL obteve um significativo apoio popular, tornando o SKP um dos maiores partidos comunistas durante o período da “guerra fria”. Nas disputadíssimas eleições de 1958, foi a mais votada com 23,2% dos sufrágios, mais 0,1% que o SDP e os centristas. Contudo, só em 1966 voltou à área do poder, onde se manteve durante dois períodos (1966-71 e 1977-83), quando integrou coligações governamentais de centro-esquerda com social-democratas e centristas.

Entretanto, o esmagamento da “primavera de Praga” pelas tropas soviéticas, em 1968, provocou divisões internas no seio do SKP, entre a ala renovadora e a pró-soviética. Em 1986, dá-se a expulsão dos principais membros desta última, que formam uma coligação, denominada Alternativa Democrática (DEVA). O partido dissolver-se-ia em 1990, no seguimento do colapso da URSS e do “bloco de Leste”, acabando por aderir à nova aliança de esquerda.

A VAS não tem tido vida fácil, pois, devido às diferentes origens políticas dos seus membros, é frequentemente atravessada por divergências internas, que foram responsáveis por algumas cisões, tanto à direita (na maioria dos casos, em direção aos social-democratas), como à esquerda (levando à criação de novas formações, entre elas um novo SKP, mas com uma implantação muito residual na sociedade). Integrou os dois governos do social-democrata Paavo Lipponen, ambos baseados numa chamada “coligação arco-íris”, que incluía, além do SDP, da VAS e da VIHR, o KOK e o SFP, entre 1995 e 2003, deixando de fora o KESK e os Cristãos-Democratas (KD).

Voltaria a integrar o executivo do liberal-conservador Jyrki Katainen, atual comissário europeu, em 2011, juntamente com os mesmos partidos e, agora, o KD, deixando, mais uma vez, os centristas na oposição, a par com a direita populista. Esta opção valeu fortes críticas da ala esquerda da VAS, que acabaria por abandonar a coligação governamental em 2014, em choque com o orçamento austeritário apresentado pelo então primeiro-ministro. Na última legislatura, opôs-se tenazmente às políticas austeritárias e às reformas regressivas de Sipilä, denunciando a promiscuidade do chefe do governo com os seus negócios pessoais. A eleição de Li Andersson deu alguma frescura à formação, que melhorou ligeiramente o seu resultado nas autárquicas de 2017, algo que se confirmaria neste ato eleitoral.

O seu programa não difere muito das linhas programáticas do Bloco de Esquerda. Assim, o partido defende o aprofundamento da democracia, o que implica a luta contra o capitalismo global, de forma a garantir o controlo do poder económico pelo poder político. Defende, então, uma economia ao serviço das pessoas, com impostos progressivos sobre o rendimento, a defesa dos serviços públicos, o investimento na educação e na saúde, um maior apoio aos idosos e a luta contra a pobreza e as desigualdades sociais, através da instituição de um rendimento mínimo garantido. Advoga, ainda, a reversão dos cortes orçamentais de Sipilä e das suas políticas penalizadoras dos desempregados, bem como um maior apoio às pequenas empresas e aos trabalhadores independentes.

Apoia as lutas feministas e antirracistas, sendo contrário a qualquer tipo de discriminação baseada no género, orientação sexual ou etnia. É favorável à imigração, ao acolhimento de refugiados e à concessão dos benefícios do Estado Social a todas as pessoas que residam no país. A defesa do ambiente é um dos pontos-chave do seu programa, sendo partidário da promoção de um desenvolvimento sustentável, advogando, por isso, políticas que contribuam para a luta contra as alterações climáticas e os seus efeitos e para a transição energética, mas sem penalizar os mais pobres, de forma a não aumentar a crescente desigualdade entre os cidadãos. Uma das medidas que propõe é o investimento público na ferrovia e o apoio a pequenos projetos empresariais que contribuam para a sustentabilidade ambiental. A nível internacional, o partido opõe-se à NATO, mas está dividido sobre a UE. Apesar de nele existir uma fação eurocética, a sua posição oficial é de apoio à transformação da UE, de um instrumento de imposição de políticas austeritárias ao serviço do capital numa organização respeitadora da soberania dos povos e empenhada na construção de uma Europa Social e Verde, sendo particularmente adepto da criação de um chamado “New Deal Verde”.

