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Exposição fotográfica sobre a Palestina é inaugurada este sábado

“Sociedade Dividida” é o nome de um projeto sobre países que têm fronteiras dentro do seu próprio território. Uma mostra de fotografias sobre os itinerários da Palestina ocupada pode ser vista a partir deste sábado na Associação Solidariedade Imigrante, em Lisboa. Por Pedro Ferreira
Pormenor da rua conhecida como Apartheid Street, em Hebron.

 Em declarações ao esquerda.net, o responsável por esta iniciativa, Raphael Lima, recorda que um dia, em Belfast, na Irlanda do Norte, deparou com um muro onde em letras negras estava escrito: “Our Divided Society” ( A nossa sociedade dividida). Esta mensagem, espécie de grito de alerta em relação a todos os muros e divisões existentes esteve na base do projeto que começou a delinear e que pretende, através da fotografia, chamar a atenção para a incapacidade de os povos se entenderem na sua diversidade, optando, ao invés, por erguer barreiras e consequentemente os caminhos da intolerância e da violência.

Taxistas aguardam passageiros à saída de um checkpoint em Belém.

Um mês depois da viagem à Irlanda do Norte, Raphael Lima partiu para a Palestina e ao avistar um muro na Cisjordânia que, desde 2002, separa os territórios palestinianos de Israel tomou a decisão de se entregar a este projeto que o levou já a visitar Hebron, Belém e Ramallah.

Depois da Palestina, Rapahel Lima já esteve na Ilha de Chipre e prepara já outra viagem pelas Repúblicas da ex-Jugoslávia.

O jornalista e fotógrafo, afirma que o trabalho que está a fazer tem como intuito dar a conhecer as regiões do mundo onde a divisões motivada por razões de natureza política, cultural e social marcam a vida das pessoas, levando-as, muitas vezes, a extremarem posições que potenciam conflitos sangrentos que podiam ser resolvidos através do diálogo e de um entendimento que só não se concretizam por falta de vontade política.

Uma imagem, vários reações

Natural do Brasil, Raphael Lima licenciou-se em Comunicação Social, e depois de trabalhar como redator em vários orgãos de comunicação social como o “Jornal do Brasil” e o “Jornal Extra”, veio viver para Portugal onde está a fazer uma pós-graduação em Crise e Ação Humanitária, no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, em Lisboa.

“Trabalhei como redator, mas a fotografia foi sempre algo que me apaixonou, porque esta permite que a informação chegue às pessoas de uma forma mais rápida alargando simultaneamente o campo de interpretação sobre aquilo que fica registado”, refere o fotógrafo que acrescenta: “ Sem se afastar da verdade dos factos, uma imagem permite uma multiplicidade de reações sobre determinado assunto porque quando olhamos para ela podemos fazer várias leituras daquilo que estamos a ver”.

Apesar das vantagens que encontra na fotografia como forma de comunicação, Raphael Lima considera que há uma complementaridade entre a escrita e a imagem e, por essa razão, não subscreve a tese daqueles que afirmam que vivemos numa “ ditadura da imagem”.

MeaShearim: Judeu ultra-ortodoxo caminha pelo bairro onde vive.

“Pretendo que as minha fotos não sejam óbvias e muito menos preparadas", sublinha, referindo que "tanto pode captar uma cena quotidiana numa qualquer zona do globo", como apontar a câmara para um "edifício abandonado, uma estrada deserta, ou uma criança a brincar numa rua patrulhada por militares".

Em relação à sua estadia na Palestina realça a complexa situação existente naquela região para a qual “não vê solução a médio prazo”.

“É um conflito antigo, há pessoas que nunca viveram de outra maneira e, muitas vezes, pressente-se um clima de grande tensão que depois ganha expressão em atrocidades inimagináveis”, refere.

“Os palestinianos estão emparedados, aprisionadas em pequenos espaços de onde não podem sair sob pena de serem mortos.”

Foi neste contexto de perseguição que Raphael Lima soube da morte de um amigo palestiniano que já estava "marcado" pelas forças israelitas e só podia utlizar a porta das traseiras para entrar e sair de sua casa.

O muro das desigualdades sociais

Raphael Lima sublinha ainda que as desigualdades económicas cresceram vertiginosamente nos últimos anos cavando um fosso ainda maior entre as populações. A problemática das migrações levou-o também a iniciar um projeto com imigrantes residentes em Portugal.

Monte do Templo. O controle é feito pelo exército israelita.

“Em muitas regiões do mundo, os pobres e os migrantes são empurrados para "zonas não recomendáveis" erguendo-se, desta forma, um muro que, não sendo visível, divide também as sociedades e estigmatiza as pessoas”, afirma.

No Brasil, conta, aqueles que residem nas favelas são vistos como “potenciais criminosos” por grande parte da população, "nascem com a prisão na linha do seu horizonte" e não lhes são dadas oportunidades para se "afirmarem na vida".

O mesmo está a acontecer com a crise dos refugiados na Europa que demonstra a “hipocrisia” e a “falta de solidariedade” dos países ricos em relação a quem foge guerra e da miséria.

“ É chocante ver aqueles que se dizem defensores dos direitos humanos, erguerem fronteiras de arame farpado ou enviarem as forças de segurança com ordem para bater em homens, mulheres e crianças que só querem continuar a viver em segurança e com dignidade”.

Raphael Lima em Jerusalém.

Para Raphael Lima, o acordo assinado entre a União Europeia e Turquia é uma mera “cortina de fumo” que não resolve o problema e transforma os refugiados numa espécie de “moeda de troca” em nome de outros interesses.

“É um acordo ignóbil que acabará por agravar este drama pondo ainda em causa a solidariedade que é um pilar essencial no processo de construção europeia”, diz.

"Está a abrir-se o campo para o recrudescimento do extremismo que se estriba em discursos natureza racista e xenófoba. Os países fecham-se sobre si próprios e o futuro passa a ser uma incógnita muito perigosa”, finaliza.

 

 

 

 

 

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