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Fórum Social Mundial já começou

Com dezenas de milhares de participantes, o Fórum Social Mundial avança para o terceiro dia. Em Dakar, José Falcão conta ao esquerda.net alguns episódios que testemunhou no início deste grande encontro dos movimentos sociais.
Foto deharris/Flickr

Estamos no terceiro dia do Fórum, que se realiza na Universidade Cheikh Anta Diop, e a confusão do costume: dificuldades em encontrar os programas, que são disputados como se fosse ouro, ateliers sem salas, salas sem ateliers, tendas montadas para suprir estas dificuldades, gente, milhares de pessoas, de um lado para o outro a tentar perceber o que se passa.


[email protected]? 50.000, 60.000? Não se sabe.
 O que é seguro é que estão presentes pessoas de 123 países e que todos os países de África assinaram o ponto, incluindo o Sahara Ocidental. 
Jornalistas? 600, 700? Talvez mais. Destes ninguém de Portugal, excepto o Esquerda.net, a fazer fé nas inscrições da Sala de Imprensa!
 Centenas de stands e bem visíveis, dão uma animação que não vimos noutros Fóruns…



Se a (des)organização é maior que em Fóruns anteriores, segundo os lamentos de alguns participantes e jornalistas presentes? talvez… Mas, pelo menos, o espaço que temos que percorrer é muito menor. Ou seja, o Fórum está mais concentrado, menos disperso pela cidade e isso facilita em muito a procura de alternativas caso não tenhamos encontrado esta sala ou aquele workshop.



Das experiências anteriores, quer em Porto Alegre ou Belém (Paris - FSEuropeu - então ainda foi pior neste aspecto da disperso e desorganização), aprendemos que não valia muito estar a seguir programas e decidido entrar e ir vendo o que se passava e ficando caso valesse a pena e as condições técnicas o permitissem. O stress dos nossos amigos e conhecidos mostra que ainda é a melhor táctica para enfrentar as centenas de reuniões, ateliers e workshops que se encontram à nossa espera. Todos os dias, cerca de 200 ateliers estão previstos, para além das reuniões que se vão marcando...

A MARCHA de 6 de Fevereiro

Como de costume, o Fórum abriu com a realização de uma Marcha. Mas, logo de inicio, vemos as especificidades de que já falámos no texto anterior: enquanto para os organizadores o número varia entre os 50.000/80.000, o ministro do Interior do Senegal é taxativo – 100.000 !!!

Porque esta “simpatia” pelo Movimento Social? Porque Wade esta muito interessado em passar por democrata aos olhos de toda a gente, mesmo que não tenha dado um euro para a organização do Fórum (ou tenha dado muito pouco). Mas a mensagem é clara: enquanto os outros países recusaram, “nós, no Senegal, permitimos que 100.000 pessoas se manifestem...”

No entanto, outra coisa muito mais importante que esta dúvida sobre os números, é a ausência do movimento popular! Sim, o movimento dos arredores da cidade e dos bairros mais populares de Dakar, esteve ausente ou muito pouco participativo. E isto porque (uma das críticas que muitos revolucionários apontam à organização) o apoio à sensibilização e participação das e dos habitantes de Dakar e de outras cidades teve pouco apoio para poder estar na Marcha! É costume, no Senegal, os partidos políticos encherem as concentrações e manifestações com as mulheres e crianças que enfiam nos carros para servirem de figurantes... Para esta Marcha os movimentos verdadeiramente populares, as comunidades de base, não tiveram apoio para uma mais directa e melhor participação…queriam vir mas, para elas, não havia dinheiro para os autocarros, para os transportes...

Lembrar ainda que o SOS Racismo desfilou no cortejo da Rede Panafricana para a Defesa dos Direitos dos Migrantes, com outros camaradas do Togo (MARS), do México, EUA, e muitos outros e outras jovens, sobretudo de Malika...