Conseguiu aumentar a sua votação, graças a votos conquistados a pequenos partidos de esquerda, aos social-democratas e, em menor grau, a centristas, suecos abstencionistas e jovens, que compensaram, com vantagem, algumas perdas para os verdes, os social-democratas e a extrema-direita.

A VAS continua a obter os seus melhores resultados nas regiões menos prósperas do Norte (circunscrições da Lapónia e Oulu), embora estas já não sejam os bastiões de outros tempos. Seguiu-se o círculo do Sudoeste, uma área predominantemente urbana, de onde é natural Li Andersson, nascida em Turku, e em Helsínquia. Nas regiões centrais do país, os resultados estão, em geral, próximos da média nacional, com pequenas variações, para cima ou para baixo. Como habitualmente, teve os seus piores desempenhos nos círculos de Vaasa (Centro-Oeste), maioritariamente habitado por suecos, mas onde não logrou capitalizar a origem étnica da líder, do Sueste e, algo surpreendentemente, de Uusimaa, na periferia da capital. A debilidade nesta, a mais populosa do país, impede o partido de aumentar a sua votação nacional e, consequentemente, a sua representação parlamentar.

Relativamente às últimas eleições, o partido cresceu em todo o país, embora de forma algo desigual. O maior acréscimo percentual ocorreu na circunscrição do Sueste, embora este se deva ao efeito estatístico de um resultado muito baixo em 2015. Seguiram-se o Sudoeste, em grande parte pela popularidade da líder na área, e algumas regiões do Centro-Sul e Leste do país (círculos eleitorais da Finlândia Central, Savónia-Carélia e Häme). Ao invés, pouco cresceu na Lapónia e nas áreas ocidentais do Centro-Sul (circunscrições de Satakunta e Pirkanmaa). Embora tenha crescido um pouco mais em Uusimaa, o acréscimo aí registado face ao último ato eleitoral não chegou aos 10%.

Partido do Povo Sueco da Finlândia (SFP)

O Svenska folkpartiet i Finland (SFP), em finlandês Suomen ruotsalainen kansanpuolue (RKP), registou uma pequena descida da sua votação nestas eleições, passando de 4,9% em 2015 para 4,5% agora. Porém, conservou os nove lugares de que já dispunha. A esses, haverá que juntar o representante de Åland, eleito na base de uma ampla coligação de forças políticas locais e que se junta sempre à bancada parlamentar do SFP. A sua líder é Anna-Maja Henriksson.

Estamos em presença de um dos mais antigos partidos políticos existentes no país, formado em 1906, com o objetivo de defender os interesses da minoria sueca da Finlândia, que, à época, somava cerca de 15% da sua população. Uma das suas grandes pretensões foi obtida com a consagração oficial do bilinguismo na Constituição de 1919. Inicialmente bastante conservador, tendo alinhado com os “brancos” durante a guerra civil, foi-se deslocando para o centro nos anos 20, quando percebeu que tinha vantagem em cooperar com a esquerda, face à crescente agressividade do movimento nacionalista finlandês. Foi, então, evoluindo para posições mais liberais.

Entretanto, o SFP viu a sua base de apoio diminuir à medida que se ia reduzindo, igualmente, a percentagem de suecos no conjunto da população finlandesa, já que muitos deles emigraram para o país vizinho, mais rico e onde adquiriam facilmente a nacionalidade. Hoje, o seu peso percentual é metade do de há 100 anos atrás. Apesar da sua reduzida dimensão, integrou praticamente todos os governos finlandeses, em especial após 1944. Entre 1956 e 2015, esteve sempre representado em diferentes coligações governamentais, lideradas tanto pelos social-democratas como pelos centristas ou pelos liberal-conservadores. Uma situação que lhe garantiu, em troca, a preservação da língua e cultura suecas, com destaque para a sua obrigatoriedade como segunda língua no sistema de ensino. Em 2010, o Partido do Povo Sueco, acrescentou “da Finlândia” à sua designação, de forma a mostrar à extrema-direita que são cidadãos nacionais e não uma “quinta coluna” da Suécia no país.

Sendo, essencialmente, um partido étnico, não tem posições muito definidas sobre os grandes temas, até porque existem diferentes perspetivas entre os seus apoiantes urbanos, mais liberais, e rurais, mais conservadores. Contudo, podemos considera-lo um partido liberal, em cujo grupo se integra a nível europeu e internacional. Defende a economia de mercado, a livre iniciativa, a redução dos impostos como forma de estímulo à economia e opõe-se à redução das garantias individuais no combate ao crime económico e financeiro. Nos costumes, é relativamente liberal, defendendo o casamento e a adoção por parte dos casais LGBTI, embora essa posição não seja partilhada pelos seus apoiantes mais conservadores. Manifesta, ainda, algumas preocupações ambientais. Na política externa, é abertamente pró-UE e defensor da adesão da Finlândia à NATO, embora advogue o aumento da cooperação entre os países nórdicos.

Nestas eleições, o partido perdeu algum eleitorado para os social-democratas, os verdes e, em menor grau, para a esquerda, os democrata-cristãos e os liberal-conservadores, apenas tendo ido buscar um pequeno número de centristas.

Como é óbvio, a implantação territorial do SFP coincide com a da minoria sueca. No círculo de Vaasa, onde aquela é maioritária e de onde a sua líder é natural, venceu, conseguindo 21,1% dos sufrágios. Seguiram-se Uusimaa (9,1%), o Sudoeste (5,5%) e Helsínquia (5,3%). No resto do território continental finlandês é praticamente inexistente.

Registou uma subida razoável no Sudoeste (onde teve um acréscimo de 10%) e muito ligeira em Vaasa. Contudo, as perdas registadas na zona de Helsínquia (mais de 10% na circunscrição periférica de Uusimaa e mais de 20% na da cidade) originaram uma ligeira quebra na percentagem nacional de votos da formação.

Cristãos-Democratas (KD)

Com os Kristillisdemokraatit passou-se, de certa forma, o oposto: subiram ligeiramente a sua votação, obtendo 3,9% contra os 3,5% de há quatro anos, mas conservaram os mesmos cinco lugares no Parlamento. O partido é liderado por Sari Essayah, antiga campeã europeia e mundial dos 10000 metros, de ascendência paterna marroquina.

A formação foi fundada em 1958, por um grupo de dissidentes da ala direita do KOK, descontentes com a adoção de ideias liberais por parte dos conservadores, como Liga Cristã da Finlândia (SKL). Contudo, apenas elegeria o primeiro deputado em 1970. A partir daí, esteve sempre representada no Parlamento, embora apenas uma vez tenha ultrapassado, e por pouco, os 5%, e nunca tenha conseguido mais de 10 lugares.

Entrou na coligação governamental de centro-direita de Esho Aho, em 1991, mas abandonou o executivo por discordar da entrada do país na UE Ganhou alguns apoios, no final da década, em resultado de uma subtil mudança programática, que se traduziu numa maior ênfase nas preocupações sociais em lugar de se ficar pelo conservadorismo cultural. Em 2001, adotou, a atual designação. Só voltou à área do poder entre 2011 e 2015, quando integrou a coligação hexapartidária de Katainen e pentapartidária de Stubb.

Estamos em presença de um partido da direita conservadora, cujos militantes são, em geral, membros da Igreja Luterana local (cujos responsáveis declaram, no entanto, não apoiar nenhuma força política) ou de outras igrejas protestantes, incluindo as neopentecostais. Não surpreende, assim, a sua orientação social-conservadora, com posições extremamente reacionárias em matéria de costumes. Assim, apenas admite a legalização do aborto em caso de perigo de vida para a mãe. No que se refere aos casais LGBTI, opõe-se, não apenas ao casamento, mas também à consagração legal das respetivas uniões, e é favorável à proibição da adoção e da inseminação artificial, não apenas por parte daqueles, mas também das mães solteiras. Considera importante apoiar a família e as pequenas comunidades, que apelida de pilares da sociedade. É, ainda, contrário à liberalização das bebidas alcoólicas de média graduação.

No plano económico, afirma ter preocupações sociais, defendendo a iniciativa privada no quadro de uma economia social de mercado. Contudo, se entende ser obrigação da sociedade, no seu conjunto, a satisfação das necessidades básicas de todos, considera existir, igualmente, uma responsabilidade individual para com o coletivo. Declara, ainda, defender o ambiente e a natureza. No plano externo, opôs-se à adesão à UE e ao euro, mas passou a aceitar a integração a partir do início do século, quando aderiu ao PPE, e é contra a adesão à NATO. Ao mesmo tempo, é um grande apoiante de Israel.

Ganharam votos aos centristas e aos suecos, que compensaram ligeiramente a perda de votantes para a extrema-direita e, em menor grau, os conservadores.

Os KD estão melhor implantados nas zonas rurais conservadoras, não surpreendendo que a sua melhor votação tenha ocorrido na circunscrição da Savónia-Carélia, no Leste do país, seguida da de Vaasa, no Centro-Oeste. Contudo, também teve um desempenho acima da média nos outros círculos eleitorais do Centro e Centro-Sul do país, que intercalam áreas rurais com urbanas (Finlândia Central, Häme e Pirkanmaa). Ao invés, revela grande debilidade nas áreas remotas do Norte (Lapónia e, em menor grau, Oulu), tradicionais bastiões da esquerda laica, e nas áreas urbanas do Sul, em especial na capital e na região do Sudoeste.

Quanto à evolução da sua votação, o partido registou uma grande subida em Oulu, onde quase duplicou a sua votação, provavelmente beneficiando do incidente acima referido, dada o seu discurso moralista, e nos círculos eleitorais onde foi mais votado. Nos de Helsínquia e Uusimaa, registou ganhos residuais. Nos restantes, perdeu eleitorado, embora só na circunscrição do Sudoeste tenha registado uma quebra significativa.

Movimento Agora (Liike Nyt)

Estamos em presença de uma formação liberal-populista, formada pelo antigo deputado da Coligação Nacional, “Hjallis” Harkimo, antigo velejador, empresário na área do desporto e presidente de um clube de hóquei no gelo, o desporto mais popular do país. Foi apresentador da versão local do programa televisivo The Apprentice, que, nos EUA, foi apresentado por Trump, e tornou-se, recentemente, youtuber, satirizando a classe política.

Após ter abandonado o KOK, em 2018, fundou o Liike Nyt como movimento cívico. Não o tendo conseguido registar como partido, foi obrigado a recolher assinaturas nas várias circunscrições eleitorais, tendo as suas listas ou com ele aparentadas concorrido em dez delas. Obtiveram, em conjunto, 2,2% dos votos e conseguiram eleger um deputado, o próprio Harkimo, em Uusimaa.

Foi nesse círculo eleitoral que o Movimento Agora obteve o seu melhor resultado, com 4,5% dos votos, logo seguido de Helsínquia, com 3,5%. Aliás, as suas listas registaram, em geral, os melhores resultados nas áreas urbanas e suburbanas, tendo ido buscar votos a quase todas as opções, embora a grande maioria tenha vindo de eleitores centristas, de pequenos partidos e da abstenção.

