Fernando Rosas critica corrida ao armamento e ambiente “mccarthista”

26 de março 2022 - 13:28

O clima em que “ou se papagueia o que diz a NATO ou é-se um agente de Moscovo” é difícil para a esquerda considera o fundador do Bloco que justifica ainda a posição do partido de lutar “contra os diversos imperialismos”, de condenar a invasão russa e manifestar solidariedade com o povo da Ucrânia.

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Fernando Rosas num comício do Bloco em 2019. Foto de Paula Nunes.
Fernando Rosas num comício do Bloco em 2019. Foto de Paula Nunes.

Em entrevista ao Público, Fernando Rosas considera que “os efeitos da agressão russa à Ucrânia são muito pesados” e vão ser “muito longos”. Entre eles estão a “corrida aos armamentos” e “esta espécie de ambiente “mccarthista” que está estabelecido”, um cenário “muito favorável à extrema-direita” e “difícil para a esquerda” mas que “não é uma situação desesperada” porque “a esquerda criou uma base social”.

Com a expressão “ambiente mccarthista” o historiador quer dizer que “quem tenta contextualizar, quem tenta colocar isto no quadro de um mundo onde não há só um imperialismo bom e um imperialismo mau, é um agente de Moscovo. Quem não aceita ser um mero papagaio da NATO é considerado um russófilo. E esse ambiente que é típico do “Mccarthismo”, há o preto e há o branco e se não és preto ou branco és branco ou és preto é um ambiente muito perigoso para a Europa”.

Fernando Rosas pronunciou-se igualmente sobre os perigos económicos do conflito que “vai mergulhar” o continente “num período em que se junta a estagnação à inflação” com um “disparar incontrolável”. E é a este contexto que se junta uma “corrida ao armamento de consequências imprevisíveis”, salientando-se a “gravidade enorme” da Alemanha passar a utilizar 2% do PIB para rearmamento.

O fundador do Bloco diz que este tipo de corrida “é uma coisa péssima porque é o prefácio da guerra”. Para ele, “a paz na Europa não se consegue montando um arsenal militar gigantesco de um lado e um arsenal militar gigantesco do outro”. Isso “é um equilíbrio de terror.” Ao contrário da escalada militarista, opina que um futuro acordo de segurança na Europa tem de garantir a independência da Ucrânia “e uma solução que dê alguma segurança à Rússia relativamente à concentração de armamento nuclear nas suas fronteiras”. E ilustra: “se o México um dia pertencesse a uma aliança militar com a China e pusesse mísseis no seu território, pode ter a certeza que os Estados Unidos não ficavam a olhar para aquilo, como não ficaram a olhar em Cuba em 1962”.

Um dos outros efeitos da guerra “é o sacrifício da Europa como zona autónoma do ponto de vista estratégico”. Daí que, ao contrário de Putin que “não sabe” como há-de sair da guerra, “os americanos não dispararam um tiro” mas “são os grandes vencedores desta guerra” porque se tornaram “a potência hegemónica da Europa”.

Sobre as posições políticas à esquerda face à invasão, Fernando Rosas salienta que “não há nenhuma justificação possível para a invasão de um país independente à luz do direito internacional e da moral e não há nenhuma desculpa para a não solidariedade com o povo da Ucrânia”. É nesse campo que situa a posição do Bloco “na luta contra os diversos imperialismos”. Uma posição que apesar da sua condenação clara da invasão não deixa de sofrer do ambiente que já referira em que “ou se papagueia o que diz a NATO ou é-se um agente de Moscovo”.