Kuunaalon Theatre And Choir Group – Gambia
Este é outro exemplo de que nem tudo vai bem no movimento social que se quer alternativo.
Contactados para vir participar no programa cultural e depois de tudo ter sido tratado, à chegada a Dakar, são completamente abandonados à sua sorte, para mais sem estarem preparados para esta eventualidade. Domingo foram obrigados a dormir ao relento, estiveram várias dezenas de horas sem comer e apenas a solidariedade dos vendedores ambulantes, do presidente Libasse (da ass. dos criadores e pastores autênticos), de elementos da Alternativa Senegal e outros activistas nomeadamente do Reseau Panafricano para a Defesa dos direitos dos Migrantes(que se quotizaram e arranjaram local para que os 18 elementos do grupo pudessem dormir) permitiu que, as e os companheiros ficassem no Senegal.
Para quem tem ajudado a resolver este e outros assuntos similares, estas atitudes, por parte da comissão financeira do Fórum, são de difícil compreensão…

O FÓRUM
Imediatamente após a MARCHA, realizou-se uma reunião para preparar a ASSEMBLEIA MUNDIAL DOS MOVIMENTOS SOCIAIS. Este ano o segundo dia foi dedicado a África. A 8 e 9 de Fevereiro será a vez das actividades autogeridas e a 10 e 11 desenrolam-se as diferentes Assembleias de Convergência Temáticas.

Ao contrário de que tem sido costume, em que o Fórum acaba sempre com a Assembleia dos Movimentos Sociais, este ano esta vai realizar-se no dia 10 à tarde. Uma das razões para esta alteração é a de que tem havido algum “mal estar” em Fóruns anteriores por a declaração saída destas Assembleias se tornarem, aos olhos da imprensa mundial, como a Declaração final de cada Fórum. Como o Fórum Mundial não aprova nenhum documento (é um espaço de debate e troca de experiências), esta situação tornava-se ambígua e fautora de algumas crispações tendo em conta os textos que foram saído da Assembleia dos Mov. Sociais. Mas sobre a Assembleia dos Movimentos Sociais vamos ter tempo (esperamos) de falar.

“Lutas Sociais e as Alternativas em Africa” - Malika
Uma vez mais, neste bairro de Dakar, teve lugar outra acção de sensibilização para o Fórum. Se já na semana passada tínhamos ficado impressionados com a actividade de associações da economia informal, a de Sábado passado ultrapassou as expectativas.

Na mesa, além do presidente da Associação de pastores e criadores, que convocava a reunião (e no fim, à meia noite, depois de varias horas de reunião, nos ia oferecer um óptimo jantar), a associação dos “Recuperateurs”, dos “Forgerons”, dos “Coxeurs” e das Mulheres “Bokk Jom” que significa “o mesmo empenhamento”. Também elementos de ass. de Marrocos e de França, do Bloco de Esquerda e o SOS Racismo.

A experiência de organização destas diferentes profissões bem como das mulheres de Malika e a intervenção de outra mulher, a presidente do Comité para o Desenvolvimento Local, sobre a luta contra a Dívida Externa, foi inesquecível. Amadou Dieye (Vendedores ditos ambulantes), com uma intervenção clara de como se organiza a associação, falou dos problemas que tiveram (continuam a ter) com o Fórum, mas, sobretudo, de como este sector informal se tornou incontornável nas conversações com o Governo, obrigado a falar com quem antes não existia e que agora reivindica a sua dignidade enquanto pessoa, enquanto trabalhadora e trabalhador.

Mas as surpresas continuaram pela noite adentro.
Ficamos a saber através do seu representante Niasse, que aqueles que trabalham nas lixeiras (“recuperateurs”), bem como as e os que trabalham nas estações rodoviárias à procura de clientes para este ou aquele autocarro (“coxeurs” - Oumar), ou os artesãos do metal (“forgerons” - Moussa), todas e todos estes trabalhadores lutam pela sua dignidade e se organizam e defendem os direitos que vão reivindicando e que continuam a ser os mesmos que de qualquer outro trabalhador.

Gente com uma capacidade de lutar, de mobilizar e de nos impressionar como já há muito tempo não nos acontecia. Todo um sector da economia informar que quer o direito às prestações sociais, ao crédito bancário, à saúde, à formação, enfim, gente que quer ser gente, que é gente e que tudo faz para que as suas reivindicações sejam ouvidas. Gente que se mobiliza nas piores condições e que luta, sim, gente que não desiste perante as piores condições de trabalho e de existência!

Com gente como esta... é mesmo possível outro mundo!

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Sobre o/a autor(a)

Dirigente da Associação SOS Racismo
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