Futuro Azul (SIN)

Para além do KESK, o Sininen tulevaisuus, criado pelo antigo líder do PS e ainda ministro dos Negócios Estrangeiros, Timo Soini, em 2017, na sequência do triunfo de Halla-aho na eleição interna daquela formação, foi outro dos grandes derrotados deste ato eleitoral, obtendo apenas 1,0% dos votos válidos e não conseguindo manter a representação parlamentar.

Após os dois principais membros da coligação de Sipilä (KESK e KOK) terem decidido romper a coligação com os PS, após a ascensão da nova liderança, que puxou o partido para a extrema-direita, Soini e cerca de metade do grupo parlamentar abandonaram o partido e criaram a Nova Alternativa (uv), que se manteve no executivo.

No final daquele ano, a uv daria origem ao SIN, um partido de orientação nacional-conservadora, tendo como líder o ministro dos Assuntos Europeus, Sampo Terho. Contudo, a impopularidade do governo e o facto de ter perdido a esmagadora maioria do eleitorado mais radical, que se manteve fiel aos Finlandeses Comuns, sem ter atraído eleitores da direita moderada, deixou-o sem espaço político e conduziu-o ao desastre.

Que hipóteses de coligação governamental?

Apesar da cultura política de compromisso que vigora no país, permitindo, como vimos, a existência de amplas coligações, envolvendo forças políticas de direita e de esquerda, não será fácil formar um executivo estável, já que existem divergências consideráveis entre os dois campos.

Para já, sabe-se que Antti Rinne, líder do SDP, será convidado a formar governo. E também é muito provável que, após esta esmagadora derrota eleitoral, o KESK queira passar à oposição. Por outro lado, à exceção dos centristas e dos democrata-cristãos, todos os restantes partidos recusaram, durante a campanha, fazer alianças com a extrema-direita.

Não havendo uma maioria de esquerda (SDP, VIHR e VAS têm apenas 76 dos 200 lugares), é provável que aquele tente um acordo com o KOK, que, com 114 deputados (ou 124, se a ele se juntasse, também, o SFP e o representante de Åland), teria uma confortável maioria. Contudo, as divergências relativamente à reforma do sistema de saúde, que levaram à queda do gabinete de Sipilä, e a reversão das políticas austeritárias e de algumas medidas regressivas deste em matéria laboral, exigidas pela esquerda, terão a oposição dos liberal-conservadores e poderão ser um obstáculo a um entendimento.

Poderia, então, haver um acordo de governo sem a VAS, que englobasse SDP, VIHR, KOK e SFP/ Åland, que garantiria o apoio de 108 parlamentares. Esta será a hipótese mais provável, embora implique cedências, tanto da parte do centro-esquerda como do centro-direita. Dele poderiam fazer parte, ainda, os KD, o que daria 113 deputados, embora tal não pareça muito provável.

Caso SDP e KOK não cheguem a um entendimento, dificilmente Rinne terá êxito na sua missão. Nesse caso, seria indigitado Jussi Halla-aho, líder do PS, mas, como referimos acima, não conseguiria obter uma maioria, já que, mesmo que obtivesse o apoio do KESK, do KD e do Movimento Agora, não iria além dos 76 deputados.

Passar-se-ia, então, à terceira opção, com a possibilidade de o líder do KOK, Petteri Orpo, formar um governo minoritário, com o apoio parlamentar da extrema-direita, dos centristas e, eventualmente, dos democrata-cristãos e dos liberal-populistas, numa “geringonça” direitista à dinamarquesa, o que lhe permitiria ter ao seu lado entre 108 e 114 parlamentares.

Se nenhuma destas soluções for possível, haverá novas eleições a curto prazo. Mas tudo indica que a cultura de compromisso finlandesa irá prevalecer e brevemente será encontrada uma nova solução governativa que resolva mais este “thriller” nórdico.

Artigo de Jorge Martins para esquerda.net

Sobre o/a autor(a)

Professor. Mestre em Geografia Humana e pós-graduado em Ciência Política. Membro da coordenadora concelhia de Coimbra do Bloco de Esquerda
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