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Fascismo empreendedor

O culto do egoísmo e da não solidariedade tem muito em comum com o espírito deste capitalismo hi-tech. Por Luís Martinho.
Foto Lorie Shaull/Flickr

Durante os últimos dias tivemos o anúncio de Marine Le Pen como oradora na Web Summit em Lisboa, cuja participação foi cancelada duas vezes. Esperemos que desta o cancelamento seja definitivo.

Alguns estranharam. Então que teria para dizer uma “nacionalista” no meio de empreendedores? Pois, quem defende o empreendedorismo normalmente até gosta de um “neoliberalismo” sem fronteiras, pois o “capital não tem pátria”, parecendo de facto contraditório, mas será mesmo assim tão estranho?

Tive o cuidado de ler o que dizia o CEO da web summit, e no meu entendimento dos seus anglicismos de linguagem empresarial cifrada, lá descobri que na Faculdade ouviu dirigentes do Sinn Féin, e que tanto convidou Nigel Farage - o grande dinamizador do Brexit e ex-lider do racista Ukip -, Brad Pascale, guru da Comunicação de Trump ainda em exercício, bem como líderes sindicais, e até anarquistas.

Então, como bom liberal e homem de negócios, Cosgrave apresenta aqui um relativismo moral perigoso, reforçado com o argumento “de que a exclusão levaria a uma vitimização das comunidades que os Right-Wing populists representam” (pode ler-se no site medium.com).

O problema deste relativismo moral é que ele compara o incomparável. Bem sei que que quem ganha a vida a fazer discursos redondos sobre motivação e inspiração, e num mundo em que não existe capitalismo mas “economia de mercado”, e onde não há fascismo apenas “autoritarismo” ou “nacionalismo”, isto pareçam coisas menores, mas não são.

Marine Le Pen defende que nascer em França não é suficiente para ter a Nacionalidade Francesa, e que imigrantes “ilegais” não podem ter sequer chance para se legalizar, defendendo a sua imediata expulsão. Defende, ainda, um referendo para que serviços essenciais como hospitais sejam utilizados apenas por pessoas de Nacionalidade Francesa, entre outras medidas escabrosas como construir 40.000 celas para encher com aqueles serão perseguidos pelo seu Estado Policial, vendo em cada emigrante um delinquente e o retrocesso na política de asilo.

Estas propostas não podem ser relativizadas e ser comparadas à normal divergência do sistema democrático. Isto não é discutir se o IVA é 23% ou 6% num determinado bem. Isto é a instalação de um regime fascista no coração da Europa, profundamente Racista, Xenófobo, não solidário que vê no outro um inimigo, criando o culto de uma superioridade Nacional e Racial, similar à que assolou a Europa nos anos 30.

Esta é a pedra de toque, este culto do egoísmo e da não solidariedade, tem muito em comum com o espírito deste capitalismo hi-tech que nos é apresentado neste evento, do salve-se quem puder.

Não é por acaso que o neoliberalismo “funcionou” tão bem no Chile de Pinochet, é que ao contrário do que nos vendem os ideólogos liberais, “mais livre o mercado, mais livres as pessoas”, e que o liberalismo não funciona sem verdadeira liberdade individual, ele esteve pujante nesse Chile de má-memória.

Numa lógica empresarial Le Pen era apenas um CEO de uma empresa chamada França e um recurso Humano para falar sobre liberdade nas redes sociais. Cosgrave justificou que queria abordar o ódio e a liberdade de expressão no mundo digital, provavelmente Le Pen viria falar de como os mandriões desses emigrantes, que quase morrem para fugir da guerra, têm pouco valor de mercado e que saem pouco da sua zona de conforto, ou ainda dar um Workshop de como organizar uma “marcha branca” recorrendo às redes sociais.

Assim Cosgrave, e praticamente todos os seus oradores que defendem o Estado como empecilho, receberam um milhão e meio de todos nós, que julgavam que seria para financiar esta boda de conveniência que terminou em Divórcio, mas o alerta foi dado, apesar de dizerem o contrário é mais o que une estes dois ideários do que o que os separa.

Por fim o Governo estima que o impacto da cimeira será de 300 milhões de lucro para a economia, e por mais otimista que possamos ser, afinal falamos de pessoas que geram dinheiro do nada, o que produzem é motivação e inspiração, paga a peso de ouro, parece ser uma estimativa que parece ao estilo das PPP´s rodoviárias.


Artigo de Luís Martinho. Jurista, Mestre em Ciências Jurídico-Financeiras

 

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