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Feminismo e internet: as fronteiras para o livre saber

Universidade Livre Feminista lança ciclo de debates sobre as possibilidades (e limitações) do ativismo e formação política nas redes: as barreiras físicas ao acesso democrático – e as disputas de espaço com o discurso de ódio, racista e machista.
Feminismo e internet: as fronteiras para o livre saber
Trabalho de Fatma Mahmoud Salama Raslan.

O isolamento social abriu-nos um leque imenso de possibilidades de formação virtual, incluindo as que tratam de temas feministas. Ironicamente, a Universidade Livre Feminista (ULF), que promove esse tipo de formação há 10 anos, viu-se num período de reflexão interna. A Rede de Colaboradoras, que hoje reúne mulheres de todo o Brasil dedicadas a fazer o projeto acontecer, está a fazer um debate sobre os desafios colocados para a ULF. Qual o lugar e o papel da formação feminista na internet hoje?

A Universidade Livre Feminista foi gerida inicialmente pelo CFEMEA com o sonho de que esse espaço virtual de formação política de e para mulheres feministas, comprometidas com lutas pelo fim das desigualdades raciais, sociais, de classe, regionais, ambientais que tanto assolam a nós brasileiras fosse ampliado e apropriado por outros coletivos. Assim, desde 2009, a Universidade Livre Feminista cresceu com a presença de outras organizações, em especial o SOS Corpo – Instituto Feminista para a Democracia (sediado no Recife) e a Cunhã – Coletivo Feminista (sediada em João Pessoa). E, nos últimos anos, conta com uma Rede de Colaboradoras, formada por ativistas de todo o país dispostas a contribuir com o projeto.

A iniciativa partia do sonho de promover a troca de saberes entre mulheres de todo o país, documentar as produções artísticas, políticas e académicas de mulheres envolvidas na ação política feminista, além de apoiar a organização e a mobilização dos diferentes movimentos de mulheres. A internet era um horizonte convidativo para algo nesse sentido, pois estava em franca transformação e repleta de possibilidades. Para construir o projeto, bebemos da fonte do que os movimentos de mulheres construíram como pedagogia feminista. A sua principal característica é que ela baseia-se na valorização da experiência, na construção de espaços de confiança e ambientes de partilha e escuta.

E a pedagogia feminista tem uma referência inegável na educação popular e nas reflexões de Paulo Freire, mas também das teorias feministas e na experiência das organizações que lutaram desde a democratização do país pela igualdade de direitos. São princípios caros dessa pedagogia feminista e popular, a dialogicidade, a autorreflexão, a integração entre corpo e mente, a preocupação com o cuidado e o autocuidado, assim como a criação de espaços de troca horizontais e acolhedores. Assim, a proposta da Universidade Livre Feminista não se baseia na ideia de transmissão de conteúdos, mas sim no compartilhamento de ideias, pensamentos e conhecimentos, construídos ou a construir-se. É o encontro entre as mulheres, na sua diversidade, que constrói novos conhecimentos, pela troca de ideias e de saberes, pela coletivização do pensar.

O Facebook havia surgido em 2004 e outras plataformas estavam a transformar as formas de comunicação que conhecíamos – a chamada web 2.0. Havia caminhos possíveis para tornar as ferramentas digitais mais acessíveis e democráticas. E o feminismo pautava a construção de uma internet feminista. De lá para cá, foram inúmeras mudanças políticas. E no contexto virtual, foram criados diversos blogs feministas, mas que logo foram dando lugar às páginas de facebook, canais no Youtube e influencers no Instagram e no Twitter.

A maioria das iniciativas de sucesso parecem estar em paz com as plataformas que ocupam. Facebook, Instagram, Twitter, Youtube definem as suas próprias regras de funcionamento interno e que, não raro, são antifeministas. O Whatsapp, principal meio de acesso a informações de muitas pessoas, está inundado de redes de fake news que determinam o jogo político. Isso sem falar nas diversas violências de género e de raça e discursos de ódio que continuam sendo disseminados na rede. Uma formação política feminista antirracista pode dar-se por esses meios?

Ao longo dos seus dez anos de existência, a Universidade Livre Feminista deparou-se com as diferentes relações das mulheres com as tecnologias digitais e os limites da sua proposta diante da realidade brasileira. O Brasil teve um aumento expressivo do acesso à internet. Entre 2005 e 2018, o número de domicílios brasileiros com acesso à internet subiu de 21% para 67% (TIC, 2005 e 2018). Mas apesar desse aumento, os serviços expandem-se de forma precária, em um país marcado por desigualdades regionais, de classe, raça, género e escolaridade.

Talvez muitas mulheres que leem o site Outras Palavras estejam em casa, com acesso à internet via Wi-Fi. No entanto, à medida que criamos formações feministas que incluíam mulheres populares, que moram em cidades fora das capitais, deparamo-nos com uma forma completamente diferente de acesso. Na pesquisa que lançámos este ano sobre o tema – “Nas rodas e nas redes: uso da internet por mulheres de movimentos populares” – apresentamos os dados sobre acesso nas periferias, nas cidades do norte e nordeste deste país, da floresta ao litoral. Mas não só isso. Prestamos atenção às falas, às teorias e práticas das mulheres e seus territórios.

As vivências de mulheres que fizeram parte de cursos da Universidade Livre Feminista, falam muito sobre o funcionamento de aplicações e sobre como a tecnologia se relaciona com a nossa saúde mental. Então o que encontramos não foi só falta de acesso. Não é que a internet não chegue. Mesmo ali, onde o sinal só funciona num determinado lugar, as mulheres acessam conteúdos que alimentam suas resistências cotidianas. Ao mesmo tempo, tem que aprender a mexer nas novas ferramentas, a gerir o tempo de acesso com as outras exigências da vida.

Chegámos aos nossos dez anos de Universidade Livre Feminista querendo saber como podemos contribuir para não só compartilhar conteúdos feministas, mas para lembrar que também é preciso refletir sobre como os debates acontecem, quais são as formas de acesso das mulheres e de que formas as informações são partilhadas. Queremos explorar de maneira contra-hegemónica as novas possibilidades que elas trazem para as experiências de educação e articulação política e também sobre as suas limitações.

Em meio desta pandemia, vimo-nos diante do maior desafio desta jornada, de como aproveitar todas as reflexões que fizemos ao longo do tempo para contribuir com esses outros projetos e, ao mesmo tempo, recuperar o fôlego para continuar fazendo dele um projeto possível. Por isso, estamos realizando uma série de debates sobre temas como educação feminista à distância, redes sociais e segurança digital. Na semana que vem, também vamos começar a compartilhar alguns conteúdos para quem está a chegar ao feminismo no nosso perfil do Instagram, tentando atender a uma procura constante de quem quer começar a entender melhor o tema e não sabe por onde começar. No futuro, esperamos compartilhar publicações que sistematizam as experiências desses anos de existência.

E quem sabe com isso, incentivar que voltemos a sonhar com uma internet livre, acessível a todas as pessoas e com princípios feministas.


Artigo de CFEMEA, publicado na coluna Baderna Feminista do site Outras Palavras. Adaptado a português de Portugal por Érica Almeida Postiço.

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