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Feminismos e contra-feminismos - entre teoria e prática

Extirpar das sociedades códigos e signos patriarcais implica muito trabalho, mas implica igualmente uma maior articulação, empatia, e um melhor diálogo. Artigo de Soraia Simões.
Foto de gaelx/Flickr

Assinalou-se a 25 do presente mês o Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres. Um dia que, ao mesmo tempo que nos relembra o assassinato das irmãs Mirabal – las Mariposas – vítimas da ditadura de Trujillo a 25 de Novembro de 1960, nos alerta para o facto de todos os anos um número incompreensível de mulheres serem mortas, também em Portugal, por violência doméstica e de diariamente se observarem vários tipos e graus de femicídio; diversos níveis de sofrimento serem infligidos a vítimas, na sua maioria, do sexo feminino. Incrivelmente, este ano, foram vinte e quatro as mulheres mortas pelos seus companheiros no nosso país, apesar do número crescente de instituições, de associações e de movimentos em defesa das mulheres, ou de uma aparente maior sensibilização e discussão pública em torno deste tema. Sobre isto deveríamos reflectir.

Sabemos hoje que os tribunais se confrontam com dificuldades no tratamento adequado e na aplicação de leis para este crime, e que em variadíssimos dos casos não existem testemunhas presenciais, para além da testemunha vítima.

Também sabemos, ou deveríamos, que extirpar das sociedades códigos e signos patriarcais implica muito trabalho, mas implica igualmente uma maior articulação, empatia, e um melhor diálogo entre estas entidades, organizações e instituições, que de facto poucas vezes verifico.

Não raras vezes estas se isolam em conceitos opacos, que legitimam as suas presenças e os orçamentos que as mesmas, nos seus “projectos institucionais”, acarretam? Existirá sempre uma diferença significativa entre os corpos que vivem na cabeça, são só teóricos, e os corpos que sofrem; uma excessiva tentativa de teorização poderá também estar a um passo da desmaterialização dos próprios conceitos, no limite até das causas e/ou missões? Talvez sim, talvez não. Tudo dependerá do caminho seguido para atingir o resultado da erradicação da violência às mulheres.

Há dias, ao debruçar-me na minha intervenção para uma jornada em torno dos papéis de algumas mulheres no cruzamento da literatura e de outras artes, para a qual fui convidada pelo CHAM, e que acontecerá na FCSH NOVA no dia 13 de Dezembro, lembrei-me do termo backlash usado pela jornalista Susan Faludi em 1992.[1] A expressão pretendia dar ênfase à existência de um contra-feminismo em relação aos direitos das mulheres, que começou a ganhar forma nos anos setenta. Esta contra-reacção, orquestrada por uma máquina poderosa, comunicação social incluída, declarava que a independência e o poder alcançados pelas mulheres teriam revertido não a favor mas contra as mulheres.

Como nas canções antigas, também os movimentos iniciados ou com uma maior expressão no último quartel do século XX podem sofrer o extraordinário impacto do presente. Quem neles hoje se revê nem sempre reflecte sobre o que foram naquele contexto histórico, replica-os, mas há quem o faça. Quem reflecte hoje sobre o que foram naquele contexto forma inevitavelmente uma opinião. Como prefaciou Elke Heidenreich em As Mulheres que lêem são perigosas, de Stefan Boollman, «quem tem uma opinião pode dissidir, quem se torna dissidente passa a ser inimigo».

Camille Paglia em Sexual Personae: Art and Decadence from Nefertiti to Emily Dickinson (1990) definiu-se como uma «feminista anti-feminista». Na sua tese, as mulheres não ganhariam nada em buscar nas formas artísticas aquilo que tinham na sua condição natural; o serem «biologicamente superiores» por poderem gerar outros seres. Logo, segundo a autora, as mulheres procuram na arte substitutos para a sua «natural capacidade» de gestação/criação.

Os feminismos baseados nas desigualdades culturais e não biológicas foram amplamente criticados por Plagia, segundo ela as mulheres afirmam-se e respeitam-se na sua condição feminina por causa da cultura e da sociedade, esquecendo por completo que a influência de ambas é mais injusta e difícil para o sexo feminino do que para o sexo masculino.

O certo é que há, ainda hoje, uma corrente que defende que os direitos e garantias da mulher estavam já garantidos, há muito, pela «primeira vaga feminista», pelas suas lutas e conquistas e por elas se deveriam as feministas guiar. É a mesma corrente que desvaloriza o trabalho, por muito e assinalável que seja, de instituições e grupos de trabalho feministas que questionam os feminismos nas suas distintas correntes. Essa corrente propõe um retorno a «referências inabaláveis» do século anterior, sem as questionar. Fundamenta-se numa ideologia conservadora, virada para si, individualista, descobre e alimenta os meios de comunicação social também eles suportados pelo mundo capitalista. Parece-me tão perigosa esta, como a ideia das «naturais capacidades» femininas, segundo a biologia, aflorada por Plagia.

É a corrente que ao mesmo tempo que reclama que os corpos podem falar por si, sem emitirem qualquer palavra, os consegue esvaziar de significado com a sua teorização excessiva dos «corpos femininos», que contribui para a sua desmaterialização.

É certo que se o contributo de pensamentos que colocaram em causa o velho «corpo político» defendido por Platão, Cícero, Hobbes, entre outros, e o converteram em novos significados e metáforas como a «política do corpo», no qual ele passa a ser uma entidade politicamente inscrita e a forma que ele assume condicionada, vigilada, controlada, violada, abusada, ferida, foram, são e serão, de enorme relevância. Não serão, contudo, nada se continuarmos a pegar na narrativa da materialidade do corpo, do corpo como uma «fronteira variável», «uma superfície politicamente regulada» ou «uma prática com significado num campo cultural de hierarquia de géneros», como nos propõe Judith Butler em Bodies That Matter: On The Discursive Limits of Sex (1993), sem que outros corpos, que nos contam outras experiências, consigam intervir.

O meu receio é que essa mesma corrente corra o sério risco de não representar ninguém a quem se diz destinar. Que seja apenas uma representação teórica de si mesma.


Notas

  1. ^ Faludi, Susan 1992 Backlash.The Undeclared War against American Women. Nova Iorque, Doubleday.